SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Geometria e estética: Experiências com o jogo de xadrez



Este livro discute qual o conteúdo de Matemática é mais desafiador e tem mais significado para os alunos. Como a disciplina é cercada pelo mito da dificuldade, o autor se valeu do xadrez como recurso didático para gerar situações prazerosas que desenvolvessem o gosto pelas experiências matemáticas. O xadrez é utilizado como exemplo de um recurso para ensinar conceitos e procedimentos matemáticos que sirvam também de objeto de estudo para a reflexão sobre pesquisas que possam ser feitas em outras áreas do conhecimento. Computadores, vídeos, jogos, lousa e giz são vistos como caminhos igualmente válidos, desde que sejam investigados em profundidade para entender o que cada um deles pode oferecer ao ensino da Matemática.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A Irlanda lançou a "Renda Básica para as Artes" (BIA)




A Irlanda lançou a "Renda Básica para as Artes" (BIA), um piloto que concede um pagamento semanal de € 325 a 2.000 artistas e trabalhadores criativos elegíveis por três anos.


🎯 Objetivos e principais características
Trata-se de uma intervenção setorial, não de uma renda básica universal: busca aliviar a precariedade econômica enfrentada pelos criativos, permitindo que eles se concentrem em sua prática artística sem a pressão imediata de uma renda constante.

O mérito e a competência artística não são avaliados; Uma vez que um candidato atende aos critérios, ele participa de um processo de seleção aleatória.

Os rendimentos serão tratados como rendimentos de trabalho independente para efeitos de prestações sociais e de verificação de recursos.

Artistas recém-treinados podem acessar por meio de uma rota especial chamada "Candidatos Recentemente Treinados".

O piloto também inclui um grupo de controle (aqueles que não recebem o benefício) para coletar dados e avaliar o impacto.

✅ O que foi observado até agora?
Foi relatado que essa medida permitiu que alguns beneficiários participassem de oportunidades de networking, residências ou treinamentos que antes eram inacessíveis para eles devido às suas condições econômicas.

De acordo com as análises divulgadas, por cada 1€ investido, a sociedade teria recuperado 1,39€ em benefícios sociais e culturais.

O piloto foi prorrogado por seis meses enquanto seu impacto é avaliado e um possível esquema permanente é projetado.

Além disso, há planos para incorporá-lo permanentemente ao orçamento nacional de 2026, com critérios mais amplos para incluir mais disciplinas artísticas.

🔍 Reflexão da América Latina
Esses tipos de políticas mostram que é possível repensar o papel do Estado como facilitador da criatividade, não apenas como comprador de projetos. Os artistas – muitas vezes invisíveis nos esquemas convencionais de seguridade social – precisam de estabilidade básica para assumir riscos, inovar e projetar suas obras no futuro.
Algumas ideias para aqueles de nós que trabalham em outros contextos:
Experimente modelos piloto semelhantes que respondam à realidade local do setor criativo.
Articular mecanismos de avaliação rigorosos para medir não apenas os benefícios econômicos, mas também os efeitos na saúde mental, coesão social e visibilidade cultural.
Impedir que essas políticas sejam vinculadas à "caridade cultural": elas devem fazer parte de políticas abrangentes de desenvolvimento humano e direitos culturais.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Genocídio Palestino, Rio de Janeiro e Extermínio Cearense: A Banalização da Morte dos Pobres





Enquanto o genocídio palestino ceifou mais de 50 mil vidas sob bombardeios estatais, o Ceará registrou mais de 128 mil mortes violentas no período que Camilo e Cid governaram o Estado do Ceará, sem guerra declarada, sem exército nas ruas. Esta comparação não busca igualar contextos, mas expor a mesma capacidade de naturalizar a morte em massa quando as vítimas são pobres e marginalizadas. 

Na Palestina, a violência é estatal, vertical e aguda. Um exército moderno enfrenta uma população civil, resultando em uma catástrofe humanitária concentrada e globalmente visível. É o genocídio explícito. 

