Para o autor, a política moderna é perpassada por um paradigma imunitário. A ideia de comunidade, de vínculo social, não pode ser entendida como um dom ou uma propriedade compartilhada, mas, sim, por meio de uma dívida originária. Tanto communitas quanto immunitas derivam da raiz munus, que evoca a ideia de um dom, de um ônus ou de um dever que os indivíduos contraem uns com os outros (Radomsky, 2017, p. 460). A comunidade, portanto, não é algo que se possui, mas sim uma exposição ao outro.
Esposito se insere na tradição do pensamento biopolítico italiano ao lado de figuras como Giorgio Agamben e Antonio Negri. No entanto, sua abordagem é singular. Enquanto Foucault se concentrou nos discursos de poder e saber, Esposito foca na "atividade ou relação" que define uma comunidade (Wakabayashi, 2015). Para ele, a relação é a condição básica para a existência da comunidade, e não o contrário.
Immunitas e Communitas: O Dilema da Proteção
A tese central de Esposito em Immunitas reside na dialética entre os conceitos de communitas e immunitas. Em uma passagem esclarecedora de uma entrevista, o filósofo sintetiza seu pensamento: "A segunda tese: a imunidade, necessária para proteger a vida, quando levada para além de certos limites, termina por negar a própria vida" (Ferraz, 2017). Esta é a espinha dorsal de toda a sua obra.
O mecanismo de imunização visa proteger o corpo social de ameaças externas e internas, assim como o sistema imunológico protege um organismo. No entanto, quando esse mecanismo se torna excessivo, a política se transforma em um dispositivo que, para se proteger, acaba por negar a própria vida que prometeu resguardar. A immunitas, concebida como isenção do "munus", ou seja, da exposição e da dívida comunitária (Esposito, 2002), é uma reação à communitas. Porém, quando essa reação se torna a regra, a comunidade entra em colapso e a vida é sacrificada em nome de sua própria proteção.
A Biopolítica Como Paradigma Imunitário
A análise de Esposito vai além da metáfora biológica. Ele demonstra como a política moderna está intrinsecamente ligada a esse paradigma, influenciando as categorias jurídico-políticas tradicionais de soberania, liberdade e propriedade (Boeing, 2020). O direito, por exemplo, é apresentado por Esposito como a "primeira imunização", uma estrutura sem a qual os conflitos sociais seriam insustentáveis (Esposito, 2020).
A história do pensamento político, desde Hobbes (com seu estado de natureza como uma guerra de todos contra todos) até o liberalismo e as democracias contemporâneas, é reinterpretada como uma tentativa de administrar riscos e assegurar a vida da população, um diagnóstico que ressoa com as análises foucaultianas sobre as sociedades de segurança (Wakabayashi, 2015). O estado-nação e suas políticas públicas, como a saúde, a educação e a previdência social, podem ser vistos como formas de imunização coletiva.
Tensões e Críticas ao Paradigma Espositiano
A biopolítica afirmativa proposta por Esposito como uma saída do impasse imunitário também não escapa de críticas. Sebastián Botticelli aponta tensões significativas entre o pensamento de Esposito e o de Foucault. Enquanto Foucault mantém uma perspectiva mais histórica e contingente sobre o poder, Esposito busca uma matriz teórica mais abrangente. A "biopolítica afirmativa" é vista como uma passagem de uma política sobre a vida para uma política da vida, um movimento que alguns críticos consideram abstrato ou insuficientemente fundamentado (Botticelli, 2022).
Outra crítica relevante, levantada por Sara Alarcón Consuegra, é a de que a noção de comunidade em Esposito ainda carrega um viés identitário e moderno, e que sua política imunitária, ao tentar cauterizar riscos, acaba por violentar a própria vida que tenta proteger, negando sua abertura e seu devir (Alarcón Consuegra, 2023). Além disso, a filosofia de Esposito também recebeu críticas, ainda que em menor escala, de perspectivas feministas e pós-coloniais. Essas vertentes questionam se seu modelo, centrado em conceitos como "munus" e "impessoal", não estaria negligenciando como as dinâmicas de gênero, raça e colonialismo moldam as relações de poder, imunidade e comunidade.
