SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Professores que vivem com crianças, jovens e idosos educando para vida. Por Egidio Guerra

 






A vida que floresce na iminência da morte 

Há filmes que nos visitam como um espanto. Beladona, do festival europeu da Imovision, é um desses: uma obra que não teme o fim, mas que estranha profundamente a forma como tantas pessoas desperdiçam o meio – a própria vida – enquanto aguardam, inertes, o desfecho inevitável. O filme nos apresenta personagens que habitam um limbo silencioso: já desistiram do riso, do desejo, da beleza cotidiana; respiram, mas não celebram; existem, mas não vivem. Esperam a morte como quem espera um trem atrasado – sem pressa, sem entusiasmo, apenas resignados. 

É contra essa resignação que a narrativa se ergue. Não com frases de efeito ou lições de moral, mas com a força lírica das imagens: uma gota de chuva num vidro, o primeiro sorriso trocado depois de anos de solidão, um prato de comida partilhado sob uma luz que insiste em ser dourada. Aos poucos, Beladona revela sua tese central – a vida, a beleza e o bem não são meros acidentes em um universo indiferente; são forças que superam a própria morte, porque a transcendem. O bem que se faz a outro, o gesto gratuito de cuidado, a contemplação de um entardecer: tudo isso permanece como um eco que nenhum caixão silencia. 

O verdadeiro antagonista do filme não é a morte, mas a vida mal vivida. Os protagonistas que se permitem, ainda que tardiamente, reencontrar o encantamento – uma dança na cozinha, um jardim plantado no quintal pobre, uma canção desafinada – descobrem que a morte perde seu terror quando se deixa de temê-la. Não porque se torne menos real, mas porque a intensidade do vivido a torna irrelevante. A morte, afinal, não é o oposto da vida; a apatia é que o é. 

Beladona nos convida, assim, a uma inversão radical: se a morte é certa, que seja ela a nos apressar, não a nos paralisar. Que o fim nos obrigue a perguntar, a cada dia: o que estamos celebrando? Porque uma vida que não celebra – as pequenas vitórias, os afetos, o absurdo privilégio de estar vivo – já se tornou um ensaio fúnebre. O filme termina não com uma promessa de imortalidade, mas com uma imagem simples: mãos que plantam uma semente na terra molhada. A planta vai morrer; quem plantou também. Mas enquanto há terra e água, há a possibilidade de, mais uma vez, celebrar. E nessa celebração, frágil e poderosa, a vida vence. Sempre. 

 

Entre o Cuidado e a Celebração da Vida 

Em breve, isolada do mundo em uma ilha, Gaëlle cuida de um pequeno grupo de idosos escondidos. A chegada de um veleiro, que deveria trazer alegria, desencadeia uma série de mortes suspeitas. Esta é a premissa de Beladona, da cineasta lituana-francesa Alanté Kavaïté, um dos destaques da 2ª edição do Festival de Cinema Europeu Imovision. 

Mas, longe de ser apenas um suspense despóticoBeladona é um mergulho poético em temas profundamente humanos. Kavaïté revela que o ponto de partida para o filme foi um choque: ao conhecer pessoas idosas maravilhosas, percebeu que seu foco no "cuidado e atenção" podia, na verdade, ignorar o que elas mais desejavam – uma conexão genuína, como simplesmente "beber vinho". A obra não se coloca ao lado do idoso, mas da pessoa que cuida, explorando a fina linha entre a proteção e a apatia, a entrega e o abandono à própria vida. 

Nesse sentido, o filme me toca de maneira singular. Não há cenário fictício que se compare à sala de aula onde leciono para crianças, ou aos corredores da escola onde convivo com jovens sedentos de significado. Tampouco encontro metáfora mais poderosa do que a rotina de cuidar do meu próprio filho, observando-o descobrir o mundo com olhos ainda não viciados pela rotina, e a travessia silenciosa de amparar meus pais idosos, vendo o ciclo da vida se fechar em uma espiral de cuidado que agora retorna para mim. 

Gaëlle em seu veleiro partindo numa ilha. 

Estas experiências – ser professor, pai e filho – são o meu grande laboratório. Com as crianças, aprendo que a beleza não se explica, ela se mostra. Com os jovens, vejo o terror da apatia se instalando quando o futuro parece uma repetição vazia. Com meu filho, redescubro a urgência de celebrar cada pequena conquista. Com meus pais, compreendo que a morte só assusta quando a vida foi adiada. Beladona ecoa em mim como um aviso e uma confirmação: a vida só vale a pena se for celebrada, agora, enquanto ainda podemos plantar uma semente, dançar na cozinha ou simplesmente estar presentes. 

E desse lugar de prática cotidiana, emergem autores que me ajudam a nomear e aprofundar essas lições. Laços que se estabelecem com o “outro”, investidos de afeto e reciprocidade, é que constituem uma educação integral para a vida, conforme sugere o pensamento complexo de Edgar Morin e a defesa de uma formação que integra os saberes. A escola que sonha – e que ouso construir a cada dia – não é uma gaiola que ensina a esperar a morte, mas asas que encorajam o vôo, como nos ensina Rubem Alves. É uma escola que não separa o conhecimento da emoção, a teoria da prática, o útil do inútil, tal como Nuccio Ordine defende, ao lembrar que aquilo que não dá lucro imediato é justamente o que nos faz humanos e alimenta a alma. Uma escola que se forma na experiência e na ação, como nos guia António Nóvoa. Uma escola que educa para a vida e para a democracia, como visionado por Anísio Teixeira. E, finalmente, uma escola que se faz no diálogo amoroso e na busca pela autonomia, como acreditava Paulo Freire, colocando Maria Montessori como farol ao nos lembrar que a verdadeira educação começa pelo respeito incondicional à criança. 

Assim, a travessia de Gaëlle em Beladona se confunde com a minha própria. Cuidar de crianças, formar jovens, educar meu filho e amparar meus pais é o mesmo ato de regar uma flor que um dia morrerá. O que faz valer a pena não é a garantia de que ela viverá para sempre, mas a certeza de que, enquanto houver um vaso e um pouco de sol, nós a regaremos com alegria. 

Conclusão: Que Beladona nos sirva não como um presságio sombrio, mas como um manifesto. Que a vida que pulsa em nossas salas de aula, em nossos lares e em cada gesto de cuidado nos lembre: a morte é inevitável, mas o tédio e a apatia são opcionais. A escolha, portanto, não é entre viver ou morrer. É entre celebrar ou apenas esperar. E a celebração, essa sim, é uma semente que nunca para de florescer. 

 

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