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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Immediacy: Or, the Style of Too Late Capitalism e Outras Obras de Anna Kornbluh

 




Anna Kornbluh é professora do Departamento de Inglês da University of Illinois Chicago, onde pesquisa e ensina sobre o romance, o cinema e a estética cultural com uma perspectiva teórica centrada no formalismo, no marxismo e na psicanálise. Doutora pela Universidade da Califórnia, Berkeley, sua obra se destaca por articular de maneira original a tradição da crítica literária marxista (especialmente Fredric Jameson) com a psicanálise lacaniana e a filosofia continental. 

Kornbluh é autora de quatro livros principais: Realizing Capital: Financial and Psychic Economies in Victorian Form (2014), The Order of FormsRealismFormalismand Social Space (2019), Marxist Film Theory and Fight Club (2019) e ImmediacyOrthe Style of Too Late Capitalism (2023/2024) . Este último é sua primeira obra publicada por uma editora comercial (Verso), buscando alcançar um público mais amplo sem renunciar ao rigor crítico. 

 

Parte I: ImmediacyOrthe Style of Too Late Capitalism (2023) 

Resumo Estrutural da Obra 

Publicado pela Verso, Immediacy é um livro polêmico e de intervenção direta no debate cultural contemporâneo. O volume é organizado em seis capítulos: Introdução, "Circulation", "Imaginary", "Writing", "Video" e "Antitheory". A tese central é que a cultura contemporânea está dominada por um "estilo da imediatidade" (immediacy style), um modo de expressão cultural que privilegia a transparência, a instantaneidade, a imersão total e a autenticidade direta, em detrimento da mediação, da abstração e da construção deliberada. 

A Tese Central: O "Estilo da Imediatidade" 

Kornbluh argumenta que o estilo da imediatidade representa um "paradoxo do antiestilo" porque "nega a mediação". Este estilo se manifesta em diversos campos: selfies, autoficção, ensaios pessoais, postagens do Reddit ("AITA" - Am I The Asshole?), experiências artísticas imersivas, séries da Netflix e a autoteoria (autotheory) . O que todos esses fenômenos têm em comum é a busca por uma experiência direta, não mediada, que elimina as distâncias entre sujeito e objeto, espectador e obra, vivência e representação. 

"Immediacy names this style to make sense of what we lose when the contradictions of twenty-first-century capitalism demand that aesthetics negate mediation."  

"Surging realness as an aesthetic program synchs with the economic imperative to intensify circulation when production stagnates."  

O Contexto Econômico: "Too Late Capitalism" 

O subtítulo da obra é fundamental. "Too late capitalism" (capitalismo tardio demais) é uma atualização irônica do conceito de "late capitalism" de Fredric Jameson e Ernest Mandel. Kornbluh cunha este termo para descrever a fase atual do capitalismo do século XXI, caracterizada por: 

  1. Estagnação da produção: O crescimento econômico real desacelerou significativamente desde os anos 1970 

  1. Aceleração da circulação: Compensatoriamente, a circulação de mercadorias, dinheiro e pessoas entrou em overdrive 

  1. Desintermediação (Disintermediation): O desmonte das instituições intermediárias (estatais ou físicas) que processavam, estabilizavam ou centralizavam o fluxo de bens e informações  

  1. Discretização (Discretization): O processo pelo qual fenômenos são achatados e separados quando codificados para consumo, prontos para serem adicionados ao scroll infinito de conteúdo  

Kornbluh observa que Marx já identificava a desintermediação como a "força motriz central do capitalismo" no século XIX. A novidade do presente é a intensificação desses processos a níveis qualitativamente transformadores. 

O Diagnóstico Psicocultural: A Queda do Simbólico 

Inspirando-se na psicanálise lacaniana, Kornbluh articula as transformações econômicas com mudanças na estrutura psíquica subjetiva. O regime de circulação acelerada e desintermediação produz uma "diminuição do simbólico e uma intensificação do imaginário". 

Em termos lacanianos: 

  • Simbólico é a ordem da linguagem, da lei, da mediação simbólica, do contrato social, da possibilidade de nuance e contradição 

  • Imaginário é a ordem das imagens, da identificação especular, do "eu" narcísico, da relação dual e imediata 

O estilo da imediatidade, ao privilegiar a imagem direta e a identificação imediata, enfraquece nossa capacidade de "discernir nuances, sustentar contradições ou nos relacionar com outros de maneiras não simplistas". O resultado é uma "epidemia de narcisismo, depressão e branding pessoal". 

A Polêmica contra a Cultura Contemporânea 

A segunda metade do livro é uma ampla e corajosa crítica a fenômenos culturais contemporâneos que Kornbluh identifica como exemplares do estilo da imediatidade. Entre os alvos estão: 

Literatura e Ficção: 

  • Autoficção (Karl Ove Knausgård, Jenny Offill) 

  • Ensaio pessoal (GawkerHuffPost Voices) 

  • O declínio da terceira pessoa em favor da primeira pessoa (Elena Ferrante, Viet Thanh Nguyen) 

  • prosificação da poesia (Claudia Rankine, Anne Boyer) 

Televisão e Cinema: 

  • Cinema imersivo de adrenalina (Uncut Gems) 

  • Estética documental recente (The Hurt Locker) 

  • Cinematografia "front-facing" que quebra a quarta parede (FleabagHouse of Cards) 

  • Séries de streaming (Emily in ParisOrange is the New Black) 

Teoria e Crítica Acadêmica: 

  • Autoteoria (Maggie Nelson, Paul Preciado, McKenzie Wark) 

  • Teoria-ator-rede (Bruno Latour) 

  • Pós-crítica (Rita Felski) 

  • Teoria niilista ou indistintiva (Kathryn Yusoff, Stefano Harney e Fred Moten) 

O diagnóstico que unifica esses alvos é a "negação da mediação". Em vez de construir estruturas formais que permitam a elaboração conceitual, essas obras buscam um contato direto com a experiência, o afeto ou o "real". 

As Alternativas Propostas 

Apesar da contundência das críticas, Kornbluh não é meramente negativa. O livro aponta para formas alternativas que priorizam "distância, impessoalidade e grandes ideias". Estas incluem certas obras de fotografia, televisão, romances e teorias construtivas que preservam o trabalho da mediação. 

A crítica, para Kornbluh (ecoando Debord), não é "uma negação do estilo, mas o estilo da negação". O objetivo não é abandonar o estilo, mas cultivar um estilo de mediação que se oponha ao estilo da imediatidade. 

Citações Diretas (Traduzidas) 

"O estilo cultural contemporâneo promove transparência e instantaneidade. Esses são valores absorvidos de nossas condições econômicas atuais de 'desintermediação': cortar o intermediário. Como o Uber, mas para a arte."  

"Disintermediation is a negation of mediation — the dismantling of middleman institutions... producing a dubious new 'sharingeconomy in their stead."  

"Too late' still holds out the possibility that things can be 'less worseand that 'old formsoutmoded institutionsand residual constructs still have more to offer."  

 

Parte II: Panorama das Outras Obras 

1. Realizing Capital: Financial and Psychic Economies in Victorian Form (2014) 

Este é o primeiro livro de Kornbluh, publicado pela Fordham University Press. A obra traça as conexões retóricas e ideológicas entre finanças e psicologia que emergiram no período vitoriano. 

Estrutura e Conteúdo: 

  • Analisa o jornalismo financeiro de Walter Bagehot e David Morier Evans 

  • Examina romances de Charles Dickens (Great Expectations), George Eliot (Middlemarch) e Anthony Trollope (The Way We Live Now) 

  • Conecta estas análises às obras críticas de Karl Marx e Sigmund Freud  

Tese Central: 
Kornbluh argumenta que as economias financeira e psíquica se constituem mutuamente através de figuras retóricas e formas narrativas comuns. O crédito, a especulação e o capital fictício no mundo financeiro encontram paralelos estruturais no investimento emocional, na transferência psíquica e na economia libidinal descrita por Freud. 

O epílogo, intitulado "The Psychic Life of Finance", sugere que esta configuração histórica continua a moldar nossa experiência contemporânea tanto do dinheiro quanto do self. 

2. The Order of FormsRealismFormalismand Social Space (2019) 

Publicado pela University of Chicago Press, este livro propõe uma categoria inovadora: o formalismo político (political formalism) . 

Tese Central: 
Kornbluh argumenta que o formalismo literário não é apolítico ou conservador, como frequentemente se alega. Pelo contrário, ao valorizar formas de sociabilidade como a cidade e o estado em si mesmas, o formalismo político oferece uma compreensão mais robusta da forma literária e de suas possibilidades políticas do que abordagens que veem a forma como uma mera restrição. 

Inovação Metodológica: 
O livro articula a coemergência de formalismos estéticos e matemáticos no século XIX. Analisando romances de Dickens, Emily Brontë (Wuthering Heights), Thomas Hardy (Jude the Obscure) e Lewis Carroll (Alice's Adventures in Wonderland), Kornbluh mostra como o realismo literário opera como um modelamento social (social modeling) — mais próximo da matemática formalista do que da documentação social. 

"By modeling societythe realist novel focuses on what it considers the most elementary features of social relations and generates unique political insights."  

Capítulos de Destaque: 

  • "The set theory of Wuthering Heights: realismantagonismand the infinities of social space" 

  • "Symbolic logic on the social plane of Alice's Adventures in Wonderland" 

  • "Obscure formsthe social geometry of Jude the Obscure" 

3. Marxist Film Theory and Fight Club (2019) 

Este livro, parte da série "Film Theory in Practice" da Bloomsbury, aplica os conceitos da teoria cinematográfica marxista à análise do filme cult Fight Club (David Fincher, 1999). Embora os detalhes específicos não estejam disponíveis nos resultados de busca, a obra insere-se no projeto mais amplo de Kornbluh de demonstrar a vitalidade da tradição marxista para a análise da cultura popular contemporânea. 

 

Parte III: Críticas e Análise da Obra de Kornbluh 

A Recepção de Immediacy 

Elogios da Crítica 

Immediacy tem sido amplamente celebrado como uma intervenção urgente e necessária no debate cultural contemporâneo. 

Jonathan Crary (autor de *24/7*), em texto de orelha, descreve o livro como: 

"This brilliantly writtenwild ride of a book is an enthrallinggloves-off critical intervention urgently needed in this moment."  

Jodi Dean acrescenta: 

"Anna Kornbluh brilliantly reinvigorates critique for an age drowning under the deluge of self-presentationEmbracing structure over stylerepresentation over personalizationand collectivity over narcissismshe creates a space for thinking — the necessary space for politics."  

Chicago Review afirma que a leitura do livro é "electrifying" e que Kornbluh consegue algo raro: "identificar a operação do estilo da imediatidade e correlacionar seus movimentos ao 'capitalismo tardio demais'". 

ArtReview posiciona o livro como sucessor direto da obra seminal de Fredric Jameson: 

"The book's subtitle boldly positions it as a successor to Fredric Jameson's era-defining PostmodernismOr, The Cultural Logic of Late Capitalism (1991). But it's not bragging if you back it upand Immediacy does."  

Críticas e Limitações 

Apesar da recepção entusiástica, o livro não está imune a críticas. A Chicago Review, em uma análise detalhada, aponta algumas fragilidades: 

  1. Imprecisão conceitual: As definições de "mediação" e "imediatidade" são por vezes vagas. A mediação é definida como "o processo ativo de relacionar", e a mediação estética como "representação em excesso da mensagem, criatividade em excesso do uso". Mas é difícil avaliar quando exatamente um objeto está evacuando a mediação. 

  1. A questão da escrita: O texto impresso, por sua própria natureza, exige um mínimo de mediação que resiste ao efeito de auto evidência característico da imediatidade. Isso cria uma tensão interna na própria argumentação de Kornbluh. 

  1. Generalizações amplas: A tentativa de criticar tanto fenômenos de cultura de massa de baixo prestígio quanto as obras mais celebradas pela intelligentsia (Maggie Nelson, Bruno Latour, Fred Moten) sob a mesma rubrica pode levar a achatamentos e falsas equivalências. 

  1. Tom polêmico: O estilo "gloves-off" (sem luvas) da obra, embora parte de seu apelo, pode soar como "grouchy or conservative" para alguns leitores. 

Trajetória Intelectual: Do Formalismo à Intervenção Pública 

Uma das observações mais interessantes da crítica é que Immediacy representa uma continuidade, não uma ruptura, no projeto intelectual de Kornbluh. Sua defesa do "formalismo político" em The Order of Forms já antecipava a defesa da mediação em Immediacy. O que muda é o alvo: antes a teoria literária acadêmica, agora a cultura popular e a teoria contemporânea. 

Esta trajetória — do vitorianismo ao streaming, de Freud a Fleabag — demonstra a ambição de Kornbluh de construir uma crítica cultural unificada que opere em múltiplas escalas. 

Posição no Debate Teórico Contemporâneo 

O trabalho de Kornbluh se insere em um campo de tensões importantes: 

Contra a Pós-Crítica: Kornbluh se opõe explicitamente ao movimento da "pós-crítica" associado a Rita Felski, Bruno Latour e outros, que questionam o modelo "hermenêutico da suspeita". Em artigo recente, Kornbluh afirma que "a crítica não pode ter chegado ao seu fim porque, propriamente, ainda não começou" . 

Em Diálogo com Jameson: Kornbluh se posiciona como herdeira do projeto de Fredric Jameson de articular o cultural e o econômico através da noção de "lógica cultural" do capitalismo. O subtítulo de Immediacy é uma homenagem explícita ao Postmodernism de Jameson. 

Próxima ao "New Sincerity": O diagnóstico de Kornbluh sobre a cultura contemporânea — a busca por autenticidade, presença e sinceridade — a aproxima de debates sobre "new sincerity" e "post-postmodernism", embora ela ofereça uma explicação estrutural (econômica e psicanalítica) distinta. 

 

Conclusão: O Projeto Intelectual de Anna Kornbluh 

A obra de Anna Kornbluh pode ser compreendida como um projeto unificado de reabilitação da mediação contra as tendências dominantes da cultura contemporânea. Seja através do formalismo literário, da análise da economia libidinal ou da crítica do estilo da imediatidade, Kornbluh argumenta consistentemente que: 

  1. forma não é uma camada superficial ou uma restrição, mas o próprio veículo do pensamento e da política 

  1. mediação é necessária para a democracia, a coletividade e a capacidade de imaginar alternativas 

  1. crítica não é um exercício negativo ou datado, mas uma prática viva e indispensável 

Em uma era que celebra a transparência total, a autenticidade imediata e a dissolução das fronteiras entre vida e arte, Kornbluh tem a coragem de defender o oposto: a distância, a impessoalidade, a construção deliberada e o pensamento abstrato. 

Como ela mesma escreve, ecoando uma tradição que vai de Adorno a Jameson: 

"Political turmoil and social challenges require more mediation. Collective willinspiring ideasand deliberate construction are the only way out, but our dominant style forgoes them."  

Immediacy é, portanto, mais do que um livro sobre estética ou teoria cultural. É um manifesto pela possibilidade do pensamento em uma era que parece determinada a eliminá-lo. 

 

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