SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A Origem do Sagrado: Vazio, Violência e Abjeção

 



Introdução: A Pergunta Fundamental 

O que faz com que algo seja sagrado? Por que os seres humanos, em todas as culturas e épocas, tenderam a demarcar certos espaços, tempos, objetos e figuras como portadores de uma potência extraordinária — ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante? A questão sobre a origem do sagrado é tão antiga quanto a própria reflexão filosófica, mas poucos pensadores a enfrentaram com a radicalidade exigida pelo problema. 

Nos últimos cinquenta anos, três tradições teóricas — a psicanálise lacaniana, a teoria mimética de René Girard e o conceito de abjeção de Julia Kristeva — ofereceram respostas surpreendentemente convergentes a esta pergunta. Embora partindo de pressupostos distintos, todas apontam para uma conclusão contra-intuitiva: o sagrado não emerge do que sabemos ou dominamos, mas sim do que nos escapa, nos excede ou nos ameaça. O sagrado nasce no encontro com o vazio, a violência ou o abjeto. 

O pensador que mais recentemente sintetizou e avançou esta tradição é Richard Boothby, cujo livro Embracing the VoidRethinking the Origin of the Sacred (2023) oferece uma teoria psicanalítica inovadora da origem da religião, baseada no conceito lacaniano de das Ding — a "Coisa" inquietante e inacessível que habita o coração da experiência humana. 

Este ensaio apresentará, em primeiro lugar, um resumo detalhado da obra de Boothby, situando-a em relação a Freud e Lacan. Em seguida, serão exploradas as contribuições de René Girard (violência e bode expiatório) e Julia Kristeva (abjeção) como lentes complementares para compreender o fenômeno do sagrado. Por fim, será oferecida uma avaliação crítica das forças e limitações destas abordagens. 

 

Parte I: Richard Boothby e "Embracing the Void" 

O Autor e sua Trajetória 

Richard Boothby é professor de filosofia na Loyola University Maryland, com uma trajetória que o consagrou como um dos principais intérpretes da psicanálise lacaniana no mundo anglófono. Autor de Death and Desire: Psychoanalytic Theory in Lacan's Return to Freud (1991) e Freud as PhilosopherMetapsychology after Lacan, Boothby dedicou sua carreira a articular o pensamento de Lacan com questões filosóficas fundamentais. Mais recentemente, publicou um memoirBlown Away: Refinding Life after My Son's Suicide, que revela a dimensão existencial e pessoal de seu engajamento com a psicanálise. 

Embracing the Void — "abraçar o vazio" — é, portanto, um livro que emerge de uma vida de reflexão teórica, mas também de uma experiência vivida da perda e do luto. O título já anuncia a tese central: o sagrado não é algo que preenche o vazio, mas algo que emerge da nossa relação com o próprio vazio. 

Estrutura da Obra 

O livro está organizado em duas partes principais, precedidas por um prefácio intitulado "Is Nothing Sacred?" ("Nada é Sagrado?") e uma introdução que reposiciona a pergunta final de Freud. 

Parte I: Rereading Lacan (orWhat Is the Other?) 

Capítulo 1: Religion from Freud to Lacan — Religião de Freud á Lacan 

Capítulo 2: The Abyss of the Other — O Abismo do Outro 

Capítulo 3: The Ex Nihilo of the Signifier — O Ex Nihilo do Significante 

Parte II: Rethinking Religion (orWhat Is the Sacred?) 

Capítulo 4: Greek Polytheism: The Worship of Force — Politeísmo Grego: O Culto da Força 

Capítulo 5: Judaism: The Worship of Law — Judaísmo: O Culto da Lei 

Capítulo 6: Christianity: The Worship of Love — Cristianismo: O Culto do Amor 

Capítulo 7: Other Paths, Other Gods — Outros Caminhos, Outros Deuses (Hinduísmo, Budismo, Islamismo) 

Capítulo 8: Conclusions — Conclusões  

O Capítulo 7 também aborda, de forma crítica, a cultura capitalista contemporânea e a "divindade sedutora que a domina — o dinheiro". 

A Tese Central: Das Ding e a Origem do Sagrado 

Boothby parte de uma constatação simples, mas profunda: as tentativas de Freud de desenvolver uma teoria psicanalítica da religião foram sistematicamente insatisfatórias. Freud oscilou entre reduzir a religão à ilusão (como em O Futuro de uma Ilusão) e tratá-la como expressão de um "sentimento oceânico" de totalidade (como em O Mal-Estar na Civilização). O que faltava a Freud, argumenta Boothby, era uma teorização adequada da dimensão do desconhecido e do inacessível que constitui o núcleo da experiência religiosa. 

Esta lacuna é preenchida pelo conceito lacaniano de das Ding — "a Coisa". Para Lacan, das Ding não é um objeto qualquer, mas aquilo que escapa fundamentalmente à simbolização. É o "real" no coração da experiência humana, aquilo que não pode ser dito, representado ou integrado na ordem simbólica da linguagem e da lei. 

Boothby articula uma inovação crucial: das Ding é originalmente encontrado na figura da mãe. Não a mãe como pessoa empírica, mas a mãe como excesso inacessível — aquele ser que nos deu a vida, que nos sustentou em uma relação de simbiose pré-linguística, mas que permanece, em última instância, indecifrável. Há algo nela que não se deixa capturar, uma dimensão de "alteridade radical". 

"This notion of an unfathomable excessoriginally encountered in the figure of the mother, led Lacan to break with Freud's formulation of the Oedipus complex and underlies Lacan's distinctive conception of unconscious dynamics."  

Este "excesso insondável" (unfathomable excess) experimentado primeiramente na relação com a mãe é, para Boothby, o protótipo do sagrado. Toda experiência religiosa posterior — dos deuses gregos ao Deus de Abraão, do Brahman hindu ao vazio budista — seria uma tentativa de lidar com este encontro primordial com o inacessível. 

A Ruptura com Freud 

Uma das contribuições mais significativas de Boothby é mostrar como a ênfase de das Ding levou Lacan a romper com a formulação freudiana do complexo de Édipo. Enquanto Freud via o pai como figura central da resolução edípica (o pai que ameaça a castração e impõe a lei), Lacan desloca a ênfase para a relação pré-edípica com a mãe. O que está em jogo não é a rivalidade com o pai, mas a impossibilidade de retornar à plenitude perdida da relação com o materno. 

Esta ênfase tem profundas implicações para a teoria da religião. Se o sagrado emerge do encontro com o inacessível materno, então a religião não pode ser simplesmente descartada como "ilusão" (como queria o Freud tardio). Ela é, antes, uma resposta necessária a uma estrutura fundamental da condição humana: o fato de que somos irremediavelmente separados de nossas origens, habitados por um vazio que não pode ser preenchido. 

A Análise das Tradições Religiosas 

A segunda parte do livro aplica este quadro teórico a uma análise das grandes tradições religiosas. Boothby não oferece uma história comparada das religiões, mas sim uma leitura psicanalítica de como cada tradição lida com a relação com o desconhecido. 

Politeísmo Grego: O culto da força. Os deuses gregos são potências impessoais e caprichosas — forças da natureza e do destino que os humanos devem aplacar, mas que permanecem fundamentalmente indiferentes. Boothby vê aqui uma expressão direta do encontro com das Ding como pura alteridade incontrolável. 

Judaísmo: O culto da Lei. A tradição judaica substitui os deuses caprichosos por um Deus transcendente que se revela através da Lei (Torá). A relação com o sagrado se mediatiza pela observância de mandamentos, criando uma estrutura simbólica que organiza o encontro com o inacessível. A inacessibilidade de Deus não é eliminada, mas sim ritualizada. 

Cristianismo: O culto do Amor. O cristianismo introduz uma novidade radical: a encarnação de Deus em Jesus Cristo. O inacessível se torna, paradoxalmente, acessível — um corpo que sofre e ama. Boothby sugere que o cristianismo representa uma tentativa de "domesticar" das Ding através da figura do amor sacrificial. 

Outras Tradições: Boothby também analisa o hinduísmo (com sua multiplicidade de deuses que são, em última instância, manifestações de um princípio único), o budismo (com sua ênfase no vazio — sunyata — como natureza última da realidade) e o islamismo (com sua ênfase na transcendência absoluta de Alá). 

O Capitalismo como Religião? Talvez o capítulo mais provocativo seja a análise da cultura capitalista contemporânea, onde o dinheiro assume o papel de "divindade sedutora". Boothby argumenta que o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas uma formação religiosa — uma maneira de organizar o desejo, o sacrifício e a relação com o inacessível. O dinheiro é a Coisa: algo que todos desejam, que promete preencher o vazio, mas que permanece, em última instância, tão insaciável quanto das Ding. 

Citações Diretas 

"Renowned psychoanalytic philosopher Richard Boothby puts forward a novel theory of religion inspired by Jacques Lacan's theory of das Ding, the disquietinginaccessible dimension of fellow human beings."  

"Boothby shows how our sense of the sacred arises from our relation to what we do not know."  

"The book provides a cogent intervention in one of the psychoanalytic tradition's most contentious topics and offers a new approach to our understanding of religion."  

"A radical reinterpretation of the origin of religion through a psychoanalytic theorization of the unknown."  

 

Parte II: René Girard — Violência, Bode Expiatório e o Sagrado 

A Teoria Mimética 

Nenhuma discussão sobre a origem do sagrado estaria completa sem a contribuição de René Girard (1923-2015), o pensador franco-americano cuja obra Violence and the Sacred (1972) propôs uma teoria radicalmente original. 

Girard parte de uma observação simples: os seres humanos são imitadores natos. Nossos desejos não são autônomos ou "pessoais" no sentido de emergirem de dentro; ao contrário, são miméticos — copiamos os desejos daqueles que nos rodeiam. Queremos o que o outro quer, não porque o objeto seja intrinsecamente valioso, mas porque o outro o deseja. 

Este mecanismo mimético é a fonte tanto da cultura quanto do conflito. Quando duas pessoas desejam o mesmo objeto, a rivalidade emerge. E a rivalidade, quando não contida, tende a escalar para uma violência generalizada — o "todos contra todos" que ameaça dissolver o tecido social. 

O Mecanismo do Bode Expiatório 

A tese central de Girard é que as religiões arcaicas emergem como solução para este problema da violência mimética. Diante da escalada de violência que ameaça destruir a comunidade, um mecanismo espontâneo se ativa: a união de todos contra um. 

Um indivíduo (ou grupo) é identificado como a "causa" do conflito — o bode expiatório. A comunidade inteira se volta contra esta vítima, canalizando toda a sua agressividade para um único alvo. A violência que antes circulava difusamente entre todos agora se concentra em um ponto. 

A morte (ou expulsão) da vítima produz um efeito de pacificação milagrosa: a violência cessa, a comunidade se reconcilia, a ordem é restaurada. Este momento de resolução é, para Girard, o momento fundador do sagrado. 

A Ambivalência do Sagrado 

A vítima do mecanismo expiatório é, ao mesmo tempo, maldita e bendita. É maldita porque foi identificada como a fonte do mal que afligia a comunidade. É bendita porque sua morte trouxe a paz, a ordem, a vida renovada. 

Esta ambivalência — o sagrado como aquilo que é ao mesmo tempo terrível e benéfico, impuro e purificador — é, para Girard, a marca registrada do sagrado arcaico. Os mitos religiosos, quando lidos contra a sua própria intenção, revelam este mecanismo: a história de Édipo, por exemplo, é a história de um bode expiatório (Édipo é acusado de peste, cego e exilado), e seu nome significa "pés inchados" — uma marca que o identifica como vítima propiciatória. 

O Sagrado e o Santo 

Em seus escritos posteriores, especialmente no diálogo de 1973 publicado como Violencethe Sacredand Things Hidden, Girard passou a distinguir entre o "sagrado" arcaico e o "santo" ou "santidade". 

O sagrado (em Durkheim e nas religiões primitivas) está inextricavelmente ligado à violência, ao sacrifício e ao mecanismo do bode expiatório. É uma potência ambígua, que tanto mata quanto cura, tanto amaldiçoa quanto abençoa. 

O santo ou santidade (holysaintliness) representa uma ruptura com este modelo. Emerge com a revelação bíblica, que Girard interpreta como um processo de "desconstrução do mecanismo sacrificial". A Paixão de Cristo, para Girard, é o momento em que o mecanismo do bode expiatório é exposto — a vítima é inocente, e o texto bíblico nos permite ver sua inocência. 

"Girard pleaded for the transformation of the sacred into holynot their separation."  

Avaliação Crítica de Girard 

Forças: 

Poder explicativo: A teoria girardiana oferece uma explicação unificada para fenômenos díspares — mito, ritual, sacrifício, violência coletiva, perseguição. 

Base antropológica: Girard se baseia em uma vasta gama de evidências etnográficas, de tribos da Amazônia às civilizações clássicas. 

Relevância contemporânea: O mecanismo do bode expiatório permanece ativo nas sociedades modernas (racismo, perseguição de minorias, histeria coletiva). 

Limitações: 

Universalismo excessivo: A tendência de Girard a ver o mecanismo mimético em toda parte pode levar à redução de fenômenos complexos a um único princípio. 

Posição ambígua em relação ao cristianismo: Críticos argumentam que Girard privilegia o cristianismo como "verdade revelada", comprometendo a pretensão de cientificidade de sua teoria. 

Negligência da interioridade: A ênfase de Girard no comportamento visível (imitação, rivalidade, violência) pode subestimar as dimensões mais íntimas e subjetivas da experiência religiosa — precisamente aquelas que a psicanálise de Boothby busca explorar. 

 

Parte III: Julia Kristeva — Abjeção e o Sagrado 

O Conceito de Abjeção 

A terceira lente teórica para compreender a origem do sagrado é oferecida por Julia Kristeva, a psicanalista e teórica literária búlgara-francesa, cuja obra Powers of Horror: An Essay on Abjection (1980) introduziu o conceito de abjeção. 

O que é a abjeção? Literalmente, é aquilo que é "lançado fora" (ab-ject, "jogado para longe"). Mas Kristeva dá a este termo uma significação psicanalítica precisa: o abjeto é aquilo que perturba a identidade, o sistema, a ordem. Não é simplesmente o "sujo" ou o "imundo" — categorias que pressupõem uma oposição binária (limpo/sujo, dentro/fora). O abjeto é o que não respeita fronteiras, posições, regras. Está entre o sujeito e o objeto, entre o "eu" e o "não-eu". 

Os exemplos clássicos de abjeção são os fluidos corporais: excremento, sangue, pus, lágrimas. Eles são abjetos porque estão na fronteira ambígua entre o "mim" (vieram do meu corpo) e o "não-mim" (agora estão fora, separados). O cadáver é a forma suprema do abjeto: foi uma pessoa como eu, mas agora é matéria inerte, me confrontando com a materialidade da minha própria mortalidade. 

A Abjeção e a Formação do Sujeito 

Para Kristeva, a abjeção é fundamental para a constituição do sujeito. Antes de haver um "eu" claramente delimitado, há um estágio de indistinção entre self e ambiente — particularmente entre a criança e o corpo da mãe. A abjeção é o processo pelo qual a criança expulsa aquilo que ameaça esta delimitação. É um "expulsar para fora" que cria o dentro e o fora, o eu e o outro. 

A mãe, neste quadro, ocupa uma posição paradoxal. Ela é, ao mesmo tempo, a fonte de proteção e nutrição (o que a criança deseja manter perto) e a ameaça de indiferenciação (o retorno ao estado de simbiose onde o "eu" não existia). A figura materna é, portanto, o abjeto por excelência — aquilo que fascina e repugna, atrai e repele. 

Abjeção e Sagrado 

É neste ponto que Kristeva se conecta diretamente à questão da origem do sagrado. O sagrado, argumenta ela, emerge do tratamento ritual da abjeção. As religiões desenvolvem sistemas elaborados para purificar o abjeto, para delimitar o que é puro e impuro, sagrado e profano. 

Os tabus alimentares (não comer certos animais), os tabus sexuais (evitar certas relações), os tabus relativos ao corpo (menstruação, parto, morte) — todos são tentativas de domesticar a abjeção, de criar barreiras simbólicas que protejam a identidade do sujeito e a ordem da comunidade. 

Barbara Creed, comentando Kristeva no contexto do cinema de horror, observa: 

"Kristeva's theory of abjection provides us with an important theoretical framework for analysing, in the horror filmthe representation of the monstrous-feminine, in relation to woman's reproductive and mothering functionsHoweverabjection by its very nature is ambiguous; it both repels and attracts."  

Esta ambiguidade — repelir e atrair simultaneamente — é exatamente a estrutura do sagrado. O sagrado é aquilo que nos fascina e nos aterroriza, que queremos aproximar e manter à distância. A experiência do mysterium tremendum et fascinans descrita por Rudolf Otto — o sagrado como mistério que é ao mesmo tempo terrível e fascinante — encontra na abjeção sua explicação psicanalítica. 

Abjeção e Arte 

Um desenvolvimento importante do conceito de abjeção é sua aplicação à arte e à cultura visual. Rina Arya, em Abjection and Representation (2013), explora como artistas contemporâneos têm utilizado a abjeção como código cultural — uma maneira de confrontar o espectador com o que é normalmente reprimido, excluído, rejeitado. 

A arte abjeta (excremento, fluidos corporais, cadáveres) não é mero sensacionalismo; é uma investigação das fronteiras do que conta como "humano", "aceitável", "belo". Ao trazer o abjeto para o espaço da arte, o artista força o espectador a renegociar sua relação com o que foi expulso. 

Avaliação Crítica de Kristeva 

Forças: 

Articulação entre corpo e símbolo: Kristeva oferece uma teoria que conecta experiências corporais concretas (repugnância, fascínio, nojo) com estruturas simbólicas abstratas (tabus, rituais, religiões). 

Foco no materno: Diferente do foco freudiano no pai e no complexo de Édipo, Kristeva coloca a relação com o corpo materno no centro da formação do sujeito — uma correção crucial e influente. 

Aplicabilidade interdisciplinar: O conceito de abjeção tem sido aplicado à teoria do cinema, à crítica literária, à história da arte e aos estudos de gênero. 

Limitações: 

Ambiguidade conceitual: O próprio conceito de abjeção é notoriamente escorregadio. O que exatamente é o abjeto? Uma coisa? Uma relação? Um processo? Kristeva muitas vezes responde com metáforas, não com definições. 

Risco de universalização: Assim como Girard, Kristeva pode ser acusada de projetar uma estrutura psicanalítica particular (derivada de uma experiência cultural ocidental) como universal. 

Romantização da abjeção: Algumas críticas feministas argumentam que a ênfase de Kristeva na abjeção como "revolucionária" pode romantizar aquilo que, para muitas mulheres, foi simplesmente opressão (tabus sobre menstruação, parto, corpo feminino). 

 

Parte IV: Síntese e Crítica Comparativa 

Convergências Fundamentais 

Apesar de partirem de tradições distintas — psicanálise lacaniana (Boothby), antropologia mimética (Girard), psicanálise semiótica (Kristeva) — os três pensadores convergem em teses surpreendentemente compatíveis: 

Tema, Boothby, Girard, Kristeva 

Origem do sagrado, Encontro com das Ding (o inacessível), Mecanismo do bode expiatório (violência resolvida), Tratamento ritual da abjeção 

Caráter do sagrado, Ambivalente (fascínio/terror), Ambivalente (maldito/bendito), Ambivalente (repulsa/atração) 

Relação com o outro, O Outro como excesso insondável, O outro como modelo e rival, O outro como ameaça à delimitação do eu 

Função do ritual, mediar a relação com o inacessível, canalizar e resolver violência mimética, purificar o abjeto, restaurar fronteiras 

Crítica ao sagrado, O capitalismo como religião falsa, O cristianismo como desconstrução do sacrifício, A arte como espaço de renegociação da abjeção 

Divergências e Tensões 

1. A ênfase na mãe vs. o pai: Boothby (seguindo Lacan) e Kristeva colocam a figura materna no centro da gênese do sagrado; Girard, com sua ênfase na rivalidade mimética (que tipicamente envolve pares ou iguais), tem menos a dizer sobre a especificidade da relação mãe-filho. 

2. O papel da violência: Para Girard, a violência é o motor do sagrado — sem rivalidade e bode expiatório, não há religião. Para Boothby, a violência é um fenômeno secundário; o primário é a relação com a falta, o vazio, o inacessível. Kristeva situa-se em um meio-termo: a violência está presente (a abjeção é uma forma de violência simbólica contra o que ameaça), mas sua ênfase está na repugnância e no nojo, não na agressão física. 

3. Posição em relação ao cristianismo: Girard (em sua fase tardia) privilegia o cristianismo como revelação que desmascara o mecanismo sacrificial. Boothby, em contraste, trata o cristianismo como uma entre várias formações religiosas, todas respondendo (de maneiras diferentes) à mesma estrutura de das Ding. Kristeva, por sua vez, vê o cristianismo (especialmente o catolicismo) como um sistema particularmente elaborado de gestão da abjeção (o corpo de Cristo, a Virgem Maria, a Eucaristia). 

4. Otimismo vs. Pessimismo: Há um gradiente de otimismo nestes autores. Girard, em sua leitura do cristianismo, é surpreendentemente otimista: a verdade pode ser conhecida, o mecanismo pode ser desmascarado, a violência pode ser superada. Boothby é mais sombrio: das Ding é ineliminável; o vazio nunca será preenchido; a religião (inclusive o capitalismo como religião) é uma resposta necessária, mas talvez nunca plenamente adequada. Kristeva ocupa uma posição intermediária: a abjeção nunca desaparece, mas pode ser sublimada na arte, no amor, na criatividade. 

Possíveis Limitações Comuns 

Eurocentrismo: Os três autores trabalham dentro de um quadro derivado da tradição intelectual ocidental (psicanálise, fenomenologia, estruturalismo). A aplicação de seus conceitos a tradições não-ocidentais (hinduísmo, budismo, religiões africanas) é frequentemente superficial ou forçada. Boothby tenta incluir estas tradições no Capítulo 7, mas a extensão é limitada. 

Déficit empírico: Todas estas são teorias especulativas sobre a origem do sagrado, não baseadas em evidências arqueológicas ou antropológicas diretas. Elas nos dizem mais sobre a estrutura da psique humana (como a psicanálise a concebe) do que sobre o que realmente aconteceu nas origens das religiões. 

Atemporalidade: As teorias tendem a tratar o sagrado como um fenômeno trans-histórico, com uma estrutura fixa determinada pela psique humana ou pelo mecanismo mimético. Isto pode obscurecer as diferenças históricas e culturais reais nas formas do sagrado. 

Dificuldade de teste: Em que condições estas teorias poderiam ser falseadas? É difícil imaginar que tipo de evidência as refutaria. Isto não as torna necessariamente falsas, mas as coloca em um registro epistemológico diferente — mais próximo da hermenêutica filosófica do que da ciência empírica. 

 

Conclusão: Por que a Origem do Sagrado Importa Agora 

Vivemos em uma era que muitos descrevem como "secular" ou "pós-religiosa". As taxas de afiliação religiosa estão caindo no Ocidente; o "novo ateísmo" de Dawkins, Hitchens e Harris tem milhões de leitores. No entanto, algo curioso está acontecendo: o sagrado não desapareceu; ele apenas mudou de forma. 

Boothby é particularmente perspicaz ao apontar que o capitalismo opera como uma formação religiosa, com seus rituais (compras, consumo), seus sacerdotes (celebridades, influenciadores), seus objetos sagrados (marcas, produtos) e sua promessa de salvação (a vida boa através do consumo). 

Kristeva, por sua vez, nos ajuda a entender o fascínio contemporâneo pelo horror e pelo grotesco — de filmes de terror a séries true crime, da estética "abjeta" nas artes visuais à obsessão midiática por cadáveres e desastres. 

E Girard nos oferece ferramentas para compreender a dinâmica do bode expiatório na política contemporânea — a maneira como grupos populistas identificam um "inimigo interno" (imigrantes, elites, minorias) como causa de todos os males, e como a comunidade se une em torno do ódio comum. 

Longe de ser uma curiosidade arqueológica ou um assunto para historiadores das religiões, a questão da origem do sagrado é profundamente contemporânea. Ela nos pergunta: o que consideramos sagrado hoje? O dinheiro? A nação? O corpo? A ciência? O self? E que formas de violência, exclusão ou abjeção sustentam estas formas contemporâneas do sagrado? 

Boothby, Girard e Kristeva não oferecem respostas finais, mas nos fornecem um vocabulário e um quadro conceitual para fazer estas perguntas de maneira mais aguda. Embracing the Void, em particular, destaca-se como uma síntese acessível e poderosa de uma tradição de pensamento que insiste em levar a sério o desconhecido, o inacessível, o abjeto — aquilo que a modernidade secular, em sua autoconfiança, tendia a reprimir ou negar. 

"Lucidaccessibleand compellingthe book provides a cogent intervention in one of the psychoanalytic tradition's most contentious topics and offers a new approach to our understanding of religion."  

O sagrado, nos ensinam estes três pensadores, não é algo que inventamos para preencher um vazio. É algo que emerge do vazio, da nossa relação com aquilo que não sabemos, não controlamos e não podemos integrar. E, neste sentido, enquanto houver seres humanos — habitados por desejos que não compreendem, confrontados com um mundo que os excede — haverá sagrado. A pergunta não é se teremos religião, mas que forma ela tomará. 

 

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