Recentemente, Camila Pitanga, atriz, foi alvo de críticas após reafirmar com firmeza sua negritude durante uma participação no podcast Mano a Mano, apresentado por Mano Brown.
Em seguida, a influencer que cunhou o termo “parditude”, que afirmou ser “o primeiro projeto antirracista do Brasil com foco em pautas multirraciais”, compartilhou imagens da infância de Camila com a insinuação de que sua identidade negra seria questionável - insinuação que acabou gerando ampla repercussão negativa e foi posteriormente retirada.
O episódio expôs, mais uma vez, o perigo intrínseco de reduzir a identidade de alguém ao tom da pele ou ao comportamento público, transformando a autodeclaração em objeto de escrutínio público.
Por aqui, eu me declaro homem preto não-retinto e a discordância silenciosa sobre esse posicionamento tem efeitos um pouco mais profundos.
Para esclarecer conceitos:
. Pardo é uma categoria estatística usada pelo IBGE para representar pessoas de ancestralidade mista (branca, negra, indígena). Não é, por si só, uma afirmação de pertencimento identitário.
. Preto não-retinto, por sua vez, refere-se a pessoas negras de pele mais clara que reconhecem-se como negras, carregam história, vivência e enfrentamentos associados à negritude — mesmo que não correspondam ao estereótipo retinto.
Estou nesse lugar intermediário: Eu não desfruto dos privilégios de uma pessoa branca, e também sou alvo de preconceitos que atingem pessoas pretas retintas. Esse "entre-lugar" não diminui minha negritude, mas ao contrário, reafirma sua complexidade.
Rejeitar ou questionar essa identidade é, de fato, uma forma de violência simbólica. Autodeclarar-se não é um ato de provação, mas de autoafirmação. É reconhecer a própria história, o próprio lugar e a própria narrativa que não está à disposição de outros para julgamento.
A discussão sobre diversidade precisa urgentemente superar reducionismos. Negritude vai muito além dos tipos de tom da pele, é uma construção histórica, política e cultural. Perguntar “Você é mesmo preto?” é ignorar essa complexidade. Uma abordagem respeitosa seria perguntar: “O que posso fazer para reconhecer sua identidade e combater os obstáculos que você enfrenta?”
Identidade não se discute. Se acolhe. Se respeita.
*No Brasil, a Lei 12.711/2012 estabeleceu a autodeclaração racial como critério para acesso às políticas de cotas no ensino superior federal. Criada para corrigir desigualdades históricas, ela reconhece que identidade racial é um direito de autodefinição. Para pardos e pretos não-retintos, essa lei foi um marco: ao legitimá-los dentro da população negra, reforçou que também vivenciam o racismo estrutural e, portanto, devem ter acesso às mesmas políticas reparatórias que os pretos retintos.
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