SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Teoria da Comédia: Do Riso ao Catastrófico


Introdução: O Lugar do Cômico na Filosofia e na Crítica 

A comédia tem sido historicamente a parente pobre da filosofia estética. Enquanto o sublime e o trágico receberam tratamentos sistemáticos e elevados — de Aristóteles a Kant, de Nietzsche a Heidegger — o cômico foi frequentemente relegado a um papel secundário, quando não tratado com suspeita. Platão, na República, expressava receio diante do riso descontrolado, vendo nele uma ameaça à ordem racional da alma. Aristóteles, em sua Poética, dedicou à comédia um livro que se perdeu, sobrevivendo apenas em referências fragmentárias que sugerem uma teoria do cômico como "imitação de homens inferiores". 

No entanto, nas últimas décadas, a teoria da comédia experimentou um notável renascimento. Autores como Simon Critchley (On Humour, 2002), Alenka Zupancic (The Odd One In: On Comedy, 2008) e, mais recentemente, Todd McGowan (Only a Joke Can Save Us, 2017) têm reposicionado o cômico como um fenômeno central para a compreensão da subjetividade, da ideologia e da própria possibilidade de transformação social e psíquica. Longe de ser mero escape ou entretenimento superficial, a comédia emerge nesses trabalhos como uma "maneira de ver as coisas" — um modo de engajamento com o mundo que revela suas fissuras, suas impossibilidades e, paradoxalmente, suas possibilidades de reinvenção. 

 

Resumo Detalhado: "Only a Joke Can Save Us: A Theory of Comedy" por Todd McGowan 

Sobre o Autor e a Obra 

Todd McGowan é professor de cinema e estudos televisivos na Universidade de Vermont, e um dos principais expoentes da tradição de leitura psicanalítica da cultura (especialmente influenciado por Jacques Lacan e pela Escola de Ljubljana, que inclui Slavoj Žižek e Alenka Zupancic) . Publicado em 2017 pela Northwestern University Press como parte da série DiaeresisOnly a Joke Can Save Us se apresenta como "uma teoria inovadora e abrangente da comédia". 

O título já anuncia sua tese provocativa: a comédia não é um mero alívio ou distração, mas tem um potencial salvífico — ela pode nos salvar das armadilhas do pensamento, da rigidez ideológica e do desespero existencial. 

Estrutura do Livro 

A obra está organizada em dez capítulos, precedidos por uma introdução e seguidos por uma conclusão: 

  1. Introduction: The Similar and the Dissimilar — Introdução: O Similar e o Dissimilar 

  1. Lack and Excess — Falta e Excesso 

  1. Theory and Opposition — Teoria e Oposição 

  1. Tragedy and Pathos — Tragédia e Pathos 

  1. Philosophy and the Finite — Filosofia e o Finito 

  1. Signification and Desire — Significação e Desejo 

  1. Distance and Proximity — Distância e Proximidade 

  1. Outside and Inside — Fora e Dentro 

  1. Ideology and Equality — Ideologia e Igualdade 

  1. ConclusionSpeculation and Levity — Conclusão: Especulação e Leveza 

A Tese Central: Falta e Excesso 

McGowan localiza a fonte universal da comédia na interação entre dois conceitos opostos: falta (lack) e excesso (excess) . Esta é a inovação fundamental de sua abordagem: ao contrário de teorias anteriores que privilegiavam um ou outro aspecto do cômico (a incongruência, a superioridade, o alívio), McGowan argumenta que a comédia genuína emerge precisamente da tensão irresolvível entre aquilo que nos falta e aquilo que nos excede. 

falta refere-se à constituição fundamental do sujeito como "barrado" (barred subject), um ser cindido por um vazio estrutural. Para a psicanálise lacaniana, não há sujeito pleno, completo em si mesmo; há sempre uma falta constitutiva que nos impulsiona em busca de objetos que prometem preencher o vazio. O excesso, por sua vez, refere-se ao gozo que transborda qualquer tentativa de simbolização ou controle — aquilo que é "a mais" (the plus), que não se deixa capturar pelas trocas simbólicas da vida social. 

O cômico, para McGowan, emerge quando esses dois polos são colocados em justaposição, contraste ou interação. Um personagem cômico é, tipicamente, aquele que insiste em perseguir um objeto de desejo com uma seriedade desmedida — sem perceber que este objeto é irremediavelmente perdido (falta) e que sua própria persistência produz efeitos absurdos (excesso). Chaplin, Keaton, os irmãos Marx — todos operam nesta lógica. 

Diálogo com a Tradição 

McGowan dedica uma parte significativa do livro a revisar o tratamento da comédia na história da filosofia, engajando-se com Aristóteles, Hegel, Freud e Bergson, além da contemporânea Alenka Zupancic . 

Freud é uma referência inevitável. Sua O Chiste e sua Relação com o Inconsciente (1905) estabeleceram as bases para uma compreensão psicanalítica do humor, distinguindo entre o chiste (Witz), o cômico e o humor propriamente dito. Para Freud, o chiste opera através da economia psíquica: ele produz prazer ao liberar energia psíquica que seria gasta na repressão ou na inibição. McGowan reconhece a importância desta contribuição, mas vai além, argumentando que o cômico não é apenas sobre a liberação de energia, mas sobre a revelação da própria estrutura do desejo. 

Bergson, em O Riso (1900), propôs que o cômico reside na "mecanização da vida" — o momento em que um ser humano se comporta como uma máquina, perdendo sua flexibilidade vital. McGowan resgata esta intuição, mas a reinterpreta através da lente da falta e do excesso. O automatismo cômico é, para ele, uma tentativa de negar a falta constitutiva — de agir como se o sujeito fosse completo, previsível, sem fissuras. O riso explode exatamente quando esta pretensão fracassa. 

Hegel oferece uma leitura mais complexa. Em sua Estética, Hegel vê a comédia como um estágio no desenvolvimento do espírito — um momento em que a subjetividade se afirmar contra a objetividade, dissolvendo as pretensões do mundo externo. McGowan se interessa por esta leitura, mas a crítica por ainda subordinar a comédia a um movimento teleológico em direção à reconciliação absoluta. Para McGowan, o poder da comédia está em recusar a reconciliação — em manter abertas as fissuras que o pensamento sistemático tenta selar. 

A Comédia contra a Tragédia 

Um dos eixos centrais do livro é a oposição entre comédia e tragédia, e a defesa da superioridade da primeira em certos aspectos cruciais. Enquanto a tragédia, desde Aristóteles, se define pela seriedade, pela elevação e pelo enfrentamento direto do destino, a comédia opera por meio de uma "virada" que relativiza o pathos. 

Uso um exemplo que McGowan analisa em profundidade: Groundhog Day (1993), de Harold Ramis. O protagonista, Phil Connors, é forçado a reviver o mesmo dia repetidamente. Inicialmente, isso é trágico — a repetição parece uma maldição. Mas comédia emerge quando Phil percebe que a repetição não é um limite, mas uma oportunidade. Ao invés de tentar escapar do loop (uma abordagem trágica), ele aprende a jogar com ele. A falta (a impossibilidade de avançar no tempo) e o excesso (as possibilidades infinitas dentro do loop) se entrelaçam. 

McGowan afirma que o cômico nos ensina algo que a tragédia não pode: que a falta não é uma falha a ser superada, mas a condição de possibilidade para a transformação. A tragédia busca o reconhecimento, a catarse, a aceitação do destino. A comédia busca a subversão do destino — mostrar que aquilo que parecia uma barreira intransponível é, na verdade, um convite à criatividade. 

Aplicações: Cinema e Cultura Popular 

O livro é generosamente ilustrado com exemplos do cinema, desde os clássicos do cinema mudo até obras contemporâneas. A escolha não é acidental: o cinema, para McGowan, é o meio privilegiado para a investigação da comédia no século XX, justamente porque ele opera através da própria dialética entre falta e excesso. 

Buster Keaton é um caso exemplar. Seu personagem — o stoic face, o rosto imperturbável diante do caos — encarna perfeitamente a tensão entre a rigidez (a tentativa de negar a falta) e o desastre iminente (o excesso do mundo material). Keaton não ri; seu personagem não reconhece a comédia de sua situação. O riso é todo do espectador, que percebe o abismo entre a serenidade do personagem e a catástrofe que o cerca. 

Os Irmãos Marx, em contraste, operam pelo excesso puro. Groucho, Chico e Harpo são forças da natureza caótica que irrompem em situações ordenadas (a ópera, o navio de cruzeiro, a universidade) e as desestabilizam completamente. Eles são, em certo sentido, além da falta — eles são o excesso, o gozo que não se deixa domesticar. McGowan argumenta que a eficácia cômica dos Marx Brothers reside em sua capacidade de mostrar como toda ordem social é contingente — o que significa que ela pode ser subvertida. 

Dr. Strangelove (Stanley Kubrick, 1964) representa outro modo de comédia: a comédia do apocalipse. O filme trata da possibilidade de aniquilação nuclear com um elenco de personagens cuja seriedade é grotescamente desproporcional ao desastre iminente. O General Ripper, obcecado com sua "essência vital"; o Dr. Strangelove, cujo braço nazista tem vontade própria; os líderes soviéticos e americanos discutindo protocolos enquanto o mundo se aproxima do fim — tudo isso exemplifica a comédia como revelação do absurdo na estrutura. 

Comédia e Ideologia 

O capítulo sobre ideologia e igualdade é talvez o mais politicamente incisivo. McGowan argumenta que a comédia tem um potencial igualitário que a distingue de outras formas estéticas. 

A tragédia, historicamente, é um gênero aristocrático. Ela lida com reis, heróis, figuras excepcionais cuja queda é digna de comiseração. A comédia, ao contrário, é o gênero do comum, do cotidiano, do "qualquer um". O herói cômico não é elevado; ele é falho, atrapalhado, humano — e é precisamente nisso que reside sua potência. 

McGowan demonstra como o humor pode revelar "lacunas não ser e lacunas na ordem social". 

Estas lacunas (gaps) são os pontos de abertura por onde a possibilidade de transformação pode entrar. Uma piada sobre o poder, por exemplo, não apenas ridiculariza uma figura autoritária, mas revela a arbitrariedade da autoridade. Mostra que o "rei" é apenas um homem de calças, ou pior, sem calças — e que o respeito que lhe é tributado é uma convenção que pode ser desfeita. 

Isto não significa, no entanto, que toda comédia seja progressista. McGowan está atento aos perigos do riso que reforça hierarquias — o humor que ridiculariza o fraco, o diferente, o vulnerável. Este tipo de comédia não revela lacunas na ordem social; ao contrário, tenta selar as lacunas projetando a falta no outro. O desafio, para McGowan, é cultivar uma comédia que nos faça rir da estrutura (da ideologia, da autoridade, do desejo) e não do outro. 

Citações Diretas 

A seguir, algumas passagens-chave que sintetizam o argumento de McGowan: 

"Only a Joke Can Save Us presents an innovative and comprehensive theory of comedyUsing a wealth of examples from high and popular culture and with careful attention to the treatment of humor in philosophy, Todd McGowan locates the universal source of comedy in the interplay of the opposing concepts lack and excess."  

"Illustrating the power and flexibility of this framework with analyses of films ranging from Buster Keaton and Marx Brothers classics to Dr. Strangelove and Groundhog DayMcGowan shows how humor can reveal gaps in being and gaps in social order."  

"Scholarly yet lively and readableOnly a Joke Can Save Us is a groundbreaking examination of the enigmatic yet endlessly fascinating experience of humor and comedy."  

 

Críticas e Análise da Obra de McGowan 

Elogios da Crítica 

A recepção de Only a Joke Can Save Us tem sido amplamente positiva, especialmente nos círculos de teoria crítica e estudos cinematográficos. 

Originalidade da Abordagem: McGowan consegue algo raro: oferecer uma teoria unificada da comédia em um momento em que o consenso acadêmico tendia ao ceticismo sobre a possibilidade de explicações universais. A combinação de falta e excesso como princípios organizadores é elegante e produtiva. 

