Introdução: A Revolução do Excesso
O que torna o capitalismo distinto de todos os sistemas socioeconômicos que o precederam? Para Todd McGowan, professor da Universidade de Vermont e uma das vozes mais originais da crítica cultural psicanalítica contemporânea, a resposta está em um deslocamento fundamental de finalidade. Sistemas anteriores — sejam feudais, escravistas ou mesmo as formas iniciais de mercantilismo — organizavam-se em torno de alguma concepção de bem social ou utilidade. O capitalismo, argumenta McGowan, rompe radicalmente com esta tradição ao fazer do excesso puro seu princípio organizador central.
"Previous socioeconomic systems set up some form of the social good as their focus. Capitalism, however, represents a revolutionary turn away from the good and the useful toward excessive growth".
Esta promessa do capitalismo — a de mais riqueza, mais gozo, mais oportunidade, sem exigir qualquer sacrifício real — é ao mesmo tempo sua força motriz e sua contradição fundamental. O mesmo excesso que impulsiona a inovação e a acumulação ameaça agora a própria habitabilidade do planeta.
Neste ensaio, examinaremos dois livros recentes de McGowan que, juntos, articulam uma teoria abrangente da subjetividade capitalista: Pure Excess: Capitalism and the Commodity (2024) e Embracing Alienation: Why We Shouldn't Try to Find Ourselves (2024). Partindo da psicanálise lacaniana e da tradição dialética, McGowan oferece não apenas um diagnóstico da cultura contemporânea, mas uma proposta paradoxal: a emancipação não vem da superação da alienação, mas de seu abraço. E a arte — não a política programática — pode ser o veículo para educar o desejo anticapitalista.
Parte I: Pure Excess — O Capitalismo como Máquina de Excesso
A Tese Central: Para Além da Utilidade
Publicado pela Columbia University Press no final de 2024, Pure Excess: Capitalism and the Commodity representa a culminação de anos de reflexão de McGowan sobre a economia libidinal do capitalismo. O livro é estruturado em seis capítulos que conduzem o leitor da análise da mercadoria à proposição de uma saída estética:
The Apotheosis of Uselessness — A Apoteose da Inutilidade
An Objective Excess — Um Excesso Objetivo
Two Forms of Fetishism — Duas Formas de Fetichismo
The Indebted Servant — O Servo Endividado
The Reasonable Paranoiac — O Paranóico Razoável
Portrait of the Anticapitalist as an Artist — Retrato do Anticapitalista como Artista
A tese central é provocativa em sua simplicidade: o capitalismo não produz primariamente o que precisamos ou mesmo o que queremos. Ele produz excesso puro — valor que excede qualquer necessidade funcional e qualquer desejo particular. É por isso que a publicidade não nos vende utilidade; vende-nos a promessa de uma satisfação que sempre se adia. O novo iPhone não é dramaticamente melhor que o anterior; sua função primordial é instituir uma falta onde antes não havia.
A Crítica da Teoria do Valor-Trabalho
Um dos movimentos mais interessantes do livro é a revisão crítica que McGowan empreende da teoria do valor-trabalho de Marx. Embora Marx tenha corretamente identificado a exploração como central ao capitalismo, McGowan sugere que algo escapa a esta análise. Slavoj Žižek, em texto de orelha do livro, captura este ponto com precisão:
"He condenses deep paradoxes: capitalism produces pure excess even when most people cannot satisfy their basic needs".
A produção de excesso não é um acidente ou um efeito colateral do capitalismo; é sua essência. O capitalismo não é primariamente um sistema de produção de bens úteis disfarçado de acumulação; é um sistema de acumulação que ocasionalmente produz bens úteis como subproduto. Esta inversão tem implicações radicais: criticar o capitalismo por sua desigualdade ou injustiça, embora necessário, não atinge seu núcleo. O núcleo é o excesso como fim em si mesmo.
A Mercadoria e a Estrutura do Desejo
O que explica a adesão psicológica ao capitalismo — o fato de que mesmo aqueles que sofrem sob ele frequentemente o defendem apaixonadamente? McGowan recorre à psicanálise lacaniana para responder. O capitalismo, argumenta ele, mimetiza a estrutura do desejo humano.
O desejo, em sua formulação lacaniana, é inerentemente insatisfeito. Não porque falte objetos adequados, mas porque sua própria estrutura é a de uma busca infinita. Desejamos não porque algo nos falta, mas porque a falta é constitutiva da subjetividade. O capitalismo explora esta estrutura ao oferecer uma promessa dupla:
O objeto de desejo existe (e está à venda)
A satisfação está sempre além do próximo objeto (portanto, continue comprando)
"Capitalism and the commodity ensnare us with the image of the constant fulfillment of our desires — the seductive but unattainable promise of satisfying a longing that has no end".
É neste ponto que o fetichismo da mercadoria (Marx) encontra o fetichismo do objeto *a* (Lacan). Não se trata apenas de atribuir propriedades mágicas às mercadorias; trata-se da alienação constitutiva do sujeito em relação ao seu próprio desejo.
A Arte como Antídoto
Contra o excesso capitalista, McGowan não propõe austeridade ou retorno a um passado pré-capitalista imaginário. Em vez disso, ele se volta para a arte como modelo de uma relação diferente com o limite e a falta.
A arte, ao contrário da mercadoria, não promete uma satisfação infinita que sempre se adia. Ela opera através da imposição de limites — o soneto restringe-se a catorze linhas, o filme dura noventa minutos, a tela tem bordas. Dentro destes limites, paradoxalmente, a arte alcança um excesso que não é a promessa vazia do consumo, mas uma efetivação do possível através da restrição.
Como Alenka Zupančič, uma das principais interlocutoras de McGowan, observa em seu elogio ao livro:
"Much more than a critical analysis of capitalism, this book also reveals the anticapitalist potential of art and the aesthetic form".
Anna Kornbluh, autora de Immediacy, or The Style of Too Late Capitalism, ecoa este sentimento:
"As Todd McGowan builds a new analysis of the place of aesthetic form in a culture of excess, he shows how art's constraints model an excess attained through rather than despite lack, and thus educate anticapitalist desire".
A educação do desejo anticapitalista, portanto, não é uma ascese ou uma política de escassez. É uma reaprendizagem da relação com o excesso através da forma — uma lição que a arte (e talvez apenas a arte) pode ensinar.
Parte II: Embracing Alienation — O Estranho Caminho para a Liberdade
A Reabilitação da Alienação
Se Pure Excess diagnostica a patologia do capitalismo em termos de excesso desenfreado, Embracing Alienation (Repeater, 2024) oferece o correlato subjetivo: uma reabilitação radical da alienação como condição não apenas inevitável, mas emancipatória.
O alvo de McGowan é claro: a esquerda contemporânea, a terapia, o discurso de autoajuda e mesmo grande parte da filosofia existencialista compartilham um pressuposto comum — que a alienação é um problema a ser superado. O objetivo da política revolucionária seria uma sociedade não-alienada; o objetivo da terapia seria um sujeito não-alienado, em plena posse de si mesmo; o objetivo do crescimento pessoal seria "encontrar a si mesmo".
"The left views alienation as something to be resisted or overcome, but could it actually form the basis of our emancipation?".
McGowan responde com um sonoro "sim". Mas para chegar a esta resposta, ele precisa primeiro redefinir o termo.
Alienação como Alienação de Si
O crítico do blog "The Faithful Buddhist" identifica corretamente a jogada fundamental de McGowan: uma redefinição do conceito de alienação.
Na tradição marxista, alienação (Entfremdung) refere-se a um fenômeno histórico específico: sob o capitalismo, o trabalhador é separado do produto de seu trabalho, dos meios de produção, de sua própria atividade como trabalho vivo, e dos outros seres humanos. O artesão que possuía suas ferramentas e vendia diretamente o fruto de seu trabalho não estava alienado; o trabalhador assalariado que vende sua força de trabalho e nunca vê o produto final está.
McGowan não nega esta análise. Mas ele insiste que há um sentido mais fundamental de alienação, um sentido ontológico e não meramente histórico. Antes de qualquer alienação econômica específica, o ser humano é alienado de si mesmo por sua própria constituição como sujeito da linguagem. Não há "si mesmo" a ser encontrado; o sujeito é constitutivamente dividido, cindido, opaco para si mesmo.
"Alienation frees us from our situation. It gives subjectivity an ability to act against what would otherwise determine it".
É precisamente por esta razão que McGowan pode afirmar o que parece paradoxal: a alienação é a condição da liberdade. Se fôssemos idênticos a nós mesmos — se não houvesse hiato entre quem somos e quem nos percebemos ser — seríamos inteiramente determinados pelo contexto social, pela biologia, pela ideologia. É porque há uma fratura, um "gap" no ser, que podemos agir de maneiras que contradizem nossas condições determinantes.
O Inconsciente como Lugar da Liberdade
Uma das afirmações mais controversas de McGowan é que a liberdade não é produto da deliberação consciente. Pelo contrário:
Para McGowan, é o inconsciente que marca o ponto da liberdade do sujeito. O inconsciente, entendido lacanianamente, não é um depósito de impulsos reprimidos, mas a própria estrutura da subjetividade enquanto opaca para si mesma. Agimos "contra nossos próprios interesses" não apesar de quem somos, mas porque quem somos é irremediavelmente dividido.
O crítico Debjyoti Sarkar, em resenha para a Marx & Philosophy Society, articula esta posição com clareza:
"Introducing his project of thinking alienation as constitutive because of the inherent foreignness, as unconscious, in our being, and also because of the act of naming which places an identity and closes this foreignness, McGowan discusses the question of subjectivity as against symbolic identity. There is already a gap between the subject and the identity attached to it".
Este "gap" — entre sujeito e identidade, entre o que somos e as categorias que nos são atribuídas — é a condição de possibilidade para qualquer ação que não seja mera repetição de papéis sociais. É o que permite ao sujeito recusar o lugar que lhe foi designado.
Hegel Contra Marx: Ontologia em Vez de História
Uma das manobras centrais de Embracing Alienation é a eleição de Hegel — não Marx — como o verdadeiro pensador da alienação.
Por que Hegel e não Marx? Porque Marx, argumenta McGowan, concebe a alienação como um fenômeno histórico — algo que emerge sob condições específicas (o capitalismo) e que pode, portanto, ser superado sob condições diferentes (o comunismo). Hegel, ao contrário, concebe a alienação como estrutural — uma característica da própria subjetividade enquanto tal.
"As opposed to Marx's historical conception of alienation, Hegel's is a structural one, a conception that McGowan also shares and thus suggests that it has to be embraced because it is constitutive".
As implicações desta escolha são profundas. Se a alienação é histórica, a política emancipatória pode visar sua superação — e com ela, a realização de uma sociedade plenamente transparente a si mesma. Se a alienação é estrutural, no entanto, tal projeto é não apenas impossível, mas perigoso. A tentativa de superar a alienação leva não à liberdade, mas ao totalitarismo — a imposição violenta de uma identidade fictícia sobre a multiplicidade irredutível do sujeito.
"Stalinism is seen as an attempt to overcome alienation through the State".
Para McGowan, a política emancipatória não é a busca de uma comunidade harmoniosa e não-alienada, mas a organização da alienação compartilhada — a criação de um espaço público onde sujeitos que reconhecem sua própria divisão interna possam encontrar-se sem a pretensão de fusão.
O Ônibus Público e o Fim da Comunidade
Um exemplo que McGowan utiliza com grande efeito é o ônibus público versus o clube exclusivo ou a comunidade fechada.
O ônibus público é o espaço da alienação pura: estranhos sentam-se lado a lado, cada um imerso em seus próprios pensamentos, sem identidade comum que os una. É desconfortável, anônimo, impessoal. Mas é exatamente esta impessoalidade que o torna político. No ônibus, não há comunidade baseada em afinidade eletiva, não há "identidade compartilhada". Há apenas a coexistência de alienados.
A comunidade, por outro lado, é sempre baseada na exclusão — naquilo que a comunidade não é. O clube de futebol, o bairro fechado, o grupo de interesse comum — todos eles definem sua identidade em oposição a um exterior. O ônibus público não tem exterior; qualquer um pode entrar.
"Every community is formed upon this other, that which the community is not".
A política emancipatória, para McGowan, não visa a criação de novas comunidades (esquerdistas, ambientalistas, feministas) mas a defesa e expansão do espaço público onde indivíduos alienados podem encontrar-se como estranhos. É uma visão austera, que recusa o calor afetivo da pertença em nome da liberdade que a alienação proporciona.
Parte III: Críticas e Debates
A Resposta dos Críticos Marxistas
A redefinição do conceito de alienação proposta por McGowan não passou sem contestação. O crítico do blog "The Faithful Buddhist" oferece uma objeção pungente:
"McGowan suggests that when 'leftists' want to 'fight against alienation' they are 'missing its emancipatory quality' and giving it 'a bad rap.' But what he seems to mean by alienation is something else entirely. He simply redefines alienation as what 'frees us from our situation'".
A objeção é metodológica: McGowan estaria tomando um termo que já possui um significado preciso no discurso marxista — a separação do trabalhador do produto de seu trabalho sob o capitalismo — e redefinindo-o para significar algo completamente diferente (a divisão ontológica do sujeito). O resultado é uma confusão terminológica que permite a McGowan criticar "a esquerda" por algo que ela nunca defendeu.
"If that's what you want to talk about, why use a word that already has an existing definition quite different from this?".
Este crítico sugere que McGowan estaria, na verdade, reciclando uma velha ideologia romântica — a crença no sujeito transcendental que pode se distanciar ironicamente de qualquer determinação social e "escolher" sua identidade como quem escolhe uma roupa.
A Tensão Ontologia versus História
A resenha de Debjyoti Sarkar, embora mais simpática ao projeto de McGowan, identifica uma tensão central não resolvida.
Em suma: se a alienação é ontológica (inerente à condição humana enquanto tal), como explicar que diferentes épocas históricas experimentem a alienação de maneiras tão diferentes? A alienação do camponês medieval (separado de Deus pelo pecado) não é a alienação do operário fabril do século XIX (separado do produto de seu trabalho) nem a alienação do trabalhador de plataforma do século XXI (separado da própria estabilidade de sua existência).
"It is true that alienation is constitutive because of language and the unconscious, but it has to also be investigated whether alienation in a historical period is the same as that in others".
McGowan parece oscilar entre duas posições: (1) a alienação é sempre a mesma, apenas reconhecida em diferentes momentos históricos; (2) a alienação tem diferentes formas históricas, mas todas compartilham uma estrutura comum. A primeira posição é implausível (nega a historicidade da experiência), a segunda é trivial (é verdadeira de praticamente qualquer fenômeno humano).
A tensão permanece não resolvida no texto, e talvez seja irresolúvel dentro dos pressupostos que McGowan adota.
A Questão da Prática
Um terceiro grupo de objeções diz respeito à ausência de uma teoria da prática política em McGowan. O que significa "abraçar a alienação" no contexto de uma luta concreta por moradia, salário ou justiça climática? Como a política se organiza em torno de um "ônibus público"? O que impede que o abraço da alienação se torne uma justificativa para o conformismo?
"McGowan's suggestion of simply embracing alienation seems to fall prey to a dualism of opposing thinkers who want to overcome alienation and those who do not".
O desafio para qualquer leitor de McGowan é traduzir seus insights psicanalíticos em um programa — mesmo que não programático — de ação coletiva. O livro sugere que a arte pode educar o desejo anticapitalista, mas não explica como esta educação se articula com movimentos sociais, greves, ocupações ou outras formas de resistência organizada.
Conclusão: O Paradoxo da Liberdade Capitalista
A obra de McGowan — especialmente a díade formada por Pure Excess e Embracing Alienation — oferece um dos diagnósticos mais originais da subjetividade capitalista contemporânea. Seu argumento central pode ser resumido em três proposições:
O capitalismo produz excesso puro, não utilidade. Sua crítica não pode, portanto, ser apenas uma crítica da exploração ou da desigualdade; deve ser uma crítica da própria lógica do "mais" como fim em si mesmo.
O sujeito é constitutivamente alienado. Não há "si mesmo" autêntico a ser encontrado atrás das máscaras sociais. A tentativa de superar a alienação é não apenas fútil, mas politicamente perigosa.
A liberdade reside na alienação. É o hiato entre sujeito e identidade — a impossibilidade de ser inteiramente capturado por qualquer papel ou categoria — que permite ao sujeito agir contra suas determinações.
Juntas, estas proposições constituem uma defesa da negatividade contra a positividade do capitalismo tardio. Enquanto o capitalismo nos oferece a promessa de uma satisfação plena e imediata (a mercadoria que finalmente nos completará), McGowan nos lembra que a falta é irredutível. Enquanto a cultura terapêutica nos oferece a promessa de um self autêntico e não dividido, McGowan nos lembra que a divisão é a condição da liberdade.
A questão que fica — e que McGowan não resolve inteiramente — é como esta ontologia da alienação se traduz em uma política da alienação. O "ônibus público" é uma bela imagem, mas não é uma estratégia. A arte pode educar o desejo, mas não pode, sozinha, derrubar o capitalismo.
Talvez a resposta esteja na própria tensão que os críticos de McGowan identificam: entre a alienação ontológica (sempre presente) e a alienação histórica (sempre variável). O que o capitalismo faz não é criar a alienação, mas explorá-la de maneiras específicas — transformando a falta constitutiva do sujeito em falta a ser preenchida por mercadorias; transformando o hiato entre sujeito e identidade em identidades à venda no supermercado cultural.
Sob esta luz, "abraçar a alienação" não significa aceitar passivamente o capitalismo. Significa, antes, recusar a falsa promessa de que o capitalismo pode curar a alienação — e, a partir desta recusa, abrir espaço para outras formas de vida que não prometem o impossível (a superação da falta) mas tornam o possível efetivo (a organização coletiva em torno da falta compartilhada).
Como Žižek observa em seu elogio a Pure Excess:
"This book is obligatory reading for everyone who wants to understand the global crisis we are in".
Em uma era de catástrofe ecológica, desigualdade crescente e desintegração social, a pergunta não é mais se devemos repensar o capitalismo, mas sim como fazê-lo sem cair nas armadilhas de um otimismo ingênuo ou de um pessimismo paralisante. McGowan nos oferece uma via negativa: não o que fazer, mas o que não fazer. Não buscar a superação da alienação. Não prometer um futuro sem falta. Não imaginar um sujeito plenamente presente a si mesmo.
A liberdade, paradoxalmente, começa onde reconhecemos que nunca seremos inteiramente livres — porque nunca seremos inteiramente nós mesmos. E este reconhecimento, talvez, seja o primeiro passo para uma política que não trai sua própria promessa.
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