Introdução: O Século Americano da Troca de Regimes
Quando o presidente Donald Trump declarou, após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas, que os Estados Unidos "agora iriam administrar a Venezuela" — incluindo seu abundante petróleo — ele não estava inaugurando uma nova era da política externa. Estava, na verdade, reproduzindo um padrão centenário. Como documenta o jornalista Stephen Kinzer em Overthrow: America's Century of Regime Change from Hawaii to Iraq, "mudança de regime não começou com a administração de George W. Bush, mas tem sido parte integrante da política externa dos EUA por mais de cem anos". Desde a derrubada da monarquia havaiana em 1893 até a invasão do Iraque em 2003, os Estados Unidos depuseram catorze governos estrangeiros que "se interpunham no caminho de seus objetivos políticos e econômicos".
O que Kinzer revela — e que este texto pretende aprofundar — é que por trás do discurso de "democracia", "liberdade" e "segurança nacional", sempre existiram interesses econômicos concretos: petróleo, terras, mercados, recursos minerais estratégicos e, mais recentemente, o controle de dados e da economia digital. O século XXI assistiu a uma sofisticação desse modelo: a mudança de regime tornou-se um negócio multifacetado que combina intervenção militar, sanções econômicas, guerra híbrida, pressão diplomática e, crucialmente, acordos comerciais que beneficiam diretamente empresas americanas — do setor imobiliário às Big Techs, da indústria do petróleo ao mercado de terras raras.
Este texto analisa, a partir da matriz teórica de Kinzer e de outros pesquisadores acadêmicos e jornalísticos, como a política de mudança de regime se tornou um mecanismo de acumulação de capital para elites americanas e seus aliados. Os casos da Venezuela, Palestina, Irã, Cuba e Brasil serão examinados à luz desse paradigma, com especial atenção ao papel da família Bolsonaro na articulação de interesses econômicos com a agenda geopolítica dos EUA, envolvendo a venda de terras raras, a exploração da Amazônia e a interferência das Big Techs na soberania brasileira.
Parte I: Overthrow — O Século de Intervenção por Interesses Econômicos
A Tese Central de Kinzer: Negócios Acima da Democracia
Publicado originalmente em 2006, Overthrow narra as operações de mudança de regime promovidas pelos EUA ao longo de três eras distintas: a era imperial (que subjugou Cuba, Porto Rico, Filipinas, Nicarágua e Honduras); a era da Guerra Fria (que utilizou ação encoberta contra Irã, Guatemala, Vietnã do Sul, Brasil e Chile); e a era das invasões (que viu tropas americanas derrubando governos em Granada, Panamá, Afeganistão e Iraque).
Kinzer demonstra que, em praticamente todos os casos, os motivos declarados — contenção do comunismo, defesa dos direitos humanos, luta contra o terrorismo — serviram de fachada para interesses corporativos. As grandes empresas americanas, com seus lobbies em Washington, foram protagonistas ativas dessas intervenções. Como resume o próprio Kinzer, "nenhuma nação na história moderna fez isso tantas vezes, em tantos lugares tão distantes de suas próprias costas".
A crítica acadêmica ao trabalho de Kinzer, no entanto, aponta que sua abordagem, embora rigorosa na documentação, por vezes subestima as motivações geopolíticas e ideológicas que também moldaram essas intervenções. Oliver Stuenkel, pesquisador da Carnegie Endowment for International Peace, observa que a operação contra a Venezuela em 2026 representa uma "ruptura acentuada" em relação às operações anteriores, refletindo não mais motivações da Guerra Fria ou idealismo democrático, mas sim "interesses econômicos e estratégicos nus e crus".
Os Casos Clássicos: Petróleo, Frutas e Terras
O Irã de 1953 é paradigmático. Quando o primeiro-ministro democraticamente eleito Mohammad Mosaddegh nacionalizou a indústria do petróleo iraniana, a CIA e o MI6 britânico organizaram o golpe que o depôs. Como resultado, "sete empresas americanas conhecidas como as 'Sete Irmãs' (incluindo Exxon e Mobil) assumiram o controle" das operações petrolíferas do país, consolidando um consórcio liderado pelos EUA. O xá, instalado no poder, estabeleceu uma ditadura brutal com a temível SAVAK, mas permaneceu incondicionalmente pró-americano.
A Guatemala (1954) foi derrubada porque o presidente Jacobo Árbenz ousou redistribuir terras da United Fruit Company aos camponeses. O Chile (1973) sofreu o golpe contra Salvador Allende porque a nacionalização do cobre ameaçava os interesses da Anaconda e da Kennecott. O Iraque (2003), como apontam análises contemporâneas, foi invadido sob o pretexto de armas de destruição em massa, mas logo se revelou uma guerra pelo controle do segundo maior estoque de petróleo do mundo — 112 bilhões de barris — e pela ruptura do cartel da OPEP. Documentos vazados da administração Bush mostraram que os EUA planejavam colocar todo o petróleo iraquiano sob controle de um fundo fiduciário administrado pelos EUA e seus aliados até que um "governo iraquiano adequadamente constituído" fosse instalado.
Parte II: Venezuela — O Petróleo como Prêmio de Guerra
Décadas de Pressão sobre a Riqueza Petrolífera
A captura de Nicolás Maduro por forças especiais americanas em janeiro de 2026 representou o desfecho de uma longa história de confronto entre os EUA e o nacionalismo petrolífero venezuelano. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo — 303 bilhões de barris, superando a Arábia Saudita, cerca de 20% das reservas globais. Empresas americanas, incluindo a Standard Oil, desempenharam um papel fundamental no lançamento e na sustentação do boom do petróleo venezuelano a partir da década de 1910.
No entanto, quando a Venezuela começou a afirmar o controle sobre seu principal recurso — ingressando na OPEP em 1960 e nacionalizando a indústria em 1976 — as relações com os EUA se deterioraram. A administração Trump impôs sanções ao setor de petróleo venezuelano a partir de 2017, proibindo transações com o governo e a PDVSA e congelando ativos.
O Discurso da "Tomada Roubada" e a Intervenção Militar
Após a captura de Maduro, Trump declarou que os EUA "construíram a indústria petrolífera da Venezuela com talento, esforço e habilidade americanos, e o regime socialista a roubou de nós". Empresas americanas estavam "prontas para investir bilhões para modernizar a infraestrutura petrolífera em ruínas da Venezuela" e "começar a ganhar dinheiro para o país". A linguagem é reveladora: não se tratava de ajudar a Venezuela, mas de retomar algo que os EUA consideravam seu por direito.
A acadêmica Oliver Stuenkel, da Carnegie Endowment, observa que o plano para a Venezuela representou um "afastamento acentuado das operações de mudança de regime das oito décadas anteriores" dos EUA, substituindo motivações ideológicas por interesses econômicos explícitos. O petróleo venezuelano, agora, seria administrado diretamente pelos EUA — uma forma contemporânea de imperialismo de recursos.
Parte III: Palestina — O Conflito como Negócio Imobiliário
"Nada Mais do que uma Disputa Imobiliária"
A caracterização mais brutal e reveladora do conflito israel-palestino veio do próprio Donald Trump, que certa vez descreveu a questão árabe-israelense como "nada mais do que uma disputa imobiliária entre israelenses e palestinos". A frase, chocante em sua simplificação, captura uma dimensão frequentemente negligenciada do conflito: sua natureza como uma transferência massiva de propriedade territorial, mediada por empresas imobiliárias americanas que lucram com a colonização da Cisjordânia.
Empresas Americanas Lucrando com Terras Palestinas
A imprensa investigativa tem documentado como empresas imobiliárias americanas estão ativamente envolvidas na venda de terras palestinas ocupadas. A revista The Nation revelou, em agosto de 2025, que "enquanto a Cisjordânia é dividida em assentamentos ilegais, empresas imobiliárias americanas estão ansiosas para lucrar". Uma rede de empresas especializadas vende terras palestinas a cidadãos americanos, facilitada por uma lei israelense de 1950 que permite que qualquer judeu adquira automaticamente cidadania em Israel, tornando a compra de terras ocupadas mais fácil para compradores norte-americanos.
Feiras imobiliárias que anunciam propriedades à venda nos territórios ocupados são realizadas regularmente em cidades americanas, incluindo Nova York. Em maio de 2026, um desses eventos ocorreu em uma sinagoga no Brooklyn, exibindo terrenos em assentamentos como Kfar Eldad, Karnei Shomron e Gush Etzion — todos considerados ilegais sob o direito internacional. As vendas são descritas como "consideradas ilegais segundo o direito internacional".
O Plano Kushner e a "Oportunidade de Desenvolvimento"
Jared Kushner, genro e ex-assessor de Trump, elaborou um plano de 20 pontos para Gaza que, segundo analistas, visa transformar o enclave devastado em uma "oportunidade de desenvolvimento imobiliário" pós-genocídio. O plano, endossado pelo Conselho de Segurança da ONU, prevê que Israel anexe todos os seus assentamentos na Cisjordânia, concedendo aos palestinos um estado "semi-contíguo" no território remanescente. Como escreveu o acadêmico Juan Cole, "quando o bombardeio de Gaza finalmente cessar, a administração dos EUA promoverá a oportunidade de desenvolvimento imobiliário pós-genocídio".
Empresas imobiliárias americanas, portanto, não são apenas testemunhas passivas da ocupação — são participantes ativas, lucrando diretamente com a expropriação de terras palestinas. A Palestina tornou-se, assim, um mercado imobiliário onde vidas humanas e direitos nacionais são subordinados aos interesses de incorporadoras e investidores.
Parte IV: Irã — O Retorno de 1953
A Recorrência Histórica
O Irã de 2026 não é diferente do Irã de 1953. Como escreve o Daily Mirror, "o presidente Donald Trump quer uma mudança de regime em Teerã pela mesma razão que o primeiro-ministro Mossadegh foi derrubado em 1953, e essa razão é o petróleo". O secretário de Estado Marco Rubio, em declarações que revelam a natureza da nova ordem mundial sob Trump, não escondeu que o objetivo é garantir "controle total sobre o petróleo iraniano e enfraquecer a China, que obtém 90% de seu combustível do Irã".
O Petróleo Como Moeda de Troca
Após o golpe de 1953, as "Sete Irmãs" petrolíferas americanas receberam uma participação de 40% na nova Companhia Nacional de Petróleo do Irã. O xá, reinstalado no poder, estabeleceu uma ditadura que comprava armas americanas em volumes massivos, mas nunca recebeu metade dos lucros do petróleo. O padrão que se desenha para um eventual Irã pós-regime é o mesmo: acesso privilegiado para empresas americanas, subordinação econômica e a perpetuação de uma estrutura de extração de riquezas que beneficia acionistas em Nova York e Houston, não o povo iraniano.
Parte V: Cuba — O Retorno ao Status de Estado Cliente
De Colônia Americana a Estado Socialista, e de Volta?
A história das relações EUA-Cuba é a história do imperialismo americano em sua forma mais explícita. De 1898 a 1959, "o governo americano essencialmente administrou Cuba como uma colônia dentro de seu império". Os americanos decidiram repetidamente quem ocuparia o palácio presidencial, enquanto políticos cubanos protegiam investimentos americanos e apoiavam a supremacia dos EUA no Caribe. A máfia americana administrava os hotéis e o jogo.
A revolução de 1959 e a nacionalização de todas as empresas americanas — sem compensação financeira — puseram fim a esse arranjo. Agora, Trump pretende reverter esse legado. A administração Trump impôs um embargo de petróleo que "pode empurrar Cuba para a pior crise econômica de sua história". O governo dos EUA quer que o presidente Díaz-Canel deixe o país e "permita investimentos americanos em Cuba, particularmente de cubano-americanos, o que tem sido proibido há muito tempo".
