O filme Uma Infância na Alemanha (do Festival Europeu Imovision) lança um olhar cortante sobre o mundo visto pelos olhos de uma criança que cresce em meio à ascensão do nazismo. É um testemunho da desintegração da inocência sob o peso de uma ideologia que transforma vizinhos em delatores, afetos em provas de lealdade e o medo em moeda corrente. Essa narrativa íntima se conecta, como um fio de sangue, à denúncia mais ampla presente em obras como Amnésicos (e outros títulos que escavam os delírios do poder nazista): a economia da guerra não se sustenta apenas com tanques e fábricas, mas com a fome calculada, a miséria administrada e a morte burocrática.
Os líderes do Terceiro Reich construíram um dos mais perversos paradoxos da história moderna: enquanto prometiam ao povo alemão prosperidade e grandeza, sacrificavam esse mesmo povo no altar de uma guerra de extermínio. As cidades – Dresden, Hamburgo, Berlim – reduziam-se a escombros fumegantes, mas os círculos do poder ainda celebravam festas em bunkers iluminados, com champanhe e carne, enquanto lá fora crianças reviravam latas de lixo e idosos morriam de tifo em porões úmidos. A economia de guerra nazista não produzia apenas armas; produzia, sobretudo, a escassez seletiva: os privilégios eram para os Volksgenossen (camaradas de raça) devidamente alinhados, e a fome – literal – era a sorte dos judeus, eslavos, ciganos, homossexuais, comunistas e de todos os que o regime classificava como Untermenschen (sub-humanos). Mas a fome também corroía os próprios alemães quando a guerra se voltava contra eles.
O que livros como Amnésicos revelam com precisão cirúrgica é a psicopatologia do poder absoluto. O delírio de grandeza de Hitler, Himmler, Göring e seus lacaios não era apenas uma idiossincrasia pessoal: era um sistema de crenças que exigia a aniquilação da empatia. Para que um oficial da SS ordenasse a retirada dos últimos alimentos de um gueto, enquanto sua família jantava no campo de férias, era necessária uma completa reestruturação psíquica – o que os psicanalistas chamariam de “cisão do eu”. Aqueles que se curvavam ao poder não o faziam apenas por medo; muitos adotavam com fervor a crueldade como mecanismo de sobrevivência moral. O sofrimento psicológico dos algozes, apesar de não se equiparar ao das vítimas, é uma face ignorada do horror: a neurose traumática, a insônia, o alcoolismo, os tiques nervosos, a síndrome do pânico e, por fim, a banalidade do mal descrita por Hannah Arendt. Eles matavam em nome do poder, mas muitos definhavam por dentro – não por arrependimento, mas pelo esforço descomunal de manter ativa a máquina da crueldade sem enlouquecer.
Os miseráveis, nesse cenário, foram duplamente vitimados. Primeiro, pelos bombardeios, pela inflação galopante (recordemos a República de Weimar, que pariu o monstro), pelo racionamento que condenava crianças à raquitismo e adultos à tuberculose. Segundo, porque tiveram de viver a contradição de serem “arianos” empobrecidos em um regime que prometia abolir a pobreza para os “dignos”. Muitos, desesperados, entregaram-se ao delatorismo – denunciar o vizinho judeu por algumas latas de leite condensado – e com isso selaram um pacto de degradação mútua. A violência não vinha apenas dos campos; vinha da fila do pão, da escola onde o professor obrigava o aluno a repetir slogans, do pai que batia no filho por não entrar na Juventude Hitlerista.
A patologia final da submissão é a amnésia. Amnésicos – título que se supõe denunciar o esquecimento coletivo – mostra como, após a guerra, muitos preferiram apagar os próprios atos. “Não sabíamos”, repetiam. Mas a câmera de Minha Infância na Alemanha não permite o esquecimento: uma criança que vê o vidro quebrado da Noite dos Cristais, que ouve sussurros sobre trens que não voltam, que aprende a não chorar quando o pai volta bêbado e coberto de sangue alheio – essa criança carrega na memória o elo entre a economia de saque, a guerra de extermínio e a miséria moral de um povo que, ao se curvar ao poder, perdeu a própria humanidade.
Assim, guerra, economia e os miseráveis formam um triângulo indissolúvel: a guerra destrói a economia; a economia de guerra produz miseráveis; e os miseráveis, para não perecerem, muitas vezes se tornam carrascos de outros miseráveis – ou adoecem, enlouquecem ou silenciam. O delírio do poder só termina quando os escombros se tornam maiores que qualquer torre de fanfarronice. Resta, então, o trabalho subterrâneo da memória: ler esses livros, ver esses filmes, para que nenhuma “infância na Alemanha” – ou em qualquer lugar sob o jugo do autoritarismo – precise, novamente, aprender a normalizar o horror.
Nenhum comentário:
Postar um comentário