Sobre a Obra e a Autora
Here Where We Live Is Our Country: The Story of the Jewish Bund é um livro de não-ficção da artista e jornalista Molly Crabapple, publicado em 7 de abril de 2026 pela editora One World (Penguin Random House) . A obra foi descrita pela crítica Naomi Klein como "um relato comovente, humano e radical de um dos movimentos revolucionários mais poderosos do século XX" , e já estava em sua segunda impressão na semana anterior ao lançamento .
Molly Crabapple, nascida em 1983 no Queens, Nova York, é filha de mãe judia e pai porto-riquenho . Sua trajetória inclui passagens como ativista do Occupy Wall Street, repórter de guerra, artista cujas obras integram o acervo permanente do Museu de Arte Moderna (MoMA) e vencedora de dois prêmios Emmy por suas animações . Seu bisavô, Sam Rothbort, foi membro do Bund — uma descoberta que a levou a uma jornada de seis anos de pesquisa, que incluiu aprender iídiche, viajar de trens noturnos por zonas de guerra na Ucrânia e trancar-se em arquivos da Biblioteca Pública de Nova York .
O Que Foi o Bund Judaico?
O Bund — formalmente o Bund Geral dos Trabalhadores Judeus na Lituânia, Polônia e Rússia — foi um partido revolucionário secular, socialista, ferozmente judaico e intransigentemente antissionista, fundado em 1897 no Império Russo .
Nas palavras da própria Crabapple:
"O Bund foi um partido revolucionário secular, socialista, desafiadoramente judaico e intransigentemente antissionista que nasceu em 1897 na Rússia czarista. A Rússia czarista naqueles anos, onde os judeus estavam sujeitos a leis racializadas específicas, era provavelmente o lugar mais miserável para ser judeu."
Os trabalhadores judeus viviam sob uma opressão dupla: eram oprimidos como trabalhadores pelo czar e como judeus pelas leis antissemitas. O Bund foi fundado por jovens marxistas judeus que queriam derrubar o czar e estabelecer o socialismo democrático, mas também libertar seu próprio povo especificamente .
A ironia do nascimento do Bund em comparação ao sionismo é destacada por Crabapple:
"enquanto o primeiro congresso do Bund consistia em alguns fugitivos em um sótão em Vilna, o congresso inaugural sionista enchia um cassino suíço chique" .
A Filosofia Central: Do'ikayt — "Aqui-Ness"
O coração da ideologia bundista era o conceito de do'ikayt (em iídiche: דאָיִקייט), que significa "aqui-ness" ou "estar-aqui" .
Crabapple explica:
"Começa com o reconhecimento de que os judeus viviam na Europa Oriental há mil anos e construíram lares, comunidades e uma língua: o iídiche. Eles tinham o direito de viver em liberdade e dignidade na Europa Oriental. Mesmo que o Império Russo e a Polônia do entreguerras dissessem que eram estrangeiros nocivos que deveriam ser deportados para a Palestina, eles queriam ficar em suas casas. Não apenas ficar, mas florescer e prosperar em suas casas."
Este princípio fundamental era expresso no slogan que dá título ao livro: "Aqui, onde vivemos, é o nosso país" (Here where we live is our country). Os bundistas recusavam-se a ser tratados como estrangeiros ou hóspedes em suas próprias terras . Crabapple conecta esse conceito à noção palestina de sumud (resistência através da permanência na terra) .
A Luta Contra o Antissemitismo e os Pogroms
Os primeiros anos do Bund foram marcados por ondas brutais de pogroms. Crabapple descreve em detalhes harrowing a violência que varreu o Pale of Settlement (a região ocidental do Império Russo onde os judeus eram autorizados a viver). Durante um surto particularmente brutal em Odessa em janeiro de 1905, onde pogromistas assassinaram centenas de judeus, os bundistas relataram a camaradas no exterior que "pogroms existem apenas onde o governo os quer" .
A autora traça um paralelo contundente:
"Fazendo uma comparação apropriada com o terror racializado dos linchamentos apoiados pela polícia no sul dos Estados Unidos, Crabapple escreve que os bundistas, e a comunidade judaica como um todo, enfrentaram probabilidades insuperáveis precisamente porque 'tanto a polícia quanto os soldados ajudavam seus atacantes'."
O Bund respondeu organizando brigadas armadas de autodefesa para proteger as comunidades judaicas .
A Oposição ao Sionismo
Um dos aspectos mais centrais e controversos do Bund era seu antissionismo intransigente. A oposição ao sionismo não foi uma postura tardia, mas algo presente desde os primórdios do movimento.
Três Razões Iniciais para Opor-se ao Sionismo:
Crabapple identifica três argumentos fundamentais dos bundistas contra o sionismo antes mesmo da Declaração Balfour (1917):
Absurdidade prática: *"Vocês vão pegar 9 milhões de pessoas e fazê-las se mudar para fazendas coletivas no Levante em terras compradas do sultão? Que ideia!"*
Colaboração com antissemitas: Crabapple explica que grupos ultranacionalistas e antissemitas como as Centúrias Negras na Rússia czarista e os Democratas Nacionais na Polônia diziam que os judeus deveriam ser deportados para a Palestina — e os sionistas concordavam .
Desvio da luta de classes: Chefes judeus usavam o sionismo para distrair os trabalhadores judeus de salários miseráveis, dizendo: "Talvez eu não esteja te pagando um salário digno, mas eu dotei uma yeshivá na Palestina" .
A Virada Após Balfour (1917)
Com a Declaração Balfour, quando a Grã-Bretanha prometeu apoiar um "lar nacional judeu" na Palestina, a oposição do Bund se intensificou em bases anti-imperialistas:
"Nesse ponto, o Bund está dizendo: 'Vocês estão se tornando as servas do império britânico. Essa é a sua ideia brilhante? E vocês estão tomando a terra das pessoas e tentando negar seus direitos políticos.'"
A Previsão Profética de Henryk Erlich (1938)
Em 1938, o líder bundista Henryk Erlich escreveu uma análise profética sobre a natureza do sionismo:
"O sionismo, de fato, sempre foi um gêmeo siamês do antissemitismo... Os sionistas se consideram cidadãos de segunda classe na Polônia. Seu objetivo é serem cidadãos de primeira classe na Palestina e tornarem os árabes cidadãos de segunda classe."
A Construção de um Mundo Alternativo na Polônia
Após a Revolução de Outubro de 1917, os bolcheviques — que consideravam o Bund uma ameaça nacionalista — suprimiram o movimento na Rússia . O Bund se reconstituiu na Polônia independente do entreguerras, onde se tornou o partido judeu mais popular do país em 1939 .
Lá, os bundistas construíram o que Crabapple descreve como "um belo mundo alternativo feito de pouco mais que amor e determinação" . Crabapple compara essa construção institucional ao Partido dos Panteras Negras:
"Era uma organização de marxistas, por e para um grupo oprimido e racializado que construiu essas vastas redes de cuidado comunitário — sopões, o Sanatório Medem para crianças faveladas, movimentos juvenis, movimentos femininos e clubes esportivos populares."
As Instituições Bundistas:
Crabapple descreve um ecossistema completo de organizações:
Movimentos para crianças pequenas (tipo escoteiros)
Movimento juvenil
Acampamentos de verão
Movimento feminino que lutava por creches e contracepção
Escolas, incluindo escolas noturnas para jovens trabalhadores judeus que trabalhavam 12 horas por dia
Sindicatos, clubes, editoras e jornais
Clubes esportivos que ensinavam as crianças a patinar no gelo e nadar, levando-as ao campo — pois os judeus das cidades muitas vezes não tinham acesso ao campo ou tinham medo de serem espancados lá
Conexões Internacionais
O Bund enviava atletas para as Olimpíadas Operárias (a alternativa socialista aos Jogos Olímpicos) na Viena Vermelha dos anos 1930 . Seus jornais cobriam a situação dos movimentos operários do Alabama à China .
A Resistência ao Nazismo
Com a invasão da Polônia em setembro de 1939, o Bund resistiu desde o primeiro dia até o último . Bundistas defenderam Varsóvia durante o cerco, criaram uma rede subterrânea e, mais tarde, jovens bundistas ajudaram a liderar a Revolta do Gueto de Varsóvia . Após a destruição do gueto, continuaram lutando como partisans .
O Dilema da Derrota
O Bund foi aniquilado pelo Holocausto. Crabapple relata uma cena comovente durante a liquidação do gueto de Varsóvia, quando uma mulher mais velha relembrava a Viena Vermelha — como crianças vienenses aplaudiam quando ela carregava a bandeira do Bund pela Ringstrasse — e um bundista mais jovem respondeu com amargura: "Onde estão eles agora, seus nobres austríacos?"
Uma amiga que leu o manuscrito de Crabapple resumiu a tragédia:
Crabapple, no entanto, faz uma distinção crucial entre fracasso e derrota:
"A diferença entre fracasso e derrota é que você fracassa quando seus próprios erros levam ao seu colapso. Enquanto perder é ser superado por uma força maior. E a verdade era que não havia um único grupo judeu que pudesse ter resistido aos nazistas... Não havia nada na Palestina que protegesse os judeus, exceto que estava atrás das linhas britânicas, e as linhas britânicas não caíram."
E sobre o sionismo hoje:
"O que o modelo sionista nos mostrou é que ele também termina em genocídio. Isso não é aceitável."
Estrutura e Abordagem do Livro
Crabapple estrutura o livro como uma "história de derrotados do século XX" , combinando:
Retratos dramáticos de líderes e soldados rasos
Pesquisa meticulosa em arquivos
A narrativa começa com uma imagem ancestral: o quadro de seu bisavô Sam Rothbort, "Itka the Bundist, Breaking Windows" — uma garota arremessando uma pedra através da janela de uma cabana .
Lições para o Presente
Crabapple apresenta o Bund não como um artefato histórico ossificado, mas como um "guia para o nosso momento, em todo o seu horror e possibilidade" . As lições que ela identifica incluem:
Solidariedade através da diferença (solidarity across difference) — a insistência de que se pode permanecer si mesmo enquanto se luta ao lado de outros
Rejeição do etnonacionalismo — a crença de que a ideia de estados etnicamente homogêneos "é uma receita para limpeza étnica e derramamento de sangue interminável"
A lógica binária: "ou é solidariedade através da diferença, ou é selvageria"
Como resume o socialista judeu Meyer London, que trabalhou com bundistas no Lower East Side:
"Você está ciente de que, na Rússia, na Polônia, milhares de meninos e meninas judeus rezam a Deus não para tirá-los novamente do Egito, mas para ajudá-los a libertar o Egito?"
Principais Personagens e Figuras
Recepção e Relevância Contemporânea
O livro foi publicado em abril de 2026 e recebeu aclamação da crítica. Naomi Klein escreveu: "Um relato comovente, humano e radical de um dos movimentos revolucionários mais poderosos do século XX" . Jason Stanley descreveu Crabapple como "uma gênia americana única" .
A obra chega em um momento de intenso debate sobre nacionalismo, pertencimento e a situação em Gaza e na Cisjordânia. Crabapple conecta explicitamente a história bundista à luta palestina contemporânea:
"De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, colonos israelenses deslocaram 1.700 palestinos de suas casas na Cisjordânia ocupada desde janeiro deste ano — um número que excedeu em três meses o total de 2025."
Para Crabapple, a filosofia do do'ikayt — o direito de florescer onde se vive — ecoa não apenas o sumud palestino, mas também as lutas de imigrantes e comunidades marginalizadas em todo o mundo hoje.
Conclusão
Here Where We Live Is Our Country é, nas palavras de sua autora, "uma vela para iluminar o presente tumultuado" . Mais do que uma história de um movimento derrotado, é um testemunho da possibilidade de uma política que não escolhe entre particularidade étnica e solidariedade universal — mas insiste que a liberdade começa aqui, onde vivemos, com aqueles que estão ao nosso lado.
Como escreve Crabapple, ecoando os bundistas que recusaram tanto a assimilação quanto o sionismo:
"Não há países onde viva apenas um único grupo populacional. É por isso que a ideologia dos Estados etnonacionais sempre leva à opressão, à limpeza étnica, frequentemente ao genocídio."
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