SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 30 de maio de 2026

— Eu soltei um PUM, professor! Por Egidio Guerra.




A sala estava organizada em semicírculo. As crianças, com suas barrigas cheias do lanche da manhã, se preparavam para mais uma atividade de escrita espontânea. Foi então que um som grave e breve rompeu o silêncio atento. Olhares se cruzaram. E, com a sinceridade que só a infância possui, uma voz pequena anunciou: 

— Eu soltei um PUM, professor! 

O amigo ao lado riu. E o professor? O professor também riu. Não uma risada de deboche, mas uma risada de reconhecimento. Porque naquele instante, entre o susto e o cheiro imaginário, algo muito mais profundo acontecia: um ato de letramento. 

O corpo que aprende e que fala 

Antes mesmo de segurar um lápis ou reconhecer letras, a criança já é um ser letrado em potência. O processo de alfabetização não começa na Educação Infantil — ele começa no colo, no banho, na roda de conversa, na descoberta de que o próprio corpo produz sons, odores e significados. Como nos lembra Vygotsky (2001), pensamento e linguagem nascem da interação social, da necessidade de comunicar experiências internas ao mundo externo. E o que seria mais interno e, ao mesmo tempo, mais público do que um pum? 

Piaget (1976) nos ensina que a criança em fase pré-operatória é egocêntrica, mas também profundamente curiosa sobre os fenômenos do seu corpo. O pum é um evento científico: causa, efeito, reação química. É também um evento linguístico: nomear o ato — "soltei um pum" — é um ato de categorização, um primeiro passo na abstração. Dependendo da fase de escrita, a criança pode representar esse som de formas diversas: no nível pré-silábico, talvez um rabisco que lembre uma nuvem fedorenta; no silábico, a letra "P" solitária; no alfabético, a tríade P-U-M, finalmente domada. 

A sinfonia do letramento 

Paulo Freire (1989) nos advertiu que a leitura da palavra é precedida pela leitura do mundo. E o mundo da criança é feito de cheiros bons e ruins, de risos compartilhados, de perguntas que parecem tolas mas carregam epistemologia. Quando uma criança pergunta "Professor, posso soltar um pum?" ou declara "Eu soltei um pum", ela não está sendo apenas espontânea — ela está exercitando a linguagem em contexto, testando hipóteses sobre o que pode ou não ser dito, negociando significados com os outros. 

É aí que entra Loris Malaguzzi, patrono da abordagem Reggio Emiliacom suas cem linguagens da criança. O pum é uma dessas linguagens: corporal, sonora, olfativa, social. E quando o professor ri junto, em vez de reprimir, ele valida que o aprendizado também acontece no grotesco, no escatológico, no alegremente proibido. A mente corporificada (embodied cognition) nos mostra que a cognição não está só no cérebro, mas nas vísceras, nos músculos, no sistema digestivo. Aprender sobre o mundo passa por aprender sobre o próprio corpo — inclusive seus ruídos indesejados. 

Pequenos atos, grandes despertares 

Pesquisas acadêmicas sobre o "pequeno ato" que gera o despertar da reflexão mostram que eventos inesperados — um pum, uma queda, um espirro — têm enorme potencial pedagógico. Eles quebram a rotina, mobilizam a atenção coletiva e criam memórias afetivas. E memória afetiva é a mãe do letramento significativo. A criança que se lembra, anos depois, de quando a sala inteira riu porque alguém soltou um pum, também se lembrará das palavras que aprenderam naquele dia: "estrondo", "flatulência", "humor", "constrangimento", "perdão". 

O ciclo de alfabetização não se consolida com fichas e exercícios mecânicos. Ele se consolida quando a família, a escola e os espaços não escolares dançam juntos essa sinfonia. A avó que diz "Quem soltou foi o sapo", o amigo que aponta o dedo, o professor que escreve no quadro a palavra PUM e pede que cada um tente escrever do seu jeito — todos são instrumentos dessa orquestra. E o corpo da criança é o maestro. 

Letrar é alegria de aprender com a vida 

Certa vez, alguém me perguntou o que é saúde. Respondi: saúde é comer, viver, se divertir — não é remédios, não é hospital. Letramento é a mesma coisa. Letrar não é preencher lacunas e decorar regras. Letrar é encontrar alegria no ato de nomear o mundo, inclusive suas partes mais fedidas. É rir do próprio pum e, rindo, aprender que a letra P tem som de sopro, que a letra U é redonda como a surpresa, que a letra M fecha a boca no final, como quem contém a gargalhada. 

E a gargalhada, no fim, é o melhor método de alfabetização. 

Portanto, caro professor, quando um aluno soltar um pum na sua sala, não repreenda. Pergunte, com um sorriso: "E como a gente escreve esse som?" Você pode estar diante do maior texto que aquela criança produzirá no dia. E, quem sabe, do momento em que ela descobrirá que as palavras servem também para nomear o que é humano, sujo, engraçado e profundamente vivo. 

Afinal, como diria Freire, não há docência sem discência, e não há discência sem flatulência ocasional. 

O pum foi dado. A palavra foi dita. E o letramento, mais uma vez, venceu. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário