SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Em Fortaleza a pedagogia vira necrologia: A educação que rouba, aparelha votos e mata!




De um lado do espelho-Capitães do Mato eleitos pela máquina de aparelhamento de escolas. A educação entortou o espelho: enquanto espelha uma minoria de bilionários em Fortaleza, a geração mais jovem é violentamente apagada por uma combinação perversa de miséria, balas perdidas e uma escola que há muito deixou de ser porto seguro para se tornar mais um moedor de corpos e esperanças. 

Não estamos diante de uma falha técnica. Estamos diante de fratura social, de um plano. Enquanto 19 bilionários cearenses comandavam fortunas privadas astronômicas em 2025 – com o maior deles acumulando R$ 18,1 bilhões –, a Grande Fortaleza entronizava o campeonato da miséria: a região atingiu 6,8% de sua população em extrema pobreza em 2024, condenando cerca de 348 mil pessoas a viverem com menos do que o necessário para sobreviver. Esta não é uma herança natural: é o resultado direto do gigantesco retrocesso de 2,6 pontos percentuais que tornou a capital cearense a líder nacional em geração de miséria no quarto de século mais desigual da história recente do Brasil. A riqueza não desceu pelas escadarias do poder, não. Ficou retida nas coberturas e nos condomínios fechados, enquanto crianças aprendiam, antes das letras, o gosto do vazio na barriga. 

No front da violência, o quadro é carnal. Em 2025, o Ceará contabilizou 200 mortes por intervenção policial, e os primeiros meses de 2026 já escancaravam um aumento de 56,7% nesses assassinatos cometidos pelo Estado contra a juventude pobre. No mesmo período, mais de 550 notificações de violência sexual contra crianças de até seis anos foram registradas na capital. Qual a mensagem subliminar disso para uma criança? Que a escola não a protege, que o poder público não a , e que a única forma de ser notado é sendo alvejado. 

É esse abandono sistemático que antecede a entrada na sala de aula e que a escola, sozinha, jamais conseguiria reparar. Até porque a própria escola está de joelhos. Em 2025, apenas 38% das crianças de 0 a 3 anos tinham vaga em creches na capital, com uma fila de 2.800 pequenos à espera de uma oportunidade – e isso quando o Plano Municipal pela Primeira Infância previa alcançar 50% de atendimento até o ano passado. Chegou-se a atrasar em 12% uma meta que já era baixa. A falta de creches não é um detalhe administrativo: é a privação sistemática do berço do desenvolvimento humano. 

E a corrupção, essa velha conhecida das elites, drena o pouco que sobra. Em dezembro de 2025, a Polícia Federal prendeu indivíduos transportando R$ 400 mil em espécie oriundos de um esquema criminoso que desviava verbas federais da merenda escolar – o alimento que deveria garantir o mínimo de nutrição para que cérebros famintos pudesse sequer sonhar com a aprendizagem. Quando uma mesma mão que rouba o prato da criança bate no peito e diz "a educação é nossa prioridade", a hipocrisia se torna o verdadeiro currículo oculto. 

 

A camisa de força das provas: a "educação" que destrói 

É neste caldo de falta de tudo que a política educacional de Fortaleza e do Ceará insiste em medir, ranquear e premiar escolas com base em duas disciplinas — Português e Matemática —, ignorando a complexidade da vida. O Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica (Spaece) é o carro-chefe desse projeto, e seu espetáculo mais perverso é o Prêmio Escola Nota 10, que entrega 434 troféus para escolas que se destacam em testes padronizados. 

O que os números oficiais escondem? Em 2024, 53% dos alunos do 9º ano da rede pública tiveram desempenho classificado como "muito crítico" ou "crítico" em Matemática no Spaece. Ou seja: mais da metade dos adolescentes que estão prestes a entrar no ensino médio não dominam o básico do raciocínio lógico-matemático – e a resposta do poder público não é repensar o modelo, mas repetir o mesmo prêmio para as mesmas escolas de sempre. 

Diane Ravitch, em "A Ascensão e Queda do Sistema Educacional Americano", já nos alertava para essa armadilha: a obsessão por testes padronizados e por um modelo de mercado que trata aluno como produto e escola como empresa não melhora a aprendizagem; apenas a deforma. O que o Ceará e Fortaleza fizeram foi importar o erro mais caro da história da educação americana e vendê-lo como "modernização". Mas não há modernização que resista à verdade: provas repetitivas não ensinam ninguém a pensar. 

A lógica por trás disso é cruel e clara: se você vive em um beco sem saneamento, se sua mãe não consegue creche para o irmão mais novo, se você chega à sala de aula com fome ou com medo de não voltar para casa, o teste padronizado não vai capturar sua dor. Ele vai apenas registrar seu fracasso e classificá-lo como "crítico". E depois premiar a escola da esquina mais rica, que teve alunos descansados e bem alimentados. 

 

Quando a pedagogia vira necrologia: o sequestro do desenvolvimento humano 

Ao reduzir a educação à memorização de conteúdo para provas, o sistema cearense não apenas nega a autonomia – ele a assassina antes mesmo de nascer. 

Para Paulo Freire, a educação verdadeira é aquela que ensina o aluno a ler o mundo para depois transformá-lo. É o exercício permanente da curiosidade epistemológica, da pergunta, da dúvida, do diálogo entre saberes. A prática freiriana é incompatível com a educação bancária do Spaece, onde o professor deposita informações e o aluno devolve respostas certas em um gabarito. Sem autonomia, não há libertação. E sem libertação, o pobre permanece pobre e submisso. 

