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quarta-feira, 17 de junho de 2026
Quem começa o doutorado 20 anos depois da graduação? São mais de 51 mil pessoas.
Quem começa o doutorado 20 anos depois da graduação? São mais de 51 mil pessoas.
A pós-graduação brasileira é relativamente jovem. A CAPES nasceu em 1951. Para um país, isso é pouco tempo quando pensamos na formação de gerações de mestres e doutores.
Talvez por isso ainda seja tão comum, e tão bonito, encontrar pessoas que são as primeiras da família a concluir uma graduação, um mestrado ou um doutorado.
Mas, quanto tempo depois da graduação uma pessoa chega ao doutorado? A transição é imediata? Demora alguns anos? Ou, para parte das pessoas, demora muitos anos?
Para observar isso, analisei a Base Lattes. Para cada pessoa, considerei dois marcos formativos: a primeira Graduação concluída; e
o início do primeiro Doutorado. A partir disso, calculei o número de anos entre esses dois momentos.
O resultado mostra uma concentração esperada nos primeiros anos após a graduação. Muitas pessoas iniciam o doutorado até quatro anos depois da primeira formação. Outras entram entre cinco e nove anos depois.
Na base analisada:
-- 149.943 pessoas iniciaram o doutorado entre 0 e 4 anos após a primeira graduação;
-- 136.077 entre 5 e 9 anos;
-- 73.734 entre 10 e 14 anos;
-- 44.816 entre 15 e 19 anos;
-- 41.388 entre 20 e 29 anos; e
-- 9.986 com 30 anos ou mais.
Ou seja, 51.374 pessoas iniciaram o doutorado 20 anos ou mais depois da primeira graduação. Esse número me parece relevante pois são dezenas de milhares de trajetórias em que o doutorado começou muito depois da graduação.
É claro que esse número precisa ser lido com cuidado. A figura não mede idade biológica. Também não mede diretamente resiliência, dificuldade, mérito ou motivação. Mas torna visível algo que raramente discutimos e é que há pessoas que chegam ao doutorado depois de uma longa travessia. E essa travessia provavelmente não é simples.
Vinte anos depois da graduação, a vida costuma estar mais cheia. Há trabalho. Família. Filhos. Pais idosos. Contas. Deslocamentos. Rotinas profissionais já estabelecidas. Menos tempo livre. Menos energia física. Mais limites. Mais responsabilidade. Mesmo assim, essas pessoas iniciam um doutorado. Por quê?
Talvez por desejo antigo. Talvez por oportunidade tardia. Talvez por exigência profissional. Talvez por reencontro com a universidade. Talvez porque algumas perguntas demoram anos para amadurecer. Não sei responder com os dados.
Como programas de pós-graduação, orientadores e instituições olham para essas trajetórias? Damos oportunidade real a quem chega mais tarde? Ou ainda imaginamos o doutorado como uma etapa quase natural de uma juventude acadêmica contínua, linear e com dedicação integral?
O doutorado é exigente. Deve continuar sendo. Mas talvez possamos olhar com mais cuidado para quem chega a ele por caminhos longos.
Porque começar um doutorado 20 ou 30 anos depois da graduação não é apenas um dado curioso.
É, muitas vezes, um recomeço.
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