SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Identidade não se discute. Se acolhe. Se respeita.



Recentemente, Camila Pitanga, atriz, foi alvo de críticas após reafirmar com firmeza sua negritude durante uma participação no podcast Mano a Mano, apresentado por Mano Brown.


Em seguida, a influencer que cunhou o termo “parditude”, que afirmou ser “o primeiro projeto antirracista do Brasil com foco em pautas multirraciais”, compartilhou imagens da infância de Camila com a insinuação de que sua identidade negra seria questionável - insinuação que acabou gerando ampla repercussão negativa e foi posteriormente retirada.

O episódio expôs, mais uma vez, o perigo intrínseco de reduzir a identidade de alguém ao tom da pele ou ao comportamento público, transformando a autodeclaração em objeto de escrutínio público.

Por aqui, eu me declaro homem preto não-retinto e a discordância silenciosa sobre esse posicionamento tem efeitos um pouco mais profundos.

Para esclarecer conceitos:
. Pardo é uma categoria estatística usada pelo IBGE para representar pessoas de ancestralidade mista (branca, negra, indígena). Não é, por si só, uma afirmação de pertencimento identitário.
. Preto não-retinto, por sua vez, refere-se a pessoas negras de pele mais clara que reconhecem-se como negras, carregam história, vivência e enfrentamentos associados à negritude — mesmo que não correspondam ao estereótipo retinto.

Estou nesse lugar intermediário: Eu não desfruto dos privilégios de uma pessoa branca, e também sou alvo de preconceitos que atingem pessoas pretas retintas. Esse "entre-lugar" não diminui minha negritude, mas ao contrário, reafirma sua complexidade.

Rejeitar ou questionar essa identidade é, de fato, uma forma de violência simbólica. Autodeclarar-se não é um ato de provação, mas de autoafirmação. É reconhecer a própria história, o próprio lugar e a própria narrativa que não está à disposição de outros para julgamento.

A discussão sobre diversidade precisa urgentemente superar reducionismos. Negritude vai muito além dos tipos de tom da pele, é uma construção histórica, política e cultural. Perguntar “Você é mesmo preto?” é ignorar essa complexidade. Uma abordagem respeitosa seria perguntar: “O que posso fazer para reconhecer sua identidade e combater os obstáculos que você enfrenta?”

Identidade não se discute. Se acolhe. Se respeita.

*No Brasil, a Lei 12.711/2012 estabeleceu a autodeclaração racial como critério para acesso às políticas de cotas no ensino superior federal. Criada para corrigir desigualdades históricas, ela reconhece que identidade racial é um direito de autodefinição. Para pardos e pretos não-retintos, essa lei foi um marco: ao legitimá-los dentro da população negra, reforçou que também vivenciam o racismo estrutural e, portanto, devem ter acesso às mesmas políticas reparatórias que os pretos retintos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário