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sábado, 2 de maio de 2026

A Obra de Mark Fisher




  • Autor: Mark Fisher (1968-2017), teórico cultural britânico, professor no Departamento de Culturas Visuais da GoldsmithsUniversity of London, e fundador do influente blog k-punk 

  • Principais obras analisadas: 

  • Capitalist RealismIs There No Alternative? (2009) — edição brasileira: Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo? 

  • The Weird and the Eerie (2016) — publicado postumamente 

  • Ghosts of My Life: Writings on DepressionHauntology and Lost Futures (2014) 

  • Morte: Fisher cometeu suicídio em janeiro de 2017, aos 48 anos, após longa luta contra a depressão — fato que confere peso adicional às suas análises sobre saúde mental e capitalismo 

Por que Fisher importa? Diferentemente de boa parte da teoria crítica acadêmica, Fisher escrevia para um público amplo, usando referências da música pop (The FallBurialJoy Division), do cinema (Kubrick, Lynch, Nolan) e da ficção científica (Lovecraft, Dick, Le Guin) para construir uma crítica política que era ao mesmo tempo rigorosa e acessível. Sua morte precoce, aos 48 anos, transformou sua obra num testamento intelectual — e num alerta sobre o que ele próprio chamava de "privatização do estresse". 

 

Parte I: Capitalist Realism (2009) — A Moldura Política e Econômica 

1.1. A Tese Central: O Fim das Alternativas 

A frase que abre o livro e se tornou seu epitáfio é também sua tese mais conhecida: 

"É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo" 

Fisher argumenta que, desde a queda do Muro de Berlim em 1989 e o colapso da União Soviética, o capitalismo deixou de ser percebido como um sistema entre outros para se tornar o único sistema possível — um horizonte intransponível da experiência humana. É a isso que ele chama de realismo capitalista: não uma ideologia que precisa ser imposta, mas um clima cultural no qual a própria ideia de alternativa parece ingênua, antiquada ou simplesmente impensável. 

Como resume a resenha da University College Oxford: 

"Fisher argumenta que a falta de alternativas a este sistema, que ele considera profundamente falho, cria um sentimento de cinismo e apatia política". 

1.2. O Efeito nas Subjetividades: Reflexive Impotence 

Um dos conceitos-chave do livro é a "impotência reflexiva" (reflexive impotence): sabemos que o sistema é injusto, sabemos que o planeta está sendo destruído, sabemos que estamos alienados — e ainda assim agimos como se não houvesse o que fazer. Não é uma questão de ignorância ou de falta de informação. É a percepção de que qualquer ação individual é fútil diante da escala do problema. 

"Se você realizasse uma manifestação e todos viessem? Fisher argumenta que o realismo capitalista não opera pela supressão direta da dissidência, mas tornando-a inofensiva — absorvendo-a, cooptando-a, transformando-a em espetáculo". 

O capítulo 2 do livro, "What if you held a protest and everyone came?", examina exatamente esse paradoxo: as grandes manifestações contra a guerra no Iraque em 2003 reuniram milhões de pessoas em todo o mundo — e não tiveram nenhum efeito sobre a decisão de invadir. A mensagem implícita: protestar não funciona, o sistema é indiferente à sua opinião, volte para casa. 

1.3. Saúde Mental como Campo de Batalha Político 

Talvez o capítulo mais impactante do livro — e o mais doloroso à luz da biografia do autor — seja aquele que conecta realismo capitalista e sofrimento psíquico. Fisher argumenta que a epidemia de depressão, ansiedade e burnout nas sociedades ocidentais não é um fenômeno natural ou meramente clínico, mas um sintoma direto do modo de produção neoliberal. 

"O realismo capitalista insiste em tratar a saúde mental como se fosse um fato natural, como o clima (mas, novamente, o clima já não é mais um fato natural tanto quanto um efeito político-econômico)". 