Vygotsky, por sua vez, nos ensina que o aprendizado nasce da interação social, da troca entre pares, da mediação do outro mais experiente. Reduzir o processo avaliativo a um aluno solitário diante de uma folha de respostas é negar a própria natureza do desenvolvimento cognitivo. Como uma criança em situação de violência doméstica ou comunitária pode construir conhecimento se a escola lhe rouba a única ferramenta que poderia salvá-la – a palavra compartilhada, o acolhimento coletivo, a escuta ativa? 

Henri Wallon nos lembra que o desenvolvimento humano é indissociável da afetividade e da emoção. Uma escola que não vê o aluno como um ser de desejos, medos e alegrias, mas como um índice a ser melhorado, está fadada ao fracasso. E os dados falam por si: sem afeto, o aluno evita, falta, abandona. A repetência vira autoexclusão e, em muitos casos, o caminho mais curto para o crime. 

Jacques Rancière, ao teorizar a "educação estética", nos mostra que a verdadeira emancipação intelectual acontece quando o mestre desiste de ensinar o que pensar e ensina a pensar por si mesmo. É o oposto absoluto da pedagogia da prova: ela não emancipa, ela submete. Ela ensina o aluno a adivinhar a resposta que a banca quer ouvir, não a formular a pergunta que sua própria realidade exige. 

Edgar Morin, por fim, com seu pensamento complexo, nos adverte que a fragmentação do saber em disciplinas estanques e a priorização de duas matérias (Português e Matemática) como únicos parâmetros de "qualidade" é uma cegueira sistêmica. O mundo real não é dividido em provas de múltipla escolha. Ele é incerto, contraditório, e exige que sejamos capazes de religar saberes, acolher paradoxos e lidar com o imprevisto. O que o Spaece avalia, então? Apenas a capacidade de repetir o que foi ensaiado. 

 

Negar a educação complexa é condenar gerações à morte lenta 

Quando o sistema educacional insiste em ignorar a fome, a violência, a falta de moradia e as crianças fora das creches, e insiste em medir tudo por duas notas – está lavando as mãos para o destino dos seus alunos. Dados da realidade mostram que 348 mil pessoas na miséria não conseguem aprender em condições de igualdade com quem tem acesso a tudo. E a cada ano que passa sem uma reforma estrutural que integre políticas de saúde, habitação, assistência social e segurança pública à educação, o fosso aumenta. 

O resultado desse modelo é a perpetuação do ciclo da exclusão: crianças que não se desenvolvem na primeira infância tornam-se jovens sem perspectivas; jovens sem perspectivas tornam-se vulneráveis ao aliciamento pelo crime ou à morte prematura pelas mãos do Estado; e o círculo se fecha com a ascensão de uma nova geração de miseráveis, prontos para alimentar a máquina da violência e da desigualdade. 

Enquanto isso, das coberturas dos prédios mais caros de Fortaleza, assiste-se ao espetáculo com ar de normalidade. Os bilionários – que dobraram de número em apenas um ano – jantam tranquilos, porque os filhos deles estudam em escolas que nunca ouviram falar de Spaece, em métodos que valorizam a criatividade, o pensamento crítico e o desenvolvimento integral. Para os filhos dos pobres, restam as fichas de respostas e as balas de borracha. Ou de chumbo. 

 

Conclusão: a educação que mata ou a educação que liberta 

A educação não transforma se não for repleta de afetos, de ética, de estética e de pensamento complexo. O modelo Cearense e em Fortaleza, inspirado nos piores erros americanos, é uma máquina de produzir fracasso escolar, desesperança e exclusão social. A insistência em testes repetitivos e rankings não é um deslize técnico: é uma escolha política perversa que sequestra das crianças e dos jovens as ferramentas para construir um futuro diferente. 

A pergunta que fica ecoando pelas salas de aula sem climatização, pelos becos infestados de violência e pelas filas intermináveis das creches, é direta: até quando Fortaleza continuará a varrer a própria infância e juventude para debaixo do tapete das estatísticas? 

Porque enquanto a educação bancária continuar a ser celebrada com troféus e salas de imprensa, as únicas coisas que vão crescer são o número de bilionários nas listas da Forbes e o número de covas rasas nos cemitérios municipais. A escolha, no fundo, já foi feita. 

 

Referências citadas (indicativas): 

  • Ravitch, Diane. A Ascensão e Queda do Sistema Educacional Americano. 

  • Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia. 

  • Vygotsky, Lev. A Formação Social da Mente. 

  • Wallon, Henri. As Origens do Pensamento na Criança. 

  • Rancière, Jacques. O Mestre Ignorante. 

  • Morin, Edgar. A Cabeça Bem-Feita. 

  • Malaguzzi, Loris. As Cem Linguagens da Criança. 

  • IBGE – Dados de extrema pobreza nas regiões metropolitanas (2024). 

  • Secretaria da Segurança Pública do Ceará – Mortes por Intervenção Policial (2015-2026). 

  • G1 – Relatório sobre creches em Fortaleza (março 2026). 

  • Diário do Nordeste – Resultados do Spaece 2024 (setembro 2025). 

  • Forbes Brasil – Lista de bilionários cearenses (2025). 

  • Polícia Federal – Operação de desvio de verbas da merenda escolar (dezembro 2025). 

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