SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 26 de abril de 2026

A Tragédia do Sexo sem Limites e a Sociedade do Horror. Por Egidio Guerra.


Da Utopia do Prazer à Mercadoria da Dor 

A análise da trajetória da indústria pornográfica, especialmente o emblemático caso da produtora italiana Diva Futura, revela uma parábola sombria sobre os limites do desejo humano e a mercantilização da intimidade. O que emerge dessa história é um retrato nítido da "Tragédia do sexo sem limites", onde o que começa envolto em uma retórica de libertação e prazer sem amarras, rapidamente se degenera em uma "Sociedade do Horror" na qual a violência e a exploração passam a pautar o imaginário coletivo. 

A Utopia do Prazer e a Ilusão da Liberdade 

No início, tudo é belo. No contexto da Itália dos anos 1980, sufocada por décadas de moralismo católico e pela censura da Democracia Cristã, a Diva Futura surgiu como um suposto sopro de ar fresco. Visionários como Riccardo Schicchi acreditavam estar construindo um mundo novo, inspirado na utopia do amor livre, onde o sexo seria celebrado sem culpa ou violência. A agência funcionava como uma grande "família", que prometia proteger suas estrelas, oferecendo fama, riqueza e um espaço de liberdade em um país que as marginalizava. 

Essa fase inicial foi marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que explorava o corpo feminino, a Diva Futura, sob o comando de Schicchi, apresentava-se como uma zona "amoral, mas não imoral". A ideia era que mulheres como Ilona "Cicciolina" Staller e Moana Pozzi fossem donas de si, celebradas como divas e não como vítimas. Contudo, essa era uma "utopia" . A busca pelo prazer e pelo dinheiro fácil rapidamente começou a cobrar seu preço, pavimentando o caminho para a decadência. 

Quando os Limites São Ultrapassados: O Horror Sem Fim 

O problema central, como bem aponta a reflexão proposta, é que uma vez ultrapassados certos limites, "o horror não tem fim". A inocência inicial da Diva Futura não resistiu às forças do mercado. O sonho de libertação sexual deu lugar à "mercantilização do corpo" e à violência como norma. A diretora Giulia Steigerwalt, em diversas entrevistas, esclarece que seu filme busca mostrar justamente como a indústria que nasceu com ideais progressistas acabou "abrindo caminho para a criação de um imaginário distorcido da sexualidade", onde a brutalidade se tornou protagonista. 

Nessa sociedade do horror, o que era apenas um filme amador passou a exigir cenas de violência cada vez mais explícitas para saciar delírios de uma audiência viciada e insaciável. As mulheres, portadoras da mercadoria mais valiosa — o corpo — sofrem as piores consequências. Para além das cenas degradantes, a realidade fora das telas é um desastre anunciado: drogas, depressão, destruição de famílias e suicídios são os resultados trágicos dessa máquina de moer almas. A atriz Barbara Ronchi, intérprete da secretária no filme, observa que, quando estas mulheres tentavam ir além da proteção da "família" Schicchi, caiam nas mãos de empresários inescrupulosos que as forçavam a fazer atos que não desejavam, transformando o sonho em um pesadelo no Leste Europeu. 

A Vitória dos Piores Instintos e o Preço da "Liberdade" 

A análise nos leva a uma conclusão sombria: os piores instintos venceram. O que começou como uma suposta libertação sexual tornou-se uma ferramenta de controle e destruição. A diretora do filme alerta para um fato assustadoramente contemporâneo: atualmente, o primeiro contato de adolescentes com o sexo ocorre por meio da pornografia online, geralmente aos 12 anos de idade, e a maioria desse conteúdo é "violenta contra a mulher", ensinando às novas gerações um modelo de sexualidade baseado na subjugação e na dor. O desejo dos "pervertidos", alimentado por algoritmos e pela facilidade de acesso, passou a pautar a produção cultural e os relacionamentos humanos. 

No centro dessa tragédia, reside uma verdade cruel sobre o preço da liberdade. No universo límpido, mas ilusório do início da Diva Futura, acreditava-se que o dinheiro e a fama compravam a independência. Contudo, a lição final é que "você só é livre quando não tem nada a perder e pagou o preço de tudo". As estrelas pagaram com a sanidade, a saúde e a vida. A sociedade pagou com a banalização da violência. E aqueles que se curvaram ao poder do dinheiro e do prazer descobriram, tarde demais, que a verdadeira escravidão não é a proibição, mas a ausência total de limites — um estado de horror sem fim onde o corpo se tornou a última moeda de troca em uma economia falida de dignidade. 

Non dite alla mamma che faccio la segretaria e o Espetáculo da Autodestruição 

I. O Paraíso de Mentira 

No princípio, era o brilho. 
Luzes de néon refletidas em olhos que ainda sabiam sonhar. 
Dinheiro fácil. 
Fama instantânea. 
O mito da liberdade vendido em embalagem de celofane. 

Debora Attanasio, em seu memorial cortante Non dite alla mamma che faccio la segretaria, nos conduz pelos corredores sagrados desse templo profano com a precisão de uma cirurgiã e a dor de quem viu o espetáculo de perto. "Dimenticate tutti i cliché sul porno", ela escreve. Esqueçam os clichês. A realidade é muito mais cruel do que qualquer fantasia. 

A Diva Futura se apresentava como uma grande família. Riccardo Schicchi, o "pequeno grande gênio", pavoneava-se com seu código de honra: "Amorali immorali mai" — amorais sim, imorais nunca. Que palavras bonitas para embalar o horror! Pois o que significa ser "amoral" senão a promessa de que não há limites, que tudo é permitido, que o corpo pode se tornar mercadoria sem que ninguém precise assumir a culpa? 

No início, tudo é belo. 
Prazer e dinheiro dançam a mesma valsa. 
As mulheres entram — ah, como entram! — com a ilusão de que são donas de si. 
"Sono entrata perché avevo un mútuo da pagare", confessa Debora . 
A necessidade. 
Sempre ela. 
O primeiro elo da corrente. 

II. A Queda 

Mas quando os limites são ultrapassados, 
quando a linha invisível que separa o humano do objeto se rompe, 
o horror não tem fim. 
O horror é um abismo sem fundo. 

O que era apenas sexo — palavra pequena para coisa tão ancestral — hoje se transfigura em violência de todos os tipos. A indústria que começou com ideais progressistas abriu caminho para "la creazione di un immaginario distorto della sessualità". Um imaginário doente. Um imaginário que consome. 

Na "Sociedade do Horror", os piores instintos venceram. 
O desejo dos pervertidos passou a pautar a cultura, 
a determinar o que se produz, 
o que se consome, 
o que se é. 

E as mulheres? 
Ah, as mulheres... 
Elas pagam o preço. 
Sempre pagam. 

Debora as viu de perto, essas "stelline avide e tristi" — estrelinhas ávidas e tristes. Moana, Cicciolina, Milly D'Abbraccio, Eva Henger. Nomes que brilharam como cometas em noite escura. E se apagaram. Umas morreram. Outras definharam. Todas, de alguma forma, foram devoradas pela máquina que ajudaram a alimentar. 

O livro é dedicado a elas. 
Mas também é um grito. 

III. O Preço da Liberdade 

Porque Debora Attanasio fez algo que poucos têm coragem: 
ela olhou para o horror e não desviou o rosto. 
Ela viu o circo, as luzes, o dinheiro, 
mas viu também as sombras, 
as lágrimas disfarçadas de rímel borrado, 
os corpos que já não sentiam prazer, 
apenas dor. 

Ela mesma foi a "vestal" desse templo profano. 
A secretária que tudo via que tudo registrava, 
que respondia às cartas dos fãs (e escrevia as respostas para si mesma), 
que alimentava o pitão do chefe com ratos vivos, 
que consolava as estrelas na calada da noite. 

"Não digam à mãe que sou secretária." 
O título do livro é uma súplica. 
Um grito abafado. 
Uma vergonha que não ousa dizer seu nome. 
Porque, no fundo, ela sabia. 
Todos sabiam. 
O que acontecia ali não era liberdade. 
Era outra forma de cativeiro. 

IV. O Sangue no Tapete 

A tragédia se consuma quando mulheres — sim, são sempre elas — se autodestroem por um pouco de capital e poder. A ilusão de controle. A fantasia de que "estou escolhendo isso". Enquanto o mercado ri. Enquanto os homens contam o dinheiro. Enquanto as mães, em casa, esperam notícias de filhas que nunca mais voltar a ser as mesmas. 

Drogas. 
Suicídios. 
Famílias destruídas. 
Almas dilaceradas. 

Este é o saldo. 
Esta é a conta. 
E ela sempre, sempre, sempre é paga por quem tem menos. 

Você só é livre, dizem, quando não tem nada a perder. 
Quando pagou o preço de tudo. 
Mas que preço é esse? 
E que liberdade sobra quando o corpo já não lhe pertence, 
quando a imagem já foi vendida milhões de vezes, 
quando o nome virou sinônimo de coisa, 
objeto, 
mercadoria? 

V. O Grito 

Por isso, este texto é poesia e é revolta. 
Porque é preciso cantar a dor para que ela não seja esquecida. 
Porque é preciso gritar para que as próximas Debora, as próximas Moana, as próximas meninas que entram na sala de provino achando que "é só por pouco tempo" possam ouvir: 

Não é liberdade. 
É armadilha. 

O filme Diva Futura (2024), inspirado no livro de Attanasio e levado ao Festival de Cinema Europeu Imovision, tenta capturar esse paradoxo. Mas talvez, como disse um crítico, "sarebbe stato meglio un documentario" — teria sido melhor um documentário. Porque a verdade crua, nua (despida de qualquer glamour), é mais difícil de filmar do que a ficção. 

A verdade é que a indústria do sexo sem limites não liberta. 
Ela escraviza. 
Ela destrói. 
Ela mata. 

E nós, plateia desse horror cotidiano, 
aplaudimos. 
Consumimos. 
Seguimos em frente. 

Até que um dia, talvez, 
acordemos. 
E descubramos que o monstro não estava na tela. 
Estava em nós. 

 "Chi non ringrazio affatto è il destino" — "A quem não agradeço de modo algum é ao destino". 

Porque o destino, às vezes, tem mãos sujas de sangue. 
E olhos que já viram tudo. 
E não pestanejam. 

 

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