SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

De Mpabeé à Neymar ! Estou à sua esquerda, realmente na extrema esquerda" !


Quando eu coloco a chuteira, não esqueço as ruas de Bondy. Não esqueço o cheiro do asfalto quente, o som das bolas batendo nos muros e o olhar das crianças que, como eu, sonham alto, mas vivem cercados por muros invisíveis. Sim, eu disse a um repórter: "Estou à esquerda, na extrema esquerda". E não foi um arroubo de momento; foi a confissão de uma vida inteira.

Ser de esquerda, para mim, não é uma sigla num papel. É olhar para o meu bairro e ver a falta de estrutura, a educação precária, o racismo estrutural que tenta nos dizer onde devemos ficar. É lembrar que, enquanto eu corria atrás de uma bola, muitos dos meus amigos corriam atrás de oportunidades que o sistema lhes negou. A extrema-esquerda, na minha voz, é a recusa absoluta em aceitar que o talento é privilégio de poucos. É a luta para que o mérito não seja apenas um discurso bonito para encobrir a desigualdade de berço.

A minha vida é um paradoxo: sou francês, sou filho de imigrantes, sou um campeão do mundo e, ainda assim, sinto na pele o peso do olhar que desconfia de mim. Cada gol que marco é um tapa na cara do determinismo social. Mas o que faço com a bola não me basta. Eu tenho uma plataforma, e usá-la é um dever moral, não uma opção.

Por isso, deixo aqui minhas lições para vocês, crianças e jovens que me assistem:

  1. O futebol é coletivo, e a vida também. Não acreditem nessa história de que o herói vence sozinho. Um drible bonito engana um zagueiro, mas um passe certeiro muda um jogo. No mundo, ninguém se salva isolado. A nossa força está em passar a bola para o outro, em levantar quem caiu. A soberba é a armadilha dos fracos.

  1. A sua origem não é a sua sentença. Eles vão tentar colocar você numa caixa. Vão dizer que você é muito pequeno, muito negro, muito pobre, ou muito "periférico". Não comprem essa mentira. Eu cresci ouvindo que o subúrbio só produzia problemas; eu provei que ele produz gigantes. Mas a revolução não é só virar jogador; é virar cidadão. Estudem, leiam, questionem. A cabeça é tão importante quanto os pés.

  1. A indiferença é o maior dos adversários. Não se calem diante da injustiça. Quando eu vejo a extrema-direita crescendo na Europa, vejo o fantasma do ódio. Minha mensagem é clara: o futebol é uma festa da diversidade. Meus companheiros de seleção são de todas as cores, de todas as crenças. A nossa força é a nossa mistura. Defender a igualdade não é "fazer política"; é fazer humanidade.

  1. Perder com dignidade ensina mais que vencer com arrogância. Errei pênaltis? Sim. Perdi finais? Sim. Mas a vida é sobre persistência. Caiam, levantem-se, e lutem de novo. Mas lutem com justiça. Não vale tudo por uma taça. A sua integridade vale mais que todo o ouro do mundo.

Não quero que as crianças queiram ser o novo Mbappé. Quero que elas queiram ser a melhor versão de si mesmas — combatentes, críticas, solidárias. Que cada passe que deem na vida seja para construir um mundo mais fraterno.

Eu visto a camisa da França, mas minha alma pertence à periferia. E enquanto eu respirar, minha voz ecoará à esquerda: onde estão os que constroem, e não os que destroem. O jogo só acaba quando o apito final soa; até lá, estamos em campo. E eu estou no time daqueles que acreditam que o amanhã pode ser de todos, e não apenas de alguns. 

Vamos em frente. Com a bola nos pés e a luta no coração.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário