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sábado, 29 de novembro de 2025

O que são as engenhosas caixas de Ward e como elas transformaram a economia mundial

 

Uma caixa triangular de madeira e vidro, neste caso também com hastes de metal, em meio ao folhagem

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Simples, mas eficazes: uma caixa de Ward de madeira aqui entre um exuberante folhagem
    • Author,Dalia Ventura
    • Role,Da BBC News Mundo

A história das descobertas científicas está repleta de criações que tomaram rumos inesperados. E também de paixões transformadoras.

A de Nathaniel Bagshaw Ward nasceu numa viagem à Jamaica, aos 13 anos, quando ele se encantou com a flora exótica.

Ward não estava sozinho nessa fascinação: no século 19, a Inglaterra vivia uma verdadeira febre botânica, com amadores e cientistas competindo para cultivar espécies vindas dos cantos mais remotos do planeta.

Assim, embora tenha se tornado médico, também estudou botânica e entomologia.

Apesar de reunir uma extensa coleção de exemplares, sofreu uma decepção: muitas plantas, especialmente fetos e musgos, não prosperavam em seu jardim em Londres.

O Reino Unido estava em plena Revolução Industrial, o que significava que sua casa estava "cercada e impregnada pela fumaça de inúmeras fábricas", que sufocavam suas plantas preciosas.

A solução veio, por acaso, de um inseto.

Por volta de 1829, ele tentava criar uma mariposa-esfinge a partir de uma crisálida colocada sobre mofo úmido num frasco selado quando percebeu que um feto havia começado a brotar ali.

Ele observou a água evaporar, condensar-se e retornar ao mofo — reproduzindo, em miniatura, o ciclo básico dos sistemas climáticos terrestres.

Seria possível que aquele microcosmo de vidro fosse a forma ideal de controlar a qualidade do ar e a umidade, permitindo a sobrevivência de espécies que antes morriam?

O invento de Ward era simples: vidro, madeira, massa, tinta... basicamente uma estufa selada em miniatura.

Não era um prodígio tecnológico, mas fruto de uma mente inquisitiva. Até então, acreditava-se que plantas precisavam do ar livre. Ward questionou se isso era mesmo necessário, observa o jornalista econômico Tim Harford.

Retrato em sépia de Nathaniel Bagshaw Ward sentado, lendo uma carta

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Nathaniel Bagshaw Ward, retratado em 1868, nunca imaginou que seu invento reconfiguraria a economia
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Seus primeiros testes para cultivar fetos dentro daquele pequeno ecossistema selado deram certo.

Animado, passou a acreditar que talvez tivesse resolvido um problema que afligia os coletores de plantas: como mantê-las vivas durante longas viagens marítimas.

Sob o convés, as plantas careciam de luz; sobre o convés, o orvalho salgado era fatal.

Para testar a ideia, Ward enviou duas de suas caixas para a Austrália.

Meses depois, recebeu uma carta do capitão do navio oferecendo "calorosos parabéns": a maioria dos fetos estava "viva e vigorosa", e os capins "tentavam empurrar a parte superior da caixa".

O navio voltou com caixas de Ward repletas de plantas australianas, igualmente saudáveis.

Ward publicou um livro sobre seu invento e sonhou com impactos amplos. Tinha razão, embora não da forma que imaginava.

Ele previu que amantes de plantas poderiam ter pequenas florestas tropicais em suas casas e acertou: recentemente os terrários, descendentes diretos das caixas de Ward, voltaram à moda impulsionados pelas redes sociais.

Mas, como médico, imaginou também grandes estufas seladas onde pacientes poderiam se recuperar de sarampo ou tuberculose sem respirar o ar contaminado das cidades.

O que ele não antecipou é que suas caixas estavam prestes a transformar a agricultura, a política e o comércio global.

Sem permissão

Graças às caixas de Ward, o transporte de plantas ultramarinas avançava rapidamente.

Em 1833, o importador George Loddiges usou o método e relatou que, enquanto antes perdia 19 de cada 20 plantas durante a viagem, agora "19 de cada 20 sobreviviam".

Naturalmente, o método se popularizou.

Mas foram mentes mais estratégicas que a do criador que perceberam seu potencial para reorganizar a economia em favor dos impérios dominantes da época. Começando pelo império cuja capital era a cidade onde Ward tivera sua ideia: Londres.

Pintura de um casal observando uma caixa de Ward numa exposição entre vegetação

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,As caixas de Ward foram exibidas na Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações, em 1851, em Londres

Ward havia publicado seu livro em 1847, poucos anos depois de o Reino Unido vencer a Primeira Guerra do Ópio.

Quando os chineses decidiram deixar de aceitar o ópio indiano em troca de seu chá, os britânicos enviaram canhoneiras para fazê-los mudar de ideia.

Não era apenas uma questão de gosto pela bebida: os impostos sobre o chá representavam cerca de um décimo da receita do governo britânico.

Mas a poderosa Companhia Britânica das Índias Orientais — que praticamente governava o subcontinente indiano — precisava de outra estratégia: cultivar mais chá na Índia.

Isso significava contrabandear plantas de chá da China. E havia um homem perfeito para isso: o botânico e caçador de plantas Robert Fortune.

Ele já havia tentado sem sucesso, mas aprendera, em sua primeira expedição, que, raspando a cabeça, usando peruca e roupas chinesas, podia passar quase despercebido.

Disfarçado, enviou secretamente "caixas envidraçadas com plantas vivas para a Inglaterra" entre 1848 e 1851, segundo relatou em suas memórias.

