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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Sobre os que não gritam! Por Egidio Guerra




Vivemos numa cultura obcecada pelo ruído. O grito é tomado como o grande sintoma da dor, o sinal inequívoco de que algo está errado. Mas e aqueles que não gritam? Não porque não sintam, mas porque aprenderam, nas camadas mais profundas do psiquismo, da história e da estrutura política, que o grito é inútil, perigoso ou simplesmente intraduzível. Ao entrelaçar as reflexões de Gayatri Chakravorty Spivak em Pode o Subalterno Falar?, os arquivos críticos de Isabelle Aubert e a psicanálise do desenvolvimento de John Bowlby em Uma Base Segura, somos confrontados com um retrato assombroso: o silêncio do que não grita não é ausência, mas a forma mais elaborada e trágica de sobrevivência.

A clínica do silêncio: a lição de Bowlby

Para compreender os que não gritam, devemos começar pelo berço. John Bowlby, ao formular a Teoria do Apego, observou um fenômeno contra intuitivo em crianças com cuidadores rejeitadores ou punitivos. Quando ameaçadas, essas crianças não aumentavam o choro; ao contrário, inibiam-no completamente. Desenvolviam o que chamamos de apego evitativo.

Para Bowlby, o grito é um comportamento de proximidade: a criança chama para garantir a sobrevivência. Contudo, quando o grito reiteradamente resulta em abandono ou hostilidade, o sistema se recalibra. A criança aprende que a manifestação da dor afasta a figura de cuidado. Para manter uma "base segura" mínima — ainda que fria e distante — ela suprime a angústia. A fachada de calma e independência é, na verdade, um luto antecipado. Os que não gritam, nesta primeira camada, são aqueles que foram ensinados, na carne, que a vulnerabilidade não é um direito, mas uma ameaça à própria ligação com o outro.

O arquivo da dor: a crítica de Aubert

Isabelle Aubert, mergulhando nos arquivos da Teoria Crítica (de Adorno a Horkheimer), amplia essa perspectiva para o plano social e histórico. A razão instrumental, que organiza nossas sociedades e nossos arquivos, opera por meio de categorias abstratas. Ela registra fatos, estatísticas e eventos, mas é surda à experiência subjetiva do sofrimento.

Os que não gritam, para Aubert e os frankfurtianos, são as vítimas do progresso cuja dor não encontra lugar no discurso oficial da história. O arquivo não registra o gemido abafado do operário esgotado, da mulher violentada ou do povo dizimado, a não ser como dados numéricos. A não-gritaria, aqui, é o preço da assimilação ao "mundo administrado". Para serem sequer reconhecidos como sujeitos históricos, esses corpos precisam silenciar a particularidade de sua agonia e se submeter à linguagem fria do sistema. Gritar, nesse contexto, seria apenas ecoar dentro de uma câmara hermética; o silêncio forçado é a condição para que o sistema tolere sua existência marginal.

A intraduzibilidade política: Spivak e o Subalterno

É Gayatri Chakravorty Spivak, porém, quem dá o golpe mais certeiro. Em Pode o Subalterno Falar?, a resposta é um sonoro "não" — não por incapacidade inata, mas por uma impossibilidade estrutural. O subalterno (especialmente a mulher subalterna) não é ouvido porque, quando tenta falar, sua voz é imediatamente capturada, traduzida e distorcida pelos discursos hegemônicos (seja o do colonizador, seja o do intelectual ocidental progressista).

Spivak nos lembra do exemplo do sacrifício ritual na Índia colonial: se a mulher escolhe a morte, os britânicos dizem que é "bárbaro"; se escolhe a vida, os indianos nacionalistas dizem que é "tradição". Em ambos os casos, a vontade dela se dissolve. O que resta? O não-grito. O subalterno não grita porque seu grito não pertence a nenhum código inteligível. Se gritar alto, será patologizado, criminalizado ou cooptado. Se permanecer em silêncio, será acusado de passividade histórica. O silêncio do subalterno é a prova de sua condição: uma ausência de espaço epistêmico onde sua dor possa ecoar sem ser imediatamente transformada em outra coisa.

A sinfonia do vazio

Quando justapomos esses três olhares — o psicanalítico (Bowlby), o crítico-social (Aubert) e o pós-colonial (Spivak) — percebemos que os que não gritam habitam uma encruzilhada trágica. Eles são o arquétipo daqueles cuja dor é profunda demais para ser expressa na linguagem do opressor, ampla demais para caber nos arquivos da razão e perigosa demais para ser externalizada sem destruir os vínculos de dependência que os mantêm vivos.

O não-grito é, portanto, uma estratégia. Uma estratégia de sobrevivência psíquica (para não perder o objeto de amor), uma estratégia de administração histórica (para não ser aniquilado pelo sistema) e uma estratégia política (para não ser mal interpretado pela hegemonia). Mas é também uma condenação. Ao não gritarem, esses sujeitos são relegados ao limbo do "não-ser", existindo apenas como sombras nas margens do discurso.

Ouvir os que não gritam exige de nós um esforço hercúleo: precisamos desaprender a escuta imediata e aprender a sentir a vibração do vazio. Exige que o terapeuta (como Bowlby) perceba a dor na rigidez postural da criança; que o historiador (como Aubert) leia nas entrelinhas dos arquivos aquilo que foi omitido; e que o intelectual (como Spivak) reconheça os próprios limites de sua representação. Não se trata de "dar voz" a quem não tem — isso seria um gesto paternalista —, mas de desmontar as estruturas que fabricam o silêncio.

O grito, afinal, é apenas o sintoma. O calafrio que percorre a espinha ao deparar com o silêncio absoluto do outro — esse, sim, é o verdadeiro diagnóstico de nossa humanidade falida. E enquanto não aprendermos a escutar o que não faz barulho, continuaremos a construir mundos onde só têm direito à fala aqueles que já estão, desde sempre, garantidos pelo poder.

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