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terça-feira, 28 de abril de 2026

O Neo Bezerro de Ouro: ou Como“O Escolhido, do Escolhido, do Escolhido” sequestrou um povo inteiro .




Ah, que maravilha! Que época esplêndida para ser um “idiota útil” com síndrome de protagonista divino. Pois é, meus caros, parece que o título de “Povo Escolhido” – que sempre foi um fardo espiritual, uma responsabilidade ética gigantesca – foi leiloado no mercado negro do ego. E os vencedores, claro, são aqueles que se acham O Escolhido, do Escolhido, do Escolhido..... 

Quer dizer, Deus escolheu Israel para ser “luz para as nações” (Isaías 42.6), e o que esses rapazes fizeram? Transformaram a luz num holofote de corretora de imóveis. Porque hoje, o verdadeiro Deus no Sinai não é mais o que deu os Dez Mandamentos, mas sim o Bezerro de Ouro. E pasmem: ele tem nome, sobrenome e passaporte diplomático. Chama-se Benjamin Netanyahu e tem um colega de altar chamado Donald Trump, que adora posar com ele. 

Vamos combinar: esses dois gênios da geopolítica descobriram a fórmula mágica do século. Por que fazer campanha com políticas reais quando você pode simplesmente invocar o Fantasma dos Pogroms sempre que alguém pedir transparência? 

  • “Acusou Netanyahu de corrupção? Antissemita!” 

  • “Criticou a ocupação na Cisjordânia? Antissemita!” 

  • “Não quer que Trump construa mais um resort em Jerusalém? Antissemita!” 

É brilhante! Eles transformaram a memória de seis milhões de mortos num passe de dança para justificar bombardeios em Gaza, vender armas para regimes autoritários e aprovar mais um bairro no meio de território ocupado. Enquanto isso, os verdadeiros profetas – os judeus do J Street, os refuseniks, os rabinos que assinam petições pela paz, os cartunistas do Haaretz que são presos por criticar o exército – são tratados como traidores. Ou pior: são invisíveis. 

Porque, convenhamos, para a turma do Bezerro de Ouro, o “povo judeu” é só um clube de figurinhas repetidas. Eles colecionam as que servem: o Nobel de Einstein, a luta dos Bundistas contra o czar, os judeus que fundaram sindicatos no Leste Europeu, os que construíram o Estado de Bem-Estar Social, os que sangraram na Guerra Civil Espanhola contra Franco. Toda essa história gloriosa de luta pela justiça social – vapt-vupt – agora é apenas um selo de qualidade para vender apartamentos em Colinas. 

Carl Sagan, um judeu que entendia de cosmos, diria que esses líderes têm o ego do tamanho de uma galáxia. Spinoza, expulso da comunidade por pensar, deve estar se revirando no túmulo. E o que diria o Rabino Hillel, o ancião que resumiu a Torá estando numa perna só? “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você.” Os netinhos do Bezerro de Ouro responderiam: “Claro, mas a gente é o escolhido do escolhido, então a regra não se aplica.” 

E a Cabala então? Ah, a Cabala! Misticismo judaico explica que o mundo só se sustenta por vasos que quebraram para que a luz divina se espalhasse. Mas esses rapazes querem consertar o mundo construindo muros. O Tzimtzum (a contração divina) seria uma lição sobre limites. Mas para Netanyahu e Trump, limites são para os fracos. Eles são O Escolhido, do Escolhido, do Escolhido – uma pirâmide humana onde o topo só tem espaço para dois. 

O que me deixa genuinamente revoltado (e aqui o sarcasmo dá lugar ao ódio frio) é a arrogância de dizer “os judeus querem” isso ou aquilo. Os milhões de judeus que foram às ruas em Israel contra a reforma judiciária? Os 25% do eleitorado israelense que é árabe-palestino? Os judeus ultraortodoxos que fazem greve de fome contra o alistamento militar? Os judeus do Brooklyn que colaram adesivos “Não em meu nome” nos tanques? Esses não contam. Porque eles não estão construindo o Terceiro Templo feito de concreto armado e gás lacrimogêneo. 

A Ironia Final: O Bezerro de Ouro, na Torá, foi feito pelo povo enquanto Moisés subia o monte. Hoje, o Bezerro é feito pelos próprios líderes, que desceram do monte para dizer: “Esquece a ética, eu tenho um F-35 e um projeto de lei para anexar o Vale do Jordão.” 

E o pior? Eles usam a credibilidade histórica dos judeus de esquerda – os mesmos que criaram os sindicatos, que lutaram contra Stalin, que fundaram o B’nai B’rith para defender direitos civis – para vender guerra. Pegam o prestígio de ícones como Albert Einstein (que rejeitou a presidência de Israel), Hannah Arendt (que criticou a banalidade do mal nos acampamentos) e Leonard Cohen (que cantou a tristeza de Jerusalém) e transformam em merchandising de campanha. 

Então, para encerrar com o devido desprezo: não, senhor Bibi e senhor Trump. Vocês não falam pelo Judeu Errante. Vocês não falam pelo Judeu que construiu escola no meio do nada. Vocês não falam pelo Judeu que foi queimado em fogueira e mesmo assim não aprendeu a odiar. Vocês falam por si mesmos – dois homens gordos abraçados a um ídolo de ouro, rindo enquanto o mundo pega fogo. 

Quanto ao resto de nós, judeus ou não, que ainda acreditamos naquela velha máxima talmúdica – “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro” – só nos resta gritar, todos os dias, no ouvido do Bezerro: Você não é Deus. Você é um câncer. E não vai levar o povo inteiro para o matadouro em seu nome. 





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