Com isso, grandes plantações de chá foram estabelecidas em Assam e Darjeeling, quebrando o monopólio chinês.

Algo talvez tão impactante ocorreu 25 anos depois.

Com a alta nos preços da borracha, o Ministério das Relações Exteriores britânico enviou o botânico amador Henry Wickham à Amazônia para obter sementes da seringueira, a Hevea brasiliensis.

Em 1876, ele enviou cerca de 70 mil sementes em caixas de Ward, que germinaram nos Jardins de Kew; as mudas foram então enviadas ao Sudeste Asiático.

O Brasil não conseguiu competir com as plantações coloniais e acabou perdendo seu domínio no comércio da borracha, enquanto este se tornava uma das indústrias mais lucrativas do Império Britânico.

Esses são dois grandes exemplos — mas não os únicos.

Chocolate com baunilha

Não foram apenas os britânicos a explorar as caixas de Ward em seu projeto de dominação global.

Outro grande império colonial europeu foi o primeiro a retirar dos Andes uma das plantas mais cruciais para esse processo: a Cinchona officinalis.

De sua casca extraía-se a quinina — o remédio milagroso descoberto por povos andinos, que, entre outras propriedades, protegia contra a malária. A doença representava uma ameaça mortal para europeus que se aventuravam nos trópicos — trópicos onde, ironicamente, a malária havia sido introduzida pelos próprios colonizadores.

Desenho botânico da planta cinchona

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Cinchona: o remédio sul-americano para a doença que os europeus trouxeram ao continente

Justus Karl Hasskarl, botânico alemão a serviço do Império Holandês, foi o primeiro a transportar plântulas dos Andes para a ilha de Java usando caixas de Ward (1854–1856).

Ao fim do século 19, essa colônia neerlandesa produzia cerca de 90% da quinina mundial — viabilizando campanhas coloniais e a expansão europeia com muito menos mortalidade.

Enquanto a quinina abria os trópicos aos europeus, outra planta de valor incalculável avançava rumo à globalização: o cacau.

Originário da bacia amazônica, durante séculos o cultivo significativo concentrou-se na Venezuela e no Equador.

Seu fruto era cobiçado por aristocratas e comerciantes europeus; chocolates de luxo eram considerados quase um manjar divino. Como comentam Sophie e Michael Coe no livro The True History of Chocolate (A verdadeira história do chocolate, em português), nobres do século 18 o chamavam de "néctar dos deuses".

A introdução do cacau na África Ocidental, no final do século 19, começou de modo simples, sem caixas de Ward: bastou transportar vagens frescas e sementes viáveis. As primeiras plantações prosperaram na Costa do Ouro e em Gana.

Mas quando o cacau passou a viajar entre continentes — rumo à Ásia, ao Índico ou a jardins botânicos europeus — as caixas de Ward se tornaram decisivas: permitiram que mudas delicadas sobrevivessem meses de travessia desde as Américas até o Ceilão, Java ou Reunião.

O impacto foi enorme: a África Ocidental passou de produtora nula a responsável por quase todo o cacau global no início do século 20, enquanto Ceilão e Java também viraram polos importantes.

A fruta, antes exclusiva das Américas, tornou-se pilar de impérios coloniais e redes de comércio transoceânicas (como mostram Science and Colonial Expansion, de Lucile Brockway, e An Empire of Plants, de Toby e Will Musgrave).

Desenhos botânicos da baunilha e do cacau

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Baunilha e cacau: duas iguarias latino-americanas adoradas pelos europeus

E, se o cacau levou o luxo do chocolate a novas latitudes, a baunilha o tornou ainda mais sofisticado.

Europeus a cobiçavam como artigo de luxo: aromatizava bolos, confeitos e bebidas; era símbolo de riqueza e refinamento.

A orquídea Vanilla planifolia crescia nas florestas úmidas do México, da América Central e do norte da América do Sul.

Estudos históricos e etnográficos apontam que os Totonacas de Veracruz foram dos primeiros a domesticá-la.

O fato é que, por séculos, o México manteve um monopólio global da baunilha — em parte porque era extremamente delicada: sua flor só frutificava na presença de seu polinizador natural, a abelha melipona.

Mesmo assim, franceses levaram estacas de baunilha do México para Reunião, Maurício e Madagascar usando caixas de Ward.

Mas o problema da polinização persistia — até que a solução veio não de botânicos ilustres, mas de um menino escravizado de 12 anos: Edmond Albius.

Em 1841, na ilha de Reunião — então um pequeno território francês no Índico — ele descobriu um método simples e rápido de polinizar a flor manualmente.

Sua técnica permitiu que a planta frutificasse longe de seu berço original. Poucos anos depois, Madagascar — e não o México — tornou-se o maior produtor mundial.

A baunilha malgaxe se tornou "o ouro aromático do oceano Índico", como escreve Tim Ecott em Vanilla: In Search of the Orchid. Até hoje, Madagascar responde por 60% a 80% da produção global.

Esses, claro, são apenas alguns exemplos: belas orquídeas, fúcsias e rosas, além de mangas saborosas e palmeiras exóticas navegaram pelos mares protegidas nessas simples caixas de madeira e vidro.

Como resume o historiador Luke Keogh, autor de The Wardian Case: "essa invenção impulsionou uma revolução no movimento de plantas… e as repercussões dessa revolução ainda estão conosco hoje".

O que começou como o experimento engenhoso de um amante da flora terminou como uma engrenagem que transformou mercados, redesenhou paisagens e deixou uma marca profunda na geografia botânica e agrícola mundial.

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