Riqueza de Exemplos: O livro se beneficia enormemente da amplitude de referências culturais. McGowan transita com desenvoltura do cinema mudo ao streaming, da filosofia alemã à cultura pop contemporânea, demonstrando que sua teoria tem poder explicativo em múltiplas escalas. 

Clareza de Escrita: Ao contrário de muitos textos de teoria psicanalítica, que podem se tornar herméticos, McGowan mantém uma prosa "viva e legível" (lively and readable) . Ele não sacrifica a sofisticação conceitual pela acessibilidade, mas evita o jargão desnecessário. 

Inserção na Tradição: O diálogo com Aristóteles, Hegel, Freud e Bergson situa o livro como uma contribuição à história da filosofia, não apenas um exercício de teoria aplicada. 

Limitações e Possíveis Objeções 

1. Universalismo vs. Especificidade Cultural: A afirmação de McGowan de ter localizado *a* fonte universal da comédia pode ser recebida com ceticismo por antropólogos e estudiosos das culturas não-ocidentais. O riso não é o mesmo em todas as culturas; o que é cômico no Japão, na Nigéria ou no Brasil pode operar por lógicas que escapam à estrutura falta/excesso. McGowan não aborda esta questão em profundidade. 

2. Viés Psicanalítico: Para aqueles que não compartilham dos pressupostos lacanianos — o sujeito barrado, o objeto *a*, o gozo como categoria fundamental — a teoria de McGowan pode parecer circular ou dogmática. A psicanálise é assumida como quadro descritivo básico, não como hipótese a ser defendida. 

3. Negligência da Performance: O foco em exemplos cinematográficos, embora produtivo, pode levar a uma subestimação das dimensões performáticas da comédia. O riso ao vivo, a interação entre palhaço e plateia, o timing que depende de respiração compartilhada — estes aspectos são difíceis de capturar em análises fílmicas. Uma abordagem centrada na performance (como a de John Limon em Stand-Up Comedy in Theory) ofereceria um complemento necessário. 

4. O Problema do "Salvacionismo": O título — Only a Joke Can Save Us — é provocativo, mas pode ser criticado por hiperbólico. A comédia salva-nos? Do quê? Da ideologia? Do desespero? Da morte? McGowan evita o voluntarismo ingênuo, mas há momentos em que o tom se aproxima de uma "celebração" do cômico que pode soar como otimismo injustificado, especialmente para aqueles cujas experiências de sofrimento não encontram alívio na piada. 

5. Ausência de Tradição Brasileira: Este não é propriamente um defeito do livro, mas uma ressalva para o leitor brasileiro: McGowan não dialoga com tradições cômicas não-anglófonas ou não-europeias. O leitor interessado em teorias da comédia que incorporem perspectivas latino-americanas ou africanas precisará buscar complementos. 

 

Outras Obras Relevantes no Campo 

Embora o foco deste resumo seja McGowan, é útil situar sua contribuição no campo mais amplo da teoria da comédia. 

Simon CritchleyOn Humour (2002) 

Critchley, filósofo britânico conhecido por seu trabalho em ética e fenomenologia, oferece uma abordagem distinta. Para Critchley, o humor é fundamentalmente um fenômeno social e político. Ele argumenta que o riso emerge da "incongruência" entre nossas expectativas e a realidade, mas esta incongruência não é apenas cognitiva — ela revela as normas tácitas que governam a vida social. 

Uma crítica recorrente a Critchley, no entanto, é que seu livro é "mais sobre teorias do humor do que sobre o humor em si". Os exemplos tendem ao "intelectual" (Sterne, Swift, Beckett) em detrimento de comediantes populares. Além disso, há uma "tensão não resolvida" entre sua afirmação de que o estudo do humor "é apenas tão bom quanto seus exemplos" e sua própria negligência em fornecer análises contextualizadas dos exemplos que cita. 

Alenka ZupancicThe Odd One In: On Comedy (2008) 

Zupancic, filósofa eslovena e colega de Žižek na Escola de Ljubljana, é uma das influências mais importantes de McGowan. Seu livro sobre comédia argumenta que o cômico não é o oposto do sério — é, antes, o modo pelo qual o "sério" se revela como contingente, como desprovido de fundamento último. Para Zupancic, a comédia é o gênero do finito — ela nos confronta com os limites da nossa própria pretensão de completude. 