A "Solução Venezuela" para Cuba
Trump e o secretário de Estado Rubio parecem determinados a promover uma mudança de regime em Cuba, uma abordagem de "ruptura acentuada" em relação à política dos EUA desde a Guerra Fria. O objetivo declarado é transformar Cuba em "algo menos do que uma nação soberana e mais parecido com um estado cliente americano". O modelo é a Venezuela pós-Maduro: intervenção, derrubada do governo, e reabertura da economia para empresas americanas. Cuba, com sua localização estratégica a apenas 145 quilômetros da Flórida, seus recursos naturais e seu mercado potencial, é vista como um prêmio geoeconômico demasiado valioso para ser deixado nas mãos de um regime que não se alinha com os interesses corporativos americanos.
Parte VI: Brasil — Big Techs, Terras Raras e a Face Contemporânea da Mudança de Regime
O Lobby das Big Techs e a Guerra Comercial de Trump
O Brasil oferece o exemplo mais sofisticado e contemporâneo de como a "mudança de regime" deixou de ser apenas sobre derrubar governos e passou a incluir a reconfiguração de ambientes regulatórios para beneficiar corporações americanas — sem necessariamente trocar o governo, mas pressionando-o até que ele se submeta.
Em julho de 2025, Trump impôs uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e iniciou uma investigação comercial contra o país sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A investigação visava as práticas brasileiras em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, fiscalização anticorrupção, proteção de propriedade intelectual e desmatamento ilegal.
O que pouca mídia noticiou é que por trás dessa pressão estava um poderoso grupo de lobby financiado pelas maiores empresas de tecnologia dos EUA: Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber, Apple, Pinterest e eBay. A Computer and Communications Industry Association (CCIA) compilou, em outubro de 2024, um relatório detalhando todas as ações do governo e do legislativo brasileiro que iam contra os interesses das Big Techs — desde a suspensão do X (antigo Twitter) até a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a chamada "taxa das blusinhas" sobre compras internacionais. O relatório foi apresentado ao Departamento de Comércio dos EUA.
Minutos após Trump anunciar as tarifas e a investigação, a CIA publicou uma nota aplaudindo a iniciativa: "A CIA acolhe a atenção da administração para as barreiras do Brasil às exportações digitais dos EUA". A investigação, portanto, não era sobre comércio justo — era sobre garantir que o Brasil não pudesse regular empresas americanas que operam em seu território.
Flávio Bolsonaro e a Articulação Pró-EUA
Dentro do Brasil, a família Bolsonaro tem atuado como elo entre interesses americanos e a política doméstica. Em março de 2026, o senador Flávio Bolsonaro discursou na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) no Texas, defendendo o fortalecimento das relações entre Brasil e EUA, com ênfase especial nos minerais de terras raras. Bolsonaro destacou "o potencial do Brasil como fornecedor estratégico de minerais de terras raras para os EUA", citando a dependência excessiva americana da China, que fornece cerca de 70% desses materiais cruciais.
A mensagem de Bolsonaro foi explícita: o Brasil poderia se tornar "um aliado regional significativo ou alinhar-se contra os interesses dos EUA". Em outras palavras, a aliança com Washington vinha condicionada à abertura da economia brasileira para suprir as necessidades estratégicas americanas. Ele também criticou o presidente Lula por suas "alegadas afiliações com grupos contrários aos valores americanos" e endossou Trump, acreditando que ele "reconheceria o status leal do Brasil".
A Disputa pelas Terras Raras da Amazônia
Os minerais de terras raras são essenciais para a produção de smartphones, computadores, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, mísseis e equipamentos de defesa. A China domina atualmente o mercado, processando cerca de 90% dos minérios de terras raras do mundo. O Brasil possui uma das maiores reservas do planeta, mas historicamente tem exportado o minério bruto, sem agregação de valor em território nacional.
O senador Flávio Bolsonaro defende "permitir que empresas e países estrangeiros participem do desenvolvimento de recursos de terras raras do Brasil, com ênfase na transferência de tecnologia como condição central". A proposta é, na prática, abrir o subsolo brasileiro para exploração direta por empresas americanas — algo que ecoa as políticas de "portas abertas" impostas pelos EUA a outros países ao longo do século XX.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em posição oposta, tem defendido que os minerais de terras raras sejam processados em solo brasileiro antes de serem exportados. Em reunião com Trump, Lula afirmou que "nenhum minério deixaria o Brasil em estado bruto — qualquer minério que saísse do país deveria ser processado e refinado em solo brasileiro". Lula também recusou a criação de um "clube exclusivo" de acesso às reservas, afirmando que "estamos abertos à China e a todos os países dispostos a processar nossos minerais em nosso território". A posição de Lula representa uma resistência à lógica de extração neocolonial que a família Bolsonaro parecia disposta a aceitar.