No Brasil, a violência é sistêmica, descentralizada e crônica. O Comando Vermelho, que surgiu a partir da tortura sistemática de presos políticos comuns no Presídio da Ilha Grande (Praia Grande) em 1979, e outras facções armam as periferias num ciclo de vingança onde cada massacre gera mais revolta. Sob a liderança de William de Lima Silva, o "Professor", presos comuns se organizaram para resistir às torturas da ditadura, criando uma organização que depois se aliaria ao tráfico. O "narco estado" na Colômbia de Pablo Escobar e os atentados do crime no México contra políticos e civis mostram que esta é uma patologia continental. 

A estratégia de guerra às drogas mostrou-se fútil em escala global. Nem o FBI nem o exército americano resolveram o problema, assim como não foi solucionado na Colômbia, Venezuela ou México. A lógica é insana: "mata o exército deles que no outro dia outros são promovidos na carreira do crime". Perdem-se estoques de armas e drogas que são recomprados no dia seguinte. O crime é uma hidra que se regenera. 

A solução testada e comprovada é tirar da pobreza com cidadania, como fez a China com milhões de pessoas, replicando o caminho dos EUA, Europa, Japão e Coreia. É mais barato que polícia e presídios, gera trabalho, renda, cidadania e mercado. Enquanto isso, os presídios brasileiros se tornaram Universidades do Crime, desperdiçando a juventude que deveria ser a força de trabalho, cidadania e consumo do país. 

O que existe em comum entre Camilo Santana, Ferreira Gomes e o Governador Castro do Rio? As mãos sujas de sangue e corrupção. Enquanto morreram mais de cem pessoas no Rio em um único dia - caso que pautou a imprensa internacional -, no Ceará morreram 3.178 pessoas no ano passado numa guerra diária sem visibilidade, em décadas passadas enquanto Camilo Santana junior e Cid Ferreira júniorcurrículo filhos do pais há décadas no poder, herdeiros incompetentes do Estado, onde se matou mais de 128 mil pessoas em seus Governos. E ironia ser Ministro da Educação quem nunca foi bom aluno, nem professor, nem pensador, apenas operadores da politicagem.  

Aqui os culpados não aparecem na imprensa, não são investigados e atuam como uma máfia vivendo do Estado. São políticos oligarcas como a família do Ministro Camilo Santana - seu pai, irmão, esposa e parentes -, os Ferreira Gomes, Benevides e outros, há décadas no poder, com vários casos de corrupção como Aquário, Tatuzões, Usina do Cariri e dezenas de outros, denunciados pelo Deputado Heitor Ferrer sem investigação na Assembleia Legislativa. 

Mentem sobre o caso de sucesso na educação quando, durante seus governos, abandonaram milhões de jovens com 60% da população não concluindo o ensino médio e o estado sendo o quarto pior em analfabetismo. Usam uma minoria que teve acesso como exemplo, desrespeitando a Constituição. 

Esta estrutura oligárquica gera bilionários que não pagam impostos enquanto mantém seus parentes intactos no aparelhamento do Estado, como na ONG do irmão de Camilo Santana com contratos sem licitação, ou a mulher de Camilo Santana Junior no TCE, pega pela Polícia Federal comprando votos. 

O Atlas da Violência confirma que o Ceará lidera rankings de letalidade, com taxas que superam países em guerra. A Transparência Brasil mostra que estados controlados por oligarquias têm os piores índices de transparência. É a "ditadura da corrupção" que gera uma juventude sem futuro - 23% dos jovens brasileiros nem estudam nem trabalham, formando o exército de reserva do crime. 

Enquanto isso, a imprensa espetaculariza a violência do Rio, mas a "Grande Corrupção" e a "Máfia Branca" dos estados seguem intocadas. É uma guerra menos visível, mas com vítimas incomparavelmente maiores, cujos culpados têm nome, endereço e assento no poder. 

A violência nas ruas é apenas o sintoma do câncer que corrói o Estado por dentro. A origem do Comando Vermelho na resistência à tortura estatal mostra como o próprio Estado é o germe da violência que depois diz combater. Até quando aceitaremos que a vida dos pobres vale tão pouco, seja em Gaza ou nas periferias do Brasil? 




https://www.instagram.com/reel/DQZ0kCnAbjO/?igsh=MXIyc2ozYmVwN3NpbA%3D%3D

 

terça-feira, 28 de outubro de 2025

A Voz dos Territórios: Por uma Cartografia da Esperança Insurgente por Egidio Guerra

 