Zupancic oferece análises brilhantes de filmes como Um Corpo que cai (Vertigo) de Hitchcock, mostrando como a tragédia e a comédia podem coexistir na mesma obra. Sua influência em McGowan é explícita e reconhecida. 

Jan Walsh HokensonThe Idea of ComedyHistoryTheory, Critique (2006) 

Para o leitor interessado em uma história abrangente da teoria da comédia, a obra de Hokenson é um recurso valioso. O livro traça o desenvolvimento das concepções de comédia desde a antiguidade clássica até o presente, organizando o material em torno de dois eixos principais: o arc do ético ao social (a transição de teorias baseadas no caráter individual para teorias baseadas na função social) e as elisões recorrentes na tradição (aquilo que as teorias deixam de explicar). 

Particularmente úteis são as seções sobre o período modernista (onde a comédia é frequentemente subordinada à sátira e à função corretiva) e o período pós-modernista (onde emerge um interesse renovado pelo "lúdico" e pelo absurdo). Hokenson também aborda a "tradição do tolo medieval" (the medieval fool tradition), um elo frequentemente negligenciado na história da teoria cômica . 

Morton GurewitchComedy: The Irrational Vision 

Embora mais antigo (final dos anos 1970), Gurewitch oferece uma crítica contundente às teorias que reduzem a comédia à reconciliação social (Frye) ou ao reformismo (Meredith, Bergson). Gurewitch defende a importância da farsa — o cômico do "ilógico e irreverente" — como um teste crucial para qualquer teoria abrangente. Sua ênfase na "liberdade irracional" como núcleo da experiência cômica antecipa alguns dos temas que McGowan desenvolverá décadas depois. 

 

Conclusão: Por que a Comédia Importa Agora 

Vivemos em tempos de seriedade inflacionada. Crises climáticas, colapsos políticos, pandemias, guerras — a cada dia, somos confrontados com notícias que exigem nossa atenção solene, nossa indignação justa, nosso engajamento político. O risco, nestas condições, é que a seriedade se torne paralisante — que a gravidade das questões nos impeça de enxergar as brechas por onde a transformação pode entrar. 

É neste contexto que a comédia revela sua importância. Não como fuga, mas como ferramenta de lucidez. A piada não nega o desastre; ela o desloca, o ilumina por um ângulo inesperado, mostra que aquilo que parecia um muro intransponível tem, na verdade, uma rachadura. 

Todd McGowan nos oferece uma teoria para compreender este processo. Falta e excesso — a dialética do que nos constitui como incompletos e do que nos transborda como gozo impossível de simbolizar — não são apenas categorias psicanalíticas abstratas. Elas são os motores da experiência cômica, e podem ser cultivadas como disposições éticas e políticas. 

"Only a Joke Can Save Us" — apenas uma piada pode nos salvar. 

Não porque o riso resolva problemas concretos, mas porque ele nos lembra que os problemas têm soluções concretas, ainda que não saibamos quais são. A comédia restaura a contingência onde a ideologia insiste na necessidade. Ela nos lembra que as coisas poderiam ser de outro modo — e que rir da catástrofe é o primeiro passo para imaginar, e talvez construir, um outro mundo. 

Para o leitor interessado em aprofundar-se no tema, a sequência sugerida é: 

  1. Comece com Critchley (On Humour) para uma introdução acessível e fenomenologicamente fundamentada. 

  1. Avance para McGowan (Only a Joke Can Save Us) para a abordagem psicanalítica e a tese da falta/excesso. 

  1. Complemente com Zupancic (The Odd One In) para uma leitura mais sistemática e filosoficamente densa. 

  1. Consulte Hokenson (The Idea of Comedy) como obra de referência histórica. 

A teoria da comédia, como McGowan demonstra, não é um luxo acadêmico. É uma necessidade para quem deseja pensar — e viver — sem se deixar esmagar pelo peso do mundo. 

 

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