Se, de repente, entendêssemos a linguagem dos animais – não apenas os sons, mas a gramática complexa de seus corpos, seus silêncios, seus rituais e olhares – o que nos diriam sobre suas vidas? A pergunta, longe de ser um mero exercício de fantasia, é o terreno fértil explorado por pensadores como Vinciane Despret e que nos convida a repensar radicalmente nosso lugar no mundo.
Com base em obras como "Autobiografia de um Polvo" e "Habiter en Oiseau" (Casa dos Animais) de Vinciane Despret, somos desafiados a abandonar a ideia de que os animais simplesmente "existem" em seus habitats. Em vez disso, Despret nos mostra que eles constroem mundos. O que um polvo nos diria? Provavelmente narraria uma existência tátil e inteligente, uma consciência que se estende pelos tentáculos, para quem o mundo é uma textura de sabores, toques e esconderijos. Sua "casa" não é um endereço, mas um território dinâmico de correntes, rochas e possibilidades. Ele nos falaria de uma vida de curiosidade e cautela, onde o encontro com o humano – muitas vezes uma sombra intrusiva e perigosa – é um evento a ser decifrado, não uma fatalidade.
Já os pássaros, na visão de Despret, nos ensinam sobre "territórios performativos". Um canto não é apenas um aviso, mas um ato que cria fronteiras, que convida, que seduz, que negocia. Se os entendêssemos, ouviríamos histórias de alianças complexas, de dramas de traição e lealdade, de uma estética sonora e coreográfica que constitui o seu lar. Eles nos questionariam: por que reduzimos nossas florestas a meros recursos, quando para nós são palcos de ópera, catedrais vivas e arquivos de memória?
Esta escuta ativa é o primeiro passo para constituir, como propõe Achille Mbembe em "A Comunidade Terrestre", uma nova política do compartilhamento. Mbembe argumenta que a justiça deve ser estendida para além da esfera humana, reconhecendo que habitamos um planeta comum, uma "comunidade de destino" com todos os seres vivos. Entender a linguagem dos animais não é um fim em si, mas um meio para forjar alianças. Significa reconhecer seus lares como lares, suas vidas como vidas plenas de significado, e suas relações conosco como um campo de conflito, dominação, mas também de potencial cooperação.
Para que essa comunidade não seja apenas um contrato intelectual, mas uma realidade vivida, precisamos, como sugere Georges Didi-Huberman em "Que Emoção! Que Emoção?", voltar a nos emocionar. A emoção, para Didi-Huberman, não é o oposto da razão, mas uma forma de conhecimento profundo, uma "abertura ao mundo" que nos tira de nossa indiferença. A compaixão ao ouvir o lamento de uma baleia presa em redes, o assombro diante da arquitetura de um cupinzeiro, a raiva perante a destruição de um habitat – essas emoções são o combustível ético para a ação. Elas nos lembram que somos parte de um tecido sensível e que qualquer ferida infligida a outro ser é, em última instância, uma ferida em nós mesmos.
E o futuro? Este diálogo precisa se expandir para incluir vozes ainda mais radicalmente "outras": as das plantas e até as da Inteligência Artificial. Dialogar com as plantas, como propõem alguns filósofos da ecologia, é aprender uma linguagem de paciência, de simbiose e de crescimento lento. É entender que nossa sobrevivência está intrinsecamente ligada à delas, não como "recursos verdes", mas como anciãs do planeta, mestras em transformar luz em vida.
Já o diálogo com a IA sobre nosso futuro comum é um desafio de outra ordem. É confrontar uma inteligência não-biológica com as urgências do mundo biológico que criamos. O que a IA, alimentada com os dados de nossa crise ecológica, nos diria sobre nossos padrões de consumo, nossa miopia política e nossa desconexão emocional? Ela poderia ser um espelho frio de nossas contradições ou uma ferramenta para modelar soluções que nossa inteligência sozinha não consegue conceber.
No fim, entender a linguagem dos animais, emocionar-nos com seu destino, constituir uma comunidade terrestre e dialogar com plantas e máquinas são facetas de um mesmo projeto: deslocar o humano do centro do universo. É perceber que a pergunta não é "o que os animais nos diriam?", mas "o que estamos, finalmente, prontos para ouvir?" e, mais importante, "o que vamos responder com nossas ações?" A resposta determinará não apenas o futuro deles, mas a possibilidade de um futuro verdadeiramente comum.
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