Fisher cita o trabalho de Oliver James em The Selfish Capitalist, que correlaciona o aumento das taxas de sofrimento mental com o modelo neoliberal praticado em países como Reino Unido, EUA e Austrália. A conclusão de Fisher é contundente: 

"Em vez de tratar como incumbência dos indivíduos resolver seu próprio sofrimento psicológico — ou seja, em vez de aceitar a vasta privatização do estresse que ocorreu nos últimos trinta anos — precisamos perguntar: como se tornou aceitável que tantas pessoas, e especialmente tantos jovens, estejam doentes?" 

A crítica aqui é dupla. Primeiro, ao biologismo redutivo que trata a depressão como mero desequilíbrio químico, despolitizando o sofrimento. Segundo, ao individualismo terapêutico que responsabiliza o sujeito por sua própria "resiliência" — como se o problema fosse a falta de força de vontade, e não um sistema que produz adoecimento em massa. 

"A ontologia dominante atual nega qualquer possibilidade de causação social da doença mental. A químico-biologização da doença mental é, naturalmente, estritamente compatível com sua despolitização". 

1.4. Educação e Cultura sob o Realismo Capitalista 

Fisher dedica partes significativas do livro à análise da transformação da universidade e do sistema educacional. O que antes era esfera pública e espaço de formação crítica tornou-se, sob o neoliberalismo, um braço da lógica empresarial: alunos como consumidores, professores como prestadores de serviços, conhecimento como mercadoria, pesquisa subordinada a métricas de "impacto" e "produtividade". 

A ironia, para Fisher, é que o sistema solicita ativamente nossa participação — "junte-se ao debate", "dê seu feedback", "seja proativo" — mas dentro de parâmetros que já excluem de antemão qualquer transformação estrutural. É o que ele chama de cultura interpassiva: agimos como se estivéssemos participando, mas a agência real permanece nas mãos das corporações e do Estado. 

 

Parte II: The Weird and the Eerie (2016) — As Ferramentas Conceituais 

Publicado no ano de sua morte, este breve ensaio (133 páginas) é ao mesmo tempo um desvio aparente e uma extensão natural do projeto crítico de Fisher. À primeira vista, é um livro sobre horror, ficção científica e cinema. Em sua essência, é um livro sobre agência, materialidade e os limites da percepção humana — temas que conectam diretamente com sua crítica ao capitalismo. 

2.1. Além de Freud e do Uncanny 

Fisher começa rejeitando a categoria freudiana do unheimlich (estranho/inquietante) como insuficiente para dar conta do que ele quer examinar. Para Freud, o unheimlich é o familiar tornado estranho — o conhecido que retorna sob uma forma perturbadora. É, em última análise, um movimento centrado no humano, na casa, no doméstico. 

"O unheimlich de Freud é decepcionante como a solução roteirizada de qualquer detetive medíocre para um mistério". 

weird e o eerie, ao contrário, descentram o humano. Eles nos permitem "ver o interior da perspectiva do exterior". Não se trata do familiar que assusta, mas do fora que irrompe — algo que não pertence, que não deveria estar aqui, e cuja presença invalida nossas categorias de compreensão. 

2.2. Definindo o Weird (O Estranho-Monstruoso) 

"O weird é constituído por uma presença — a presença daquilo que não pertence". 

weird envolve a irrupção, em um cenário familiar, de algo que simplesmente não encaixa. Não é que esse algo seja "errado" em si mesmo — é que sua existência demonstra que nossas concepções de mundo estão inadequadas. 

"A coisa estranha não está errada, afinal: são as nossas concepções que devem ser inadequadas". 

Exemplos centrais para Fisher incluem: 

  • H.P. Lovecraft: o mestre do weird fiction, em que entidades alienígenas e dimensões paralelas irrompem na Nova Inglaterra. A reação adequada não é o medo puro, mas a fascinação — uma atração ambivalente que Fisher, seguindo Lacan, chama de jouissance (gozo), mistura de prazer e dor. 

  • Philip K. Dick e World on a Wire (Fassbinder): narrativas que produzem um weird cognitivo, no qual a própria estrutura da realidade se torna instável. Não se trata de efeitos especiais, mas de uma erosão da confiança ontológica. 

  • David Lynch, especialmente Mulholland Drive: as cortinas, os sonhos dentro de sonhos, a figura deformada atrás do restaurante — tudo isso produz um weird que se recusa a ser resolvido em uma "solução" narrativa. 

"O weird não pode apenas repelir, ele deve também compelir nossa atenção". 

2.3. Definindo o Eerie (O Sinistro-Erie) 

"O eerie, por contraste, é constituído por uma falha de ausência ou por uma falha de presença. Há algo onde não deveria haver nada, ou não há nada onde deveria haver algo". 

eerie diz respeito a questões de agência: quem ou o que está agindo? Há um agente invisível operando? Ou, inversamente, onde esperamos encontrar um agente, há apenas um vazio? 

  • Falha de ausência (algo onde não deveria haver nada): vozes disembodied, fenômenos inexplicáveis, ruínas que sugerem uma presença que já partiu mas deixou vestígios. As fitas de The Stone Tape de Nigel Kneale: uma casa que "gravou" um evento traumático em sua própria estrutura material, reproduzindo-o sem nenhuma consciência ou intencionalidade. 

  • Falha de presença (nada onde deveria haver algo): Stonehenge — alguém o construiu, mas esse agente se foi, e não podemos recuperar seus propósitos. Ou o inconsciente freudiano: uma agência que opera dentro de nós sem nossa consciência ou controle. 

A passagem mais citada sobre o eerie é também a que conecta mais diretamente com o projeto crítico de Fisher: 

"O capital é, em todos os níveis, uma entidade eerie: conjurada do nada, o capital no entanto exerce mais influência do que qualquer entidade supostamente substancial". 

O capital não é uma "coisa" no sentido tradicional — você não pode apontar para ele, tocá-lo, vê-lo diretamente. E, no entanto, ele organiza a vida de bilhões de pessoas, decide quem vive e quem morre, molda cidades, guerras, empregos e desejos. Essa desconexão entre a insubstancialidade aparente do capital e seus efeitos materiais avassaladores é precisamente a estrutura do eerie. 

2.4. O Grotesco e The Fall 

Um capítulo notável do livro trata do grotesco, via análise da banda pós-punk The Fall e seu vocalista Mark E. Smith. Para Fisher, o grotesco compartilha com o weird a sensação de algo que não pertence — mas com uma diferença crucial: o grotesco provoca tanto riso quanto repulsa. 

"O riso do The Fall não emana do senso comum mainstream, mas de um fora psicótico". 

Smith e sua banda representam, para Fisher, uma política cultural do estranho — uma recusa sistemática em se encaixar nas categorias burguesas do "bom gosto", do "apropriado" e do "profissional". O Norte da Inglaterra, de onde The Fall vinha, torna-se na visão de Smith o locus de tudo que a cultura urbana refinada suprime: o esotérico, o anômalo, o "sublime vulgar". 

 

Parte III: A Ponte entre os Dois Livros — Capital, Agência e o Fim do Mundo 

É um erro ler Capitalist Realism e The Weird and the Eerie como obras separadas. Fisher estava fazendo um movimento único em dois registros: o explícito-político e o estético-filosófico. 

3.1. O Capital como Entidade Eerie 

A conexão mais direta está na análise do capital como entidade eerie. O capital não tem corpo, não tem localização fixa, não responde à democracia nem à moral. E, no entanto, ele é a força mais poderosa do planeta. Quando Fisher escreve que "o capital é conjurado do nada", ele está ecoando uma tradição marxista que remonta ao Capital de Marx — mas com uma inflexão cultural e psicológica que é inteiramente sua. 

"Forças como o capital não existem em nenhum sentido substancial, mas são capazes de produzir praticamente qualquer tipo de efeito". 

Essa é a experiência do eerie no cotidiano neoliberal: você sabe que algo está governando sua vida, mas não consegue nomeá-lo, localizá-lo, enfrentá-lo. Os mercados financeiros sobem e descem com base em "sentimento do investidor" — uma entidade tão evanescente e ao mesmo tempo tão determinante quanto o inconsciente freudiano. 

3.2. A Perda do Futuro e a Hauntologia 

Em Ghosts of My Life (2014) e em passagens de Capitalist Realism, Fisher desenvolve o conceito de hauntologia (termo emprestado de Jacques Derrida): a sensação de que estamos vivendo em um presente assombrado por futuros que nunca se concretizaram. 

Os anos 1960-70 imaginaram futuros radicais — colonização espacial, transformação social, novas formas de vida coletiva. Nenhum deles aconteceu, pelo menos não na forma imaginada. Em seu lugar, temos uma cultura do retro e do revival nostálgico — filmes refilmados, modas recicladas, política que não consegue pensar além do horizonte eleitoral imediato. 

"A nostalgia pelo presente" — Fisher usa essa expressão para descrever a estranha experiência de assistir a filmes como The Matrix ou Children of Men e sentir que eles já estão datados no momento do lançamento, presos em um "agora" que já parece passado. 

3.3. A Politização da Doença Mental como Alternativa 

Se o realismo capitalista despolitiza o sofrimento, tratando a depressão como "desequilíbrio químico" individual, a resposta de Fisher é repolitizar a saúde mental — não no sentido de reduzir a depressão a "falsa consciência", mas de reconhecer sua causação social e estrutural. 

"O que é necessário agora é uma politização de transtornos muito mais comuns. De fato, é a sua própria banalidade que é a questão". 

Fisher recupera aqui uma tradição que remonta a R.D. Laing (psiquiatra antipsiquiátrico dos anos 1960) e a Deleuze & Guattari (Anti-Édipo), para quem a loucura não era uma doença natural, mas uma categoria política — uma resposta a condições sociais insuportáveis. Mas, diferentemente desses autores, Fisher não se interessa pelo caso extremo da psicose, e sim pela epidemia silenciosa da depressão e da ansiedade comuns: o cansaço crônico do trabalhador de escritório, a apatia do estudante endividado, a angústia do freelancer sem rede de proteção. 

 

Parte IV: Críticas a Fisher 

Nenhum autor é imune a críticas, e a obra de Fisher tem limitações importantes que devem ser apontadas. 

4.1. Pessimismo Estratégico? 

O próprio Fisher foi criticado por aquilo que alguns leitores chamam de "paralisia negativista" : se o realismo capitalista é tão total quanto ele descreve, se a impotência reflexiva é a condição padrão, então qual é o caminho para a mudança? Fisher não oferece um programa político detalhado, e suas poucas sugestões (recuperar a modernidade das mãos da direita neoliberal; aprender com os movimentos verdes; construir novas formas de agência coletiva) podem parecer vagas diante do diagnóstico contundente. 

Os defensores de Fisher respondem que sua tarefa não era prescrever, mas diagnosticar. Antes de "o que fazer", era preciso entender "por que não estamos fazendo nada". E, nessa tarefa, Fisher foi implacável e necessário. 

4.2. Eurocentrismo e Universalismo Implícito 

Fisher escreve quase exclusivamente a partir da experiência britânica e norte-americana. Seus exemplos culturais (The Fall, Lovecraft, Kubrick, o NHS britânico) são anglófonos. Sua análise do neoliberalismo, embora aplicável a muitos contextos, não examina com a mesma profundidade as periferias do capitalismo global — o Sul Global, as economias pós-coloniais, os regimes híbridos China-Rússia. 

Há também uma ausência notável de teoria racial em Fisher. Embora ele critique o capitalismo, raramente aborda o modo como o racismo estrutural opera como tecnologia de gestão da força de trabalho e da população excedente. Críticos como Frank B. Wilderson III (teórico da afropessimismo) apontariam que Fisher subestima o grau em que o capitalismo não é apenas "explorador", mas constitutivamente antinegro — uma dimensão que escapa à análise puramente classista. 

4.3. A Tensão não Resolvida entre Estrutura e Agência 

Um dos debates filosóficos mais antigos está no centro da obra de Fisher: até que ponto os indivíduos têm agência contra as estruturas que os determinam? Fisher oscila entre momentos de forte determinismo estrutural ("o capital nos tornou assim, não há saída individual") e apelos à ação coletiva ("precisamos construir alternativas"). 

Essa tensão não é necessariamente um defeito — pode ser um realismo sobre a contradição vivida. Mas leitores em busca de uma teoria da ação política articulada podem ficar frustrados com a ambiguidade de Fisher, que morreu antes de resolver a questão. 

 

Parte V: Novos Caminhos — Política, Economia, Saúde 

Apesar (ou talvez por causa) das críticas, a obra de Fisher aponta caminhos concretos para repensar a relação entre economia, política e saúde. 

5.1. Desprivatizar o Estresse 

O mais importante legado político de Fisher é a ideia de que o sofrimento mental não deve ser tratado como problema individual. A depressão de um trabalhador precarizado não é "desequilíbrio químico" — é uma resposta racional a condições irracionais. O caminho não é mais Prozac, mas redução da jornada de trabalho, renda básica, moradia digna, sistema de saúde público e gratuito, fim da cultura da produtividade a qualquer custo. 

Fisher não está dizendo que a química cerebral é irrelevante. Está dizendo que reduzir a depressão à química é uma operação política que beneficia o capitalismo ao despolitizar a causa do sofrimento. 

5.2. Recuperar o Futuro (Contra a Nostalgia) 

hauntologia de Fisher não é uma celebração melancólica da perda, mas um chamado à criação. Se os futuros radicais dos anos 1960-70 foram cancelados, isso não significa que não possamos imaginar novos futuros — significa que precisamos fazê-lo, porque o capitalismo não nos oferecerá nenhum. 

"Um novo esquerda genuína deve ser moldada por esses desejos, e não ser iludida, mais uma vez, pelas lógicas das revoltas fracassadas". 

A cultura pop, para Fisher, é um campo de batalha onde esses desejos podem ser mantidos vivos — mesmo em forma distorcida. A ficção científica distópica (Children of MenWall-E) não é apenas entretenimento; é um registro sintomático do que perdemos e do que ainda podemos recuperar. 

5.3. O Estranho e o Sinistro como Ferramentas de Pensamento 

Por fim, The Weird and the Eerie oferece algo que faltava à teoria crítica: um vocabulário para descrever a experiência fenomenológica do capitalismo tardio. Não estamos apenas "alienados" no sentido marxiano clássico. Estamos às voltas com entidades eerie que não podemos ver mas que governam nossas vidas. As categorias de Fisher nos permitem nomear essa experiência — e nomear é o primeiro passo para resistir. 

 

Conclusão: O Legado de Mark Fisher 

Mark Fisher morreu em 2017, mas sua obra parece mais relevante a cada ano que passa. A pandemia de covid-19, a crise climática, o retorno da inflação, a precarização do trabalho, a epidemia de burnout e depressão — tudo isso confirma seu diagnóstico de que o capitalismo não está funcionando para a maioria das pessoas, mas também de que a alternativa parece difícil de imaginar. 

A grande contribuição de Fisher foi mostrar que essa dificuldade de imaginar não é natural — é produzida. É o resultado de décadas de desmantelamento das instituições coletivas, de privatização dos espaços públicos, de individualização dos problemas sociais, de colonização do inconsciente pela lógica empresarial. 

Mas Fisher não foi apenas um profeta do apocalipse. Ele foi também, em suas melhores passagens, um pensador da possibilidade — da fenda no realismo capitalista por onde outros mundos podem irromper. Como ele escreveu, citando Fredric Jameson: 

"De tempos em tempos, como um olho doente no qual flashes perturbadores de luz são percebidos ou como aqueles exuberantes raios de sol nos quais raios de outro mundo de repente irrompem neste, somos lembrados de que a Utopia existe e que outros sistemas, outros espaços, ainda são possíveis". 

Essa é a herança de Fisher: um diagnóstico implacável da doença, mas também a recusa em aceitar a doença como destino. O weird e o eerie não são apenas categorias estéticas — são modos de atenção ao que escapa, ao que não se encaixa, ao que ainda pode vir. 

Leia Fisher. Não porque ele tenha todas as respostas — mas porque ele fez as perguntas certas, em uma época em que a maioria de nós havia parado de perguntar. 

 

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