Há uma geografia viva pulsando sob o mapa oficial das cidades. Uma espacialidade social, como nos ensina Benno Werlen, que não é feita apenas de coordenadas, mas de trajetórias, afetos e lutas. É a geografia construída pelo caminhar diário, pela luta por um teto, pela feira livre que transforma o espaço público em lar. Esta geografia tem uma voz – múltipla, dissonante e profundamente sábia. É a voz do povo, que, nas palavras de Carlos Piovezani, não é um ruído, mas um discurso pleno de sentido, uma demanda por reconhecimento que precede e funda a própria política. Escutar esta voz não é um gesto de benevolência, mas uma necessidade urgente para que as políticas públicas deixem de ser um monumental desperdício de recursos e uma ferramenta de opressão. 


Os bilhões desviados, os indicadores sociais que teimam em não melhorar, são o sintoma de um sistema que trata pessoas como feudos e territórios como espólios. Políticos, amparados por tecnocratas – os modernos "capitães do mato" da burocracia – e aparelhando instituições à moda da extrema direita, perpetuam uma lógica perversa. Eles não roubam apenas o dinheiro; roubam a possibilidade do futuro. Essa "microfísica do poder", detalhada por Michel Foucault, opera nos corpos e nos espaços, disciplinando a vida e silenciando dissidências. Contra essa "desordem" imposta de cima, que Richard Sennett analisa como a ruptura dos laços urbanos, erguem-se as vozes insurgentes. 


Essas vozes não são uníssonas. Elas carregam o princípio da interseccionalidade, como Patricia Hill Collins demonstra em Bem Mais Que Ideias. Não se trata apenas de classe, mas do entrelaçamento de raça, gênero e território. A luta da mulher negra da periferia por creche e contra a violência policial é distinta e inseparável da luta do movimento por moradia no centro expandido. São essas "lutas na macro política" – para usar a expressão de Milton Santos em A Natureza do Espaço – que forjam uma cidadania insurgente, termo cunhado por James Holston. Esta não é uma cidadania outorgada por leis abstratas, mas conquistada na prática cotidiana, na construção do barraco que vira casa, na ocupação que vira bairro, na rua que vira praça. 


Foi assim que as metrópoles, como narra Ben Wilson, sempre se construíram: a partir de baixo, pela força de comunidades que se organizam. A verdadeira geografia da inovação, como apontam Maria Terezinha Serafim Gomes e Regina Helena Tunes, não está nos polos de tecnologia isolados do tecido social, mas nos arranjos produtivos locais, nas economias solidárias, na criatividade feroz de quem precisa reinventar a vida todos os dias. É aí, no território vivido, que técnica e tempo, razão e emoção, na visão seminal de Milton Santos, se fundem para gerar formas de existência resistentes. 



Walter Benjamin, na leitura de Michael Löwy (Aviso de Incêndio), nos alerta para a necessidade de escutar os "estilhaços da tradição dos oprimidos". Esses estilhaços são as histórias não contadas, os saberes marginalizados, a memória dos que lutaram. Ignorá-los é assinar a perpetuação da catástrofe. A cidade, para Sennett, só se torna um artefato humano quando é capaz de acolher a diferença, o conflito e a cooperação – quando seus espaços são abertos ao diálogo e não à segregação. 


Portanto, inovar em políticas públicas exige uma virada epistemológica e política radical: sair dos gabinetes climatizados e mergulhar na espacialidade social concreta. É preciso criar mecanismos institucionais não para "ouvir" o povo como um ritual vazio, mas para ser transformado por sua voz. Significa substituir a tecnocracia pelo diálogo genuíno, os feudos políticos por assembleias territoriais, a lógica extrativista por uma economia do cuidado. 



O verdadeiro impacto social não será medido por planilhas de excel, mas pelo reconhecimento de que bilhões estão sendo recuperados para a vida quando uma comunidade vê seu projeto de horta urbana financiado, sua creche construída, seu direito à cidade garantido. É o momento em que a voz, antes sussurro na periferia, ecoa no centro do poder, não para pedir licença, mas para governar com ele. Só assim desmontaremos a engrenagem que rouba o presente e o futuro, e construiremos, a partir das ruínas, uma cidade verdadeiramente comum: feita de vozes, de corpos e de direitos insurgentes.