SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

As Relações de Força no Diário, no Boletim e na Escola. Por Egidio Guerra



 
Introdução: A Pista como Método

O que significa escrever sobre um aluno infrequente? E sobre um professor que insiste? Carlo Ginzburg nos ensina, ao longo de sua obra, que os detalhes mínimos — aquilo que parece insignificante aos olhos do poder — são, na verdade, as pistas mais valiosas para compreender a trama complexa das relações humanas. Em Relações de força, Ginzburg desenvolve o que se poderia chamar de uma epistemologia do indiciário: a ideia de que o conhecimento verdadeiro emerge não de grandes sistemas teóricos, mas dá atenção aos sinais, aos sintomas, às marcas deixadas pelos que passam.

O Diário do Professor e o Boletim do Futuro, quando lidos através das lentes de Ginzburg, deixam de ser meros instrumentos burocráticos. Tornam-se arquivos vivos — documentos que registram, em suas entrelinhas, as micro-relações de força que constituem o cotidiano escolar. Este ensaio explora como esses dois instrumentos podem descrever, analisar e eventualmente transformar as relações de poder que operam na escola, na vida e na história.


Parte I: A Micro-História na Sala de Aula — O Caso do Aluno Infrequente

O Paradigma do Indicador

Ginzburg é amplamente reconhecido como um dos fundadores da micro-história — uma abordagem que, em vez de se concentrar em grandes estruturas e processos macro-históricos, volta-se para o indivíduo singular, para o evento aparentemente menor, para o que ele chamou de "euphoric ignorance" : a alegria de encontrar um fragmento enigmático de informação e tentar decifrá-lo.

Como observa um estudo sobre sua obra, Ginzburg descreveu a micro-história como um método que "through the focus on an individual life, a specific eventor a small communityaims to reveal the tensions and contradictions that larger-scale narratives tend to erase" . Traduzindo para a realidade escolar: o aluno infrequente, o diário que registra uma ausência, o bilhete trocado entre professores — tudo isso são sinais de uma tensão que escapa aos relatórios estatísticos e às políticas educacionais homogêneas.

O Diário do Professor, nesse sentido, é um instrumento micro-histórico por excelência. Cada falta registrada não é um dado abstrato; é o traço de uma vida concreta, de um corpo que não atravessou o portão, de uma decisão (ou de uma impossibilidade) que merece ser compreendida em sua singularidade.

Menocchio na Escola: O Aluno que Lê Contra a Tradição

O caso mais famoso da micro-história ginzburguiana é, sem dúvida, Menocchio, o moleiro do Friul queimado pela Inquisição por suas ideias heréticas. Em O Queijo e os Vermes, Ginzburg reconstitui o universo mental de um homem que lia livros proibidos (e permitidos) de maneira original e imprevisível — que "misturava" textos, como queijo e vermes, para criar uma cosmogonia própria .

Menocchio não era um intelectual erudito. Era um moleiro que aprendera a ler em escolas abertas às crianças das classes mais baixas . Sua heresia não foi ter lido livros errados; foi tê-los lido de outro modo — com uma liberdade interpretativa que o poder eclesiástico não podia tolerar.

Transpondo essa figura para a escola contemporânea: quantos Menocchios estão sentados (ou ausentes) em nossas salas de aula? Alunos que, por não se submeterem à leitura autorizada dos conteúdos — por "lerem errado" os textos, por fazerem conexões inesperadas, por recusarem a passividade que a escola espera — são classificados como "problemáticos", "desinteressados", "com déficit de atenção"?

O Diário do Professor que se inspira em Ginzburg não registra apenas "o aluno não fez a tarefa". Ele pergunta: o que a recusa desse aluno está dizendo sobre as relações de força que organizam esta sala de aula? Ele tenta capturar, como Ginzburg fez com Menocchio, a lógica interna — por mais estranha que pareça — que orienta o comportamento daquele que se desvia da norma.

Parte II: Relações de Força na Escola — A Prova e a Autoridade

O Dilema da Evidência

Uma das contribuições mais importantes de Ginzburg para a epistemologia histórica é sua insistência na prova. Em uma entrevista à Harvard Gazette, ele afirma: "A verdade que buscamos é um empreendimento humano — falível, revogável. É por isso que insisto em provas — e em refutações" .

