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sábado, 29 de novembro de 2025

A Descoberta do inconsciente por Egidio Guerra





A ideia de que forças ocultas dentro de nós mesmos governam nossos pensamentos, sentimentos e ações é uma das conquistas mais profundas da modernidade. No entanto, essa "descoberta do inconsciente" não foi um evento singular, um "eureka" de um único gênio, mas sim um processo longo, tortuoso e coletivo, como magistralmente narrado por Henri F. Ellenberger em sua obra The Discovery of the Unconscious. A psiquiatria dinâmica, que estuda essas forças internas, é o produto dessa história rica e complexa. 

As Raízes Pré-Freudianas: O Terreno Fértil 

Ellenberger demonstra que, longe de surgir do vácuo, a psiquiatria dinâmica tem raízes profundas no século XIX. Figuras como Franz Anton Mesmer, com sua teoria do "magnetismo animal", embora errônea em sua base científica, demonstrou de forma prática a poderosa influência que a mente pode ter sobre o corpo. Seu trabalho lançou as bases para a hipnose, ferramenta crucial para os primeiros exploradores do inconsciente. 



Foi com Jean-Martin Charcot, em Paris, que a hipnose ganhou status científico. Charcot mostrou que os sintomas da histeria eram reais e podiam ser reproduzidos e aliviados sob hipnose, provando que a mente podia criar doenças físicas. No entanto, foi seu aluno, Pierre Janet, quem deu um passo fundamental. Janet formulou conceitos pioneiros como o "subconsciente" (ou inconsciente), onde memórias traumáticas e ideias dissociadas da consciência principal causavam sintomas neuróticos. Para Ellenberger, Janet foi um dos verdadeiros fundadores da psicologia dinâmica, cuja contribuição foi, por muito tempo, ofuscada. 



Sigmund Freud e a Fundação da Psicanálise 

Foi neste terreno fértil que Sigmund Freud, inicialmente um neurologista influenciado por Charcot, construiu seu edifício teórico. Freud levou as ideias de seus predecessores a um novo patamar. Seu grande salto foi propor não apenas a existência de um inconsciente, mas as suas leis de funcionamento – a condensação, o deslocamento e a simbolização, observáveis principalmente nos sonhos, nos atos falhos e nos sintomas. 

Sua teoria da sexualidade infantil e do Complexo de Édipo como núcleo da neurose foi revolucionária e chocante para a época. A criação da psicanálise como método de tratamento – a "cura pela fala", com a associação livre, a análise da transferência e a interpretação dos sonhos – institucionalizou a exploração do inconsciente. Freud sistematizou a ideia de que o ser humano é intrinsecamente conflituoso, um campo de batalha entre pulsões (principalmente a sexual, ou líbido), as exigências da realidade e os imperativos morais (Id, Ego e Superego). 



Os Dissidentes: Jung e Adler – A Expansão do Inconsciente 

A força da visão freudiana também gerou cisões fundamentais. Dois de seus discípulos mais brilhantes, Carl Gustav Jung e Alfred Adler, divergiram radicalmente, expandindo o conceito de inconsciente para além da sexualidade. 

  • Alfred Adler deslocou o foco da sexualidade para a vontade de poder e o sentimento de inferioridade. Para Adler, a dinâmica psíquica central era a luta do indivíduo para compensar sentimentos de inferioridade e alcançar a perfeição. Sua "Psicologia Individual" enfatizava fatores sociais e a busca por um lugar na comunidade, introduzindo uma dimensão mais intersubjetiva e teleológica à compreensão da mente. 

  • Carl Gustav Jung realizou a expansão mais radical. Ele concordava com a existência de um inconsciente pessoal, mas propôs a existência de um inconsciente coletivo, uma camada profunda da psique compartilhada por toda a humanidade, povoada por arquétipos – formas e imagens primordiais como o Animus/Anima, a Sombra, a Grande Mãe e o Velho Sábio. Para Jung, a libido era uma energia psíquica geral, não apenas sexual, e o objetivo da vida não era apenas resolver conflitos infantis, mas alcançar a individuação – a realização do Self, integrando consciente e inconsciente. Sua abordagem reintroduziu na psiquiatria dinâmica um interesse pelo mito, pela religião e pela espiritualidade. 



A Contribuição Brasileira: Nise da Silveira e a Revolução pela Afetividade 

No Brasil, a psiquiatria dinâmica encontrou uma de suas vozes mais humanistas e criativas em Nise da Silveira. Revoltando-se contra os métodos brutais da psiquiatria organicista de seu tempo (eletrochoque, lobotomia), ela introduziu no Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro a terapia ocupacional e, principalmente, o estudo da expressão simbólica através da arte. 

Influenciada profundamente por Jung, Nise da Silveira compreendeu que as produções artísticas de seus pacientes – pinturas, modelagens – não eram simples rabiscos de mentes doentes, mas a linguagem direta do inconsciente. Através dessas imagens, ela via a emergência dos arquétipos junguianos e os processos de cura espontânea da psique. Seu trabalho não apenas humanizou o tratamento psiquiátrico, mas também forneceu uma evidência prática e comovente da potência das teorias dinâmicas, mostrando que o caminho para o inconsciente podia ser pavimentado com afeto, respeito e criatividade, e não apenas com a interpretação analítica. 



Conclusão: Uma História Viva e em Evolução 

A história da psiquiatria dinâmica, como contada por Ellenberger, é uma narrativa de descobertas progressivas e disputas criativas. Ela nos mostra que o modelo freudiano, embora central, é parte de um movimento muito mais amplo. As contribuições de Adler, Jung, Nise da Silveira e muitos outros demonstram que o inconsciente é um território vasto e multifacetado. 

Ele pode ser visto como um depósito de traumas reprimidos (Freud/Janet), um campo de batalha por poder e adaptação (Adler), um oceano de símbolos atemporais e potencial de cura (Jung/Silveira), ou todas essas coisas juntas. A descoberta do inconsciente não foi um ponto final, mas a abertura de um horizonte contínuo de investigação sobre a natureza mais profunda do ser humano, uma história que continua a ser escrita a cada nova compreensão sobre os mistérios da mente. 

 

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