Aplicações do Modelo: Medicina, Política e Pandemia
A força da teoria de Esposito se revela de forma mais evidente quando aplicada ao estudo de eventos históricos e políticos.
Aplicação do Paradigma | Descrição/Exemplo |
Totalitarismo (Nazismo) | Biopolítica como tanatopolítica: a imunização da "raça ariana" exigiu a exclusão e o extermínio de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes, tratados como corpos estranhos a serem eliminados para a "saúde" do corpo social. |
Neoliberalismo | Deslocamento da responsabilidade do Estado para o indivíduo. As pessoas são incentivadas a se "autogerir" para se manterem produtivas, tornando a própria vida um capital a ser administrado, imunizando o sistema contra crises. |
Eugenia | Conjunto de políticas de controle e "melhoramento" da população que floresceu no final do século XIX e início do XX. Representa a imunização aplicada ao corpo social como um todo. |
Direitos Humanos | Paradoxo: são mecanismos de proteção (imunização) que, ao mesmo tempo, definem quem é digno de proteção e quem não é (migrantes, refugiados). Criam uma "comunidade imunizada" que se fecha contra os "de fora". |
Migrações e Xenofobia | Políticas de fechamento de fronteiras são exemplos contemporâneos de reações imunitárias violentas, onde o "corpo estranho" (o estrangeiro) é visto como uma ameaça à pureza da comunidade. |
Pandemia de COVID-19 | O ápice do paradigma imunitário: uso de máscaras e distanciamento social são formas de proteção que isolam os indivíduos. O medo da contaminação levou a políticas que priorizaram a segurança em detrimento da liberdade e da interação social. |
Conclusão: O Paradoxo da Vida Protegida
A obra de Roberto Esposito oferece uma das mais sofisticadas chaves de leitura para a contemporaneidade. O mérito de seu trabalho é revelar a estrutura paradoxal que subjaz a muitas de nossas instituições e práticas. A vida precisa de proteção, mas o excesso de proteção é uma forma de violência. A política precisa de ordem, mas a ordem a qualquer custo é o germe do totalitarismo.
Immunitas nos convida a uma profunda reflexão sobre o preço que estamos dispostos a pagar por nossa segurança. Em um mundo cada vez mais marcado por crises — sanitárias, climáticas, econômicas e migratórias —, o paradigma imunitário de Esposito demonstra sua atualidade perturbadora. A questão central que permanece é: como equilibrar a necessidade vital de nos protegermos sem que, nesse processo, destruamos a própria vida e a possibilidade de uma comunidade verdadeiramente aberta ao outro?
Referências
Alarcón Consuegra, S. (2023). Roberto Esposito: la biopolítica como dispositivo inmunitario. Amauta, 21(42), 6-17.
Boeing, A. P. S. (2020). Biopolítica e o paradigma imunitário de Roberto Esposito. Revista de Iniciação Científica.
Botticelli, S. (2022). Foucault, Esposito y las posibilidades de una biopolítica afirmativa: supuestos, tensiones e implicancias. Revista de Filosofia Aurora, 34(61), 221-243.
Esposito, R. (2002). Immunitas: Protezione e negazione della vita. Torino: Einaudi.
Esposito, R. (2004). Bios: Biopolitica e filosofia. Torino: Einaudi.
Ferraz, F. G. (2017). Biopolítica e suas derivações no pensamento filosófico-político de Roberto Esposito. Kalagatos, 14(2), 121-131.
Radomsky, G. F. W. (2017). Roberto Esposito: comunidade, biopolítica e imunização. Política & Sociedade, 16(35), 459-473.
Wakabayashi, T. L. (2015). Biopolitics: Foucault, Esposito, and Agamben. Modern Critical Theory Lecture Series. University of Illinois.
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