A escola também é um espaço de provas — literalmente. O Boletim do Futuro, nesse contexto, é o documento que certifica (ou não) a capacidade do aluno de produzir evidências de seu aprendizado. No entanto, a contribuição de Ginzburg nos convida a problematizar essa relação: quem define o que conta como prova? E que relações de poder estão embutidas nessa definição?

Ginzburg argumenta que, em qualquer sociedade, "the conditions of access to the production of documentation are tied to a situation of power" . Isso é tão verdadeiro para os arquivos da Inquisição quanto para os boletins escolares. O aluno que não se encaixa nos critérios estabelecidos de avaliação não é apenas mal avaliado; é, em certo sentido, excluído da produção de documentação sobre si mesmo. Sua ignorância (ou sua diferença) não é registrada como potência, mas como falta.

O Advogado do Diabo na Avaliação

Ginzburg confessa, na mesma entrevista, seu fascínio pela figura do advogado do diabo — aquele que, nos processos de canonização, era encarregado de apresentar os argumentos contra a santidade do candidato. "Sinto-me envolvido em uma conversa interminável e contenciosa com o advogado do diabo", diz ele .

O professor que quer compreender as relações de força na escola precisa incorporar esse espírito — precisa ser capaz de argumentar contra si mesmo, de questionar suas próprias premissas avaliativas. Por que considero que este aluno "não aprendeu"? Será que ele aprendeu de um modo que minha avaliação não consegue capturar? Será que minha autoridade como avaliador é legítima ou apenas institucional?

O Boletim do Futuro, quando concebido a partir dessa perspectiva, torna-se um documento dialógico — não um veredito unidirecional, mas um convite à negociação de sentidos. Ele registra não apenas "o que o aluno sabe", mas também "como o professor e o aluno estão negociando o que significa saber".


Parte III: Nevertheless — Maquiavel, Pascal e a Lógica da Decisão

A Casuística como Ferramenta Pedagógica

Em Nevertheless: Machiavelli, Pascal, Ginzburg investiga a tradição da casuística — a arte de tomar decisões morais em situações concretas, considerando as circunstâncias particulares em vez de aplicar regras gerais de maneira mecânica. Os jesuítas, alvo das críticas ferozes de Pascal em As Provincianas, desenvolveram uma sofisticada casuística que permitia lidar com os dilemas da confissão e da direção espiritual.

Ginzburg, no entanto, não rejeita a casuística como mero relativismo. Ele a vê como uma ferramenta necessária para pensar a relação entre regra e caso — entre a norma universal e a situação singular.

A escola, tradicionalmente, funciona no registro da aplicação da regra. O regulamento escolar define as condutas permitidas e proibidas; o professor aplica a regra; o aluno é punido ou recompensado. A casuística, ao contrário, nos convida a perguntar: essa regra se aplica a este caso? E se as circunstâncias atenuantes são relevantes? E se o aluno que faltou tem uma razão que a regra não prevê?

O Diário do Professor que incorpora essa sensibilidade casuística não é um registro neutro de ocorrências. É um espaço de deliberação — onde o professor se pergunta, diante de cada caso singular, qual é a resposta mais justa, considerando não apenas a regra, mas a pessoa concreta e seu contexto.

O Secularismo e Suas Ambiguidades

Em Secularism and Its Ambiguities: Four Case Studies, Ginzburg examina como o secularismo moderno — a separação entre esfera religiosa e esfera política — não é uma linha clara, mas um campo de tensões e ambiguidades. O que vale para a relação entre religião e política vale também para a relação entre autoridade escolar e liberdade do aluno.

A escola secular, que se pretende neutra e universal, está, na verdade, impregnada de pressupostos culturais, de relações de força silenciosas, de formas sutis de exclusão. O aluno que não reconhece esses pressupostos — que vem de uma cultura diferente, que tem uma relação diferente com o tempo, com a autoridade, com o conhecimento — está em desvantagem não por sua "incapacidade", mas porque as regras do jogo foram escritas por outros.

O Boletim do Futuro, quando lido através de Ginzburg, torna-se um instrumento para tornar visíveis essas ambiguidades. Ele pode registrar não apenas o desempenho do aluno segundo critérios estabelecidos, mas também as dificuldades específicas que ele enfrentou para se adequar a um ambiente que não foi feito para ele.


Parte IV: Uma História sem Fim — O Diário como Arquivo Vivo

A Reprodução como Problema

Em Una historia sin final: Textos, imágenesreproducciones, Ginzburg reflete sobre a relação entre original e cópia, entre texto e imagem, entre o evento singular e sua reprodução. A história, para ele, não tem um fim — não porque os eventos continuem a ocorrer (o que é óbvio), mas porque o sentido do passado está sempre sendo renegociado no presente.

O Diário do Professor, nessa perspectiva, é um arquivo em aberto. Não é um documento fechado que registra o que aconteceu de uma vez por todas. É um texto que continuará a ser lido e interpretado — pelo professor no futuro, por outros professores, pelo próprio aluno quando adulto.

Isso implica uma responsabilidade ética. O que escrevemos sobre os alunos não é apenas um registro administrativo; é uma narrativa que participa da construção de suas identidades. A profecia de um boletim — "este aluno não tem capacidade" — pode se tornar verdade não porque era verdadeira, mas porque foi dita.

A Euforia da Ignorância como Postura Docente

Uma das passagens mais belas da entrevista de Ginzburg é quando ele descreve sua sensação ao entrar em um arquivo desconhecido: "Euphoric ignorance" . A alegria de não saber, de se defrontar com o desconhecido, de ter que aprender a partir do zero.

O professor que se inspira em Ginzburg cultiva essa euforia da ignorância. Não porque ele não saiba nada, mas porque ele sabe que o saber se constrói no encontro com o que não se sabe — e que esse encontro é sempre uma aventura, sempre uma fonte de prazer. 

Diante do aluno infrequente, esse professor não pergunta "o que falta a este aluno?" — como se o aluno fosse um vaso vazio a ser preenchido. Ele pergunta: "o que este aluno tem a me ensinar sobre o que a escola não está conseguindo ver?" Ele se coloca na posição de aprendiz diante daquele que parece não aprender. 

Conclusão: O Boletim como Documento de uma Relação de Força em Transformação 

O que o Diário do Professor e o Boletim do Futuro podem descrever, à luz de Carlo Ginzburg? Podem descrever muito mais do que notas e presenças. Podem descrever: 

  1. micro-história da sala de aula — as tensões e contradições que os relatórios macro não capturam, as singularidades que a estatística apaga. 

  1. As relações de força na produção da documentação — quem tem o poder de registrar, de avaliar, de definir o que conta como prova. 

  1. A casuística das decisões pedagógicas — como a regra geral se confronta com o caso singular, e como o professor delibera entre justiça e norma. 

  1. A ambiguidade do secularismo escolar — como a pretensa neutralidade da escola encobre pressupostos culturais e relações de poder silenciosas. 

  1. A história sem fim do aluno — como o que escrevemos sobre ele hoje continuará a produzir efeitos no futuro, e como nossa escrita é, portanto, um ato ético de primeira grandeza. 

Ginzburg nos lembra que a busca pela verdade histórica é "an extremely demanding task" . O mesmo vale para a busca pela verdade pedagógica. Não é fácil descrever as relações de força que operam na escola. Não é fácil registrar um aluno infrequente sem reduzi-lo à sua falta. Não é fácil escrever um boletim que seja justo e, ao mesmo tempo, transformador. 

Mas é possível. E o primeiro passo é o que Ginzburg sempre deu: a atenção ao detalhe, ao sintoma, à pista. A convicção de que o que parece menor — a falta registrada no diário, o olhar do aluno que não entende, a palavra mal dita — é, na verdade, a chave para compreender o todo. 

O Diário do Professor e o Boletim do Futuro, quando escritos com essa atenção, deixam de ser instrumentos de controle. Tornam-se instrumentos de libertação — documentos que não apenas descrevem as relações de força, mas que, ao descrevê-las, começam a transformá-las. 

 

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