Amazônia, Desmatamento e Pressão Comercial
A investigação comercial de Trump também incluiu, explicitamente, a questão do desmatamento ilegal na Amazônia — mas não por razões ambientais genuínas. Como reportou a China Daily, "as tensões aumentaram acentuadamente desde que Trump retornou ao cargo em janeiro de 2025. Além de tarifas punitivas de até 50%, os EUA também interferiram nos assuntos internos do Brasil, inclusive pressionando o judiciário para não atingir aliados e seguidores do ex-presidente Bolsonaro".
O uso do desmatamento como alavanca comercial revela a lógica da "condicionalidade": os EUA não estão preocupados com a floresta, mas com a capacidade de usar o tema como instrumento de pressão para garantir outras concessões — entre elas, o acesso irrestrito das Big Techs ao mercado brasileiro e a abertura da exploração de terras raras.
Parte VII: A Face Contemporânea da Mudança de Regime — Negócios sem Tropas
A Sofisticação do Modelo
O que os casos da Venezuela, Palestina, Irã, Cuba e Brasil revelam é que a "mudança de regime" contemporânea raramente depende apenas de invasões militares ou golpes de Estado — embora esses ainda ocorram, como na Venezuela. O modelo atual combina múltiplas ferramentas:
Sanções econômicas que asfixiam economias inteiras e criam crises humanitárias, minando a legitimidade de governos (Cuba, Venezuela, Irã).
Pressão comercial e tarifária para reconfigurar ambientes regulatórios em favor de corporações americanas (Brasil, com o lobby das Big Techs).
Intervenção militar seletiva para remover líderes considerados hostis (Venezuela, potencialmente Irã e Cuba).
Cooptação de elites locais dispostas a atuar como intermediárias de interesses estrangeiros (Flávio Bolsonaro e o discurso pré-abertura econômica).
Instrumentalização de temas ambientais e de direitos humanos como alavancas de pressão geopolítica (a inclusão do desmatamento na investigação comercial contra o Brasil).
Críticas Acadêmicas e Limitações do Modelo
O paradigma da "mudança de regime como negócio" não está isento de críticas. Oliver Stuenkel, ao analisar a operação na Venezuela, argumenta que o plano representa "um afastamento acentuado" das operações das oito décadas anteriores, refletindo uma nova era em que os interesses econômicos são explicitamente declarados como objetivo, não escondidos sob retórica de democratização. Essa transparência brutal, no entanto, pode gerar reações contrárias e fortalecer a resistência nacionalista nos países-alvo.
Outros críticos apontam que a abordagem de Kinzer, embora poderosa, tende a subestimar a agência local e a complexidade dos processos políticos. Nem toda mudança de regime é apenas um negócio; há também dimensões ideológicas, estratégicas e de segurança que moldam as decisões americanas. No entanto, o acúmulo de evidências nos casos examinados sugere que, mesmo quando existem outras motivações, os interesses econômicos consistentemente emergem como fator decisivo.
Conclusão: O Negócio da Mudança de Regime no Século XXI
O século americano da mudança de regime, documentado por Kinzer, não terminou com o Iraque. Ele apenas se metamorfoseou. O petróleo continua sendo o motor central — Venezuela, Irã e os esforços para reabrir Cuba à exploração americana são prova disso. Mas novos motores surgiram: o mercado imobiliário na Palestina, que transforma a ocupação em lucro; o controle dos dados e da economia digital, que levou as Big Techs a influenciarem diretamente a política comercial de Trump contra o Brasil; e os minerais de terras raras, essenciais para a transição energética e a indústria de defesa, que tornam a Amazônia um novo front de disputa geopolítica.
A atuação da família Bolsonaro — com Flávio articulando abertamente nos EUA a abertura da economia brasileira para exploração americana de terras raras, em troca de apoio político — é a expressão mais acabada do novo modelo: elites locais que se colocam como intermediárias de interesses estrangeiros, vendendo soberania em troca de alianças e proteção. A recusa de Lula em aceitar as condições americanas — mantendo o processamento de minerais em território brasileiro e recusando um "clube exclusivo" de acesso — representa a linha de resistência contra essa lógica neocolonial.
O que une os cinco casos examinados — Venezuela, Palestina, Irã, Cuba, Brasil — é a transformação da política internacional em um mercado. Governos são derrubados ou pressionados não por princípios, mas por interesses. Terras são vendidas, recursos são extraídos, mercados são abertos à força. E por trás de tudo, empresas americanas — petrolíferas, imobiliárias, de tecnologia, de mineração — aguardam para lucrar.
Como conclui Kinzer em Overthrow, "a leitura do livro de Stephen Kinzer é tão fascinante e enfurecedora que somos tentados a deixar de lado o impulso convencional de resenhar e simplesmente insistir que todos comprem o livro e devorem a história por si mesmos". A história da mudança de regime americana é a história do capitalismo em sua forma mais predatória — disfarçado de democracia, executado por meio de força, e pago com a riqueza e a soberania de nações mais fracas.
Referências
Fonte Principal
Kinzer, Stephen. Overthrow: America's Century of Regime Change from Hawaii to Iraq. New York: Times Books/Henry Holt and Company, 2006.
Fontes Acadêmicas e Jornalísticas sobre Mudança de Regime e Interesses Econômicos
Stuenkel, Oliver. "The U.S. Plan for Venezuela Has a Precedent. It's Not Good". Carnegie Endowment for International Peace, 12 jan. 2026.
"US intervention in the Middle East: From the 1953 Iran coup to Iraq, Libya and Syria". RT News, 2 mar. 2026.
"CIA's Overthrow of Iran in 53 Reaps Bitter Harvest". Scoop.co.nz, 14 set. 2008.
"Move to control Iraqi oil warps altruistic motives". Star Bulletin, 11 mai. 2003.
"The 'Libya's About Oil' Angle". Foreign Policy Association, 23 mar. 2011.
Sobre Venezuela
"Before toppling Maduro, the US spent decades pressuring Venezuelan leaders over its oil wealth". The Conversation, 5 jan. 2026.
"Venezuela's oil industry has flailed under government control – Mexico and Brazil have had more success with nationalizing". The Conversation, 12 jan. 2026.
Sobre Palestina e Negócios Imobiliários
"Israeli Real Estate Expo Advertising West Bank Settlements Returns to NYC". The Intercept, 11 mai. 2026.
"The Americans Stealing Palestinian Land". The Nation, 26 ago. 2025.
"Is Trump building peace — or a property deal on the graves of Palestinians?" The Independent, 22 jan. 2026.
Sobre Cuba
"Trump's 'Venezuela solution' to Cuba would see the island nation returned to a client state". The Conversation, 23 mar. 2026.
"Following Venezuela, Is Cuba Next in Line for a US-Orchestrated Regime Change?" The Quint, 25 fev. 2026.
Sobre Brasil — Big Techs, Terras Raras e Bolsonaro
"How Trump's trade war with Brazil serves Big Tech's interests". openDemocracy, 10 jul. 2025.
"A report shows that Trump's move to investigate Brazil follows Big Tech's interests". Global Voices, 4 set. 2025.
"Flavio Bolsonaro Advocates US-Brazil Ties at Texas Political Conference". Devdiscourse, 30 mar. 2026.
"Lula, Trump, and the Geopolitics of Rare Earths: Brazil's Position Between Washington and Beijing". Ricardo Martins, mai. 2026.
"Tariffs and the new geopolitics of the Amazon". China Daily, 20 ago. 2025.
Documentos Oficiais e Relatórios
CCIA (Computer & Communications Industry Association). "Comments for the 2025 USTR National Trade Estimate Report", out. 2024.
Office of the United States Trade Representative. "Section 301 Investigation into Brazil's Unfair Trading Practices", jul. 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário