SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 2 de maio de 2026

"Ficção Científica Capitalista" de Michel Nieva



Ficha Técnica 

  • Autor: Michel Nieva (escritor e professor argentino) 

  • Título originalCiencia ficción capitalista: Cómo los multimillonarios nos salvarán del fin del mundo 

  • Editora brasileira: Ubu (2026) | Tradução: Juliana Pavão 

  • Páginas: 128 pp 

 

1. Tese Central do Livro 

Michel Nieva parte de uma constatação provocadora: a ficção científica, outrora um gênero literário de crítica e imaginação de futuros alternativos, foi cooptada pelo capitalismo contemporâneo. Bilionários da tecnologia como Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg se apropriaram da estética e do vocabulário da ficção científica para vender uma narrativa salvacionista — a de que a tecnologia e a inovação, sob seu comando exclusivo, nos salvarão do colapso ambiental e social. 

Como ironiza o subtítulo, a promessa é que "os bilionários nos salvarão do fim do mundo" — e Nieva dedica todo o ensaio a demonstrar o vazio e os interesses ocultos por trás dessa promessa. 

 

2. Principais Argumentos e Críticas 

2.1. A colonização do futuro por interesses econômicos 

Nieva expõe que a imaginação do futuro deixou de ser um território aberto à especulação coletiva para se tornar propriedade privada das corporações. As narrativas de viagens interplanetárias, imortalidade e transumanismo, antes alimentadas por autores como Asimov, Clarke e Heinlein, são hoje matéria-prima para planos de negócios de empresas como SpaceXNeuralink e Blue Origin . 

O autor demonstra a relação histórica entre a ficção científica e o capitalismo, mostrando como esse gênero literário, inicialmente ligado à engenharia e à siderurgia na Revolução Industrial, transformou-se em ferramenta de especulação financeira: 

"Porque quando se afirmar que a ficção científica pertence ao âmbito 'especulativo', é essa capacidade de especulação que as corporações traduzem para o mundo financeiro" . 

As promessas de colonização de Marte, nessa perspectiva, nada mais são do que a expansão do sistema capitalista para além dos limites terrestres, perpetuando a exploração e a contaminação ambiental — agora em escala cósmica. 

2.2. A pandemia como experimento involuntário 

Um dos momentos mais instigantes do livro é a análise do autor sobre a pandemia de covid-19. Para Nieva, o isolamento global funcionou como um teste em tempo real da dispensabilidade humana. 

Enquanto pessoas enfrentavam medo, luto e incerteza, os algoritmos do mercado financeiro continuaram operando com eficiência implacável. Fronteiras fecharam, corpos se isolaram, mas o capital seguiu girando. Essa constatação leva Nieva a uma conclusão perturbadora: 

O capitalismo pode ter atingido um estágio em que a presença humana deixou de ser essencial para sua sobrevivência. 

2.3. A figura do "bilionário salvador" como patriarca messiânico 

Nieva também empreende uma crítica contundente à figura do empresário visionário. Para ele, Elon Musk, Jeff Bezos e congêneres são versões modernas do patriarca messiânico — alguém que oferece soluções simples para problemas complexos enquanto concentra poder unilateralmente. 

O discurso de "salvar a humanidade" encobre, na prática: 

  • A concentração de riqueza e poder; 

  • A imposição de um futuro corporativo, não coletivo; 

  • A transformação de plataformas digitais em novos feudos — espaços indispensáveis para a vida social, mas regidos por regras que os usuários não controlam. 

"O futuro proposto não é coletivo — é corporativo". 

2.4. A utopia é branca, masculina e norte-americana 

O ensaio também levanta uma questão de colonialidade do futuro. As visões de colonização espacial reproduzem, conscientemente ou não, a lógica da conquista europeia das Américas — com seus desastres humanitários e ecológicos. Como observa um comentarista do livro: 

"O autor, latino-americano ele, não pode deixar de prever a futura colonização do espaço com o que supostamente colonização europeia da América". 

A perspectiva do Norte global sobre o futuro é vendida como universal, quando na verdade é profundamente situada: branca, masculina, empresarial e expansionista. 

2.5. Alternativas ao futuro corporativo 

Apesar da crítica ácida, Nieva não se limita a denunciar. Ele aponta caminhos — ainda que frágeis ou utópicos — para imaginar futuros fora do capitalismo: 

  1. Cosmovisões indígenas: Uma relação mais integradora com o planeta, que não trata a Terra como recurso ou obstáculo a ser superado, mas como território vivo de pertencimento. 

  1. Tradições socialistas na ficção científica: O resgate de obras como Estrela vermelha (Alexander Bogdánov), que imaginou uma sociedade socialista em Marte, ou as especulações do trotskista argentino J. Posadas, que defendia que civilizações extraterrestres avançadas só poderiam ser comunistas. 

  1. gauchopunk: A proposta de Nieva de uma ficção científica latino-americana que desloca o futuro do Vale do Silício para a paisagem da pampa, da fronteira e do gaúcho — tudo atravessado por próteses, androides e violência estrutural. 

 

3. Principais Críticas de Nieva à Ficção Científica Contemporânea 

Crítica 

Explicação 

Esvaziamento crítico 

A ficção científica deixou de perguntar "que futuro queremos?" para sustentar que só existe um caminho: o tecnocorporativo 

Mitologia do capitalismo tardio 

As narrativas de futuro funcionam hoje como legitimação ideológica do sistema 

Apagamento de alternativas 

Utopias socialistas, indígenas ou descentralizadas são sistematicamente ignoradas 

Colonialidade do futuro 

As visões hegemônicas reproduzem padrões de exploração coloniais 

 

4. Conclusão do Livro 

Nieva encerra o ensaio com um conto — uma ficção dentro da não-ficção — que serve como síntese irônica de sua tese. Nele, Elon Musk chega aos 500 anos, já tendo colonizado Marte, mas continua sendo o mesmo ser humano limitado, mesquinho e autoritário que sempre foi. Como comenta um leitor: 

"Ainda assim, não aprendeu nada, então a imortalidade não serve para nada além de eternizar o mesmo erro."  

A mensagem final do autor é dura e sem anestesia: os bilionários não nos salvarão. Eles estão ocupados demais tentando salvar a si mesmos — e ao sistema que lhes garante privilégios — para se importarem genuinamente com o resto da humanidade.

"A ficção científica capitalista não é uma literatura de esperança. É uma mitologia de conformismo." (paráfrase da crítica do autor) 

 

5. Relevância da Obra 

Ficção Científica Capitalista é um ensaio breve, mas de impacto profundo. Em 128 páginas, Michel Nieva consegue: 

  • Desmontar as promessas tecnológicas do Vale do Silício; 

  • Oferecer uma genealogia crítica da relação entre literatura e capitalismo; 

  • Apontar a urgência de decolonizar a imaginação do futuro; 

  • Propor, ainda que de forma inicial, alternativas para quem se recusa a aceitar o fim do mundo como desculpa para o fim da política. 

É leitura obrigatória para interessados em tecnologia, crítica cultural, estudos do futuro e, sobretudo, para quem ainda acredita que outros mundos são possíveis — dentro e fora da ficção científica. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário