
- Juan Francisco Alonso
- BBC News Mundo
O ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por narcotráfico nos EUA, pode ser libertado.
O motivo? O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (28/11) que vai indultar o ex-mandatário, por considerar que ele "foi tratado com muita dureza e injustiça", segundo escreveu em sua rede Truth Social.
O momento escolhido para conceder o perdão presidencial ao político centro-americano, declarado culpado em junho de 2024 por um tribunal de Nova York, chama atenção.
Primeiro, o anúncio ocorreu a menos de 48 horas das eleições hondurenhas que definirão o sucessor da esquerdista Xiomara Castro — oportunidade que Trump não deixou passar. O republicano também declarou apoio a Nasry "Tito" Asfura, candidato do direitista Partido Nacional e aliado de Hernández.
Além disso, o fato de Trump indultar um político acusado de traficar cerca de 500 toneladas de cocaína para os EUA surpreende, especialmente porque, nas últimas semanas, Washington enviou parte de sua Marinha às costas do Caribe para conter o tráfico de drogas e afundou cerca de 20 lanchas suspeitas, matando mais de 80 pessoas.
Os procuradores que levaram Hernández ao banco dos réus o acusaram de transformar Honduras em um "narcoestado" e de lucrar com isso, acusações que o político chamou de "calúnias".

Uma carreira meteórica
Antes de se tornar o primeiro ex-chefe de Estado condenado por narcotráfico nos EUA desde o panamenho Manuel Noriega, em 1992, Hernández já havia quebrado outros recordes. Em 2014, tornou-se o presidente mais jovem do país desde 1980 e, em 2017, o primeiro a ser reeleito em décadas.
A história do político conhecido em Honduras pelas iniciais JOH começou em 28 de outubro de 1968, na cidade de Gracias, departamento de Lempira, onde cresceu como o 15º de 17 irmãos.
Após concluir os estudos no Liceo Militar del Norte, em San Pedro Sula, estudou Direito na Universidade Nacional de Honduras.
Na universidade, deu início à carreira política, presidindo sua associação estudantil entre 1988 e 1989.
Depois de se formar, passou a atuar na primeira secretaria do Congresso como assistente de seu irmão Marcos Augusto, então deputado — e ali começou a construir suas redes no poderoso Partido Nacional.
Após completar estudos em administração pública na Universidade Estadual de Nova York (EUA), lançou-se candidato a deputado por Lempira, cargo que ocupou por quatro mandatos a partir de 1998.
Em 2010, assumiu a presidência do Congresso durante o governo Porfirio Lobo, impulsionando uma agenda de segurança e linha dura contra o crime organizado que lhe garantiu apoio de setores conservadores e empresariais.
Em 2012, venceu as primárias do Partido Nacional e, no ano seguinte, ganhou as eleições presidenciais.
"Sou Juan Orlando Hernández e venho das terras do indômito cacique Lempira; com o apoio do povo, sou o presidente de Honduras", declarou em sua posse, em 27 de janeiro de 2014.
Durante campanhas e atos políticos, evocava com frequência essa ligação com o líder indígena.

Uma gestão conturbada
Hernández assumiu prometendo "fazer o que tiver que fazer para recuperar a paz e a tranquilidade do meu povo", então atingido por altos índices de violência ligados ao narcotráfico.
O crime organizado havia infiltrado diversas instituições e impulsionado a taxa de homicídios, tornando Honduras o país mais violento do mundo na década passada, segundo a ONU.
A disposição de Hernández em extraditar suspeitos de narcotráfico para os EUA e algumas reformas nos órgãos de segurança foram apresentadas como sinais de sua intenção de moralizar o país.
No entanto, as suspeitas sobre seus laços com cartéis explodiram quando, em 2018, seu irmão — o ex-deputado Juan Antonio "Tony" Hernández — foi preso em Miami por agentes federais e acusado de tráfico.
"Não fui, não sou e não serei amigo de nenhum desses delinquentes, e continuarei minha luta até o último dia do meu governo, custe o que custar", afirmou no Congresso em 2021, após a condenação de seu irmão à prisão perpétua e o acúmulo de indícios contra si.

E, se isso não bastasse, denúncias de desvio de fundos da Seguridade Social deram início a manifestações massivas que pediam sua renúncia.
A decisão de não renovar o mandato da Missão de Apoio contra a Corrupção e a Impunidade em Honduras (MACCIH), criada em acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA), agravou ainda mais sua imagem.
Mesmo assim, o político buscou um segundo mandato, apesar de a Constituição proibir a reeleição imediata. A tentativa de reeleição de Manuel Zelaya, seu rival, havia sido usada como justificativa para derrubá-lo em 2009.
Uma controversa decisão da Suprema Corte permitiu que Hernández concorresse em eleições que a OEA pediu para repetir, alegando que as irregularidades tornavam "impossível determinar com a necessária certeza o vencedor".
O anúncio de sua reeleição provocou nova onda de protestos, reprimidos com violência e que deixaram pelo menos 23 mortos, segundo o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.
O pedido da OEA foi ignorado, e Hernández permaneceu no cargo até 2022.

Jogando para dois times?
Em fevereiro de 2022, poucos dias após deixar a presidência, Hernández foi preso e, semanas depois, extraditado aos EUA para responder por narcotráfico.
"Ele pavimentou uma rodovia de cocaína até os EUA, protegida por metralhadoras", afirmaram os procuradores.
Ficava para trás o tempo em que Washington o considerava aliado confiável na luta antidrogas, chegando a entregar mais de US$ 50 milhões em assistência e ajuda militar. Em 2019, o próprio Trump agradeceu sua cooperação.
Embora Trump e aliados de Hernández digam que ele foi tratado injustamente pelo governo do democrata Joe Biden, as investigações começaram ainda na administração do próprio Trump.
Durante as apurações, procuradores descobriram que Hernández mantinha vínculos com narcotraficantes ao menos desde 2004 — muito antes de chegar à presidência — e facilitou o envio de cerca de 500 toneladas de cocaína aos EUA.
Com ajuda de registros telefônicos e depoimentos de colaboradores da Justiça, os investigadores concluíram que traficantes pagaram milhões de dólares em subornos para permitir o envio da droga, "com virtual impunidade".
Os procuradores afirmaram que a aliança com cartéis não tinha apenas o objetivo de "enriquecimento", mas também o de "se manter no poder (…) de forma corrupta".
Segundo a acusação, o político usou o dinheiro recebido de narcotraficantes para subornar autoridades e manipular a seu favor as duas eleições presidenciais em que concorreu.

Hernández negou todas as acusações e afirmou ter sido "acusado de forma equivocada e injusta".
Mas provas e testemunhos apresentados no tribunal contradisseram sua versão.
"Vamos meter a droga na cara dos gringos", teria dito ele ao narcotraficante Geovanny Fuentes Ramírez, segundo o relato de um dos depoentes.
Outro réu, o ex-prefeito Alexander Ardón, afirmou ter entregue milhões de dólares tanto a Hernández quanto ao ex-presidente Lobo para garantir rotas livres para o transporte da cocaína.
Ardón estimou que, com a ajuda de autoridades hondurenhas, conseguiu mover cerca de 250 toneladas de cocaína — em sociedade com Tony Hernández, irmão do ex-presidente, e Joaquín "El Chapo" Guzmán, líder do cartel de Sinaloa, ambos condenados à prisão perpétua nos EUA.
Em junho de 2024, o juiz Kevin Castel condenou o ex-presidente a quase meio século de prisão e impôs multa de US$ 8 milhões.
Mas os problemas judiciais de Hernández não se limitam aos EUA. Em Honduras, logo após sua extradição, a Justiça confiscou 33 imóveis, oito empresas e 16 veículos ligados a ele, segundo o Ministério Público.
Resta agora saber quando o indulto e a libertação do ex-presidente serão oficializados — e se ele retornará a Honduras para retomar a carreira política.
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