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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Das tribos ao Mar e ao Espaço. Por Egidio Guerra





Há um fio invisível que atravessa a história da expansão humana — um fio que começa na terra, onde comunidades inteiras se definem por sua relação com o solo, e se estende até o cosmos, onde novas fronteiras são traçadas não mais com bússolas, mas com foguetes. Três livros recentes, cada qual a seu modo, desenham os contornos dessa trajetória: Geontologias: Um réquiem para o liberalismo tardio, de Elizabeth Povinelli; Navegadores: uma viagem através do Império perdido de Portugal, de Erika Fatland; e Uma história da conquista espacial: Dos foguetes nazistas aos astrocapitalistas do New Space, de Irénée Régnauld e Arnaud Saint-Martin. Juntos, eles compõem um mosaico que revela como a humanidade, ao navegar do chão das tribos ao mar e deste ao espaço, carregou consigo as mesmas estruturas de poder, as mesmas violências e as mesmas promessas não cumpridas.

A terra e seus guardiões

No ponto de partida, há a terra — não como recurso, mas como parente. Elizabeth Povinelli, em Geontologias, nos apresenta a comunidade aborígene de Belyuen, na Península Cox, Austrália, com quem convive desde 1984. Para esses povos, a divisão entre vida e não-vida — entre o humano e a rocha, o vento, o rio — simplesmente não faz sentido. O território não é apenas lar; é também família.

Contra essa cosmovisão, Povinelli ergue o conceito de geontopoder: uma forma de governança que não se contenta em administrar a vida (como fazia o biopoder foucaultiano), mas que opera pela distinção entre o vivo e o não vivo para exercer dominação. É esse poder que permite que companhias de mineração avancem sobre terras indígenas, tratando o solo como matéria inerte a ser extraída, enquanto o Estado liberal tardio se organiza para conservar a acumulação de valor entre as classes dominantes. O geontopoder, assim, é o mecanismo pelo qual o liberalismo tardio — essa forma de governança da diferença e dos mercados — transforma mundos em recursos.

O mar e seus rastros

Dessa terra saem os navegadores. Erika Fatland, antropóloga norueguesa, embarca em navios mercantes para refazer as rotas do império colonial português, do Atlântico ao Japão. Seu percurso é uma viagem pelos vestígios de um império que, iniciado em 1415 com a conquista de Ceuta, tornou-se protótipo de outros sistemas coloniais e só colapsou com a Revolução dos Cravos em 1974.

O que Fatland encontra é um legado ambivalente. Em alguns lugares, a influência portuguesa é memória distante; em outros, a brutalidade e a exploração ainda são lembradas por testemunhas vivas, e a guerra civil e os conflitos atuais são consequências tangíveis do domínio colonial. O grande legado das navegações, ironicamente, é a língua portuguesa — um fio que conecta Brasil, Angola, Timor-Leste e tantos outros territórios. Mas esse fio é também uma cicatriz: a marca de um mundo que foi reordenado pela força, onde o mar, antes fronteira natural, tornou-se estrada de conquista.

O espaço e seus prometeus

Do mar, o salto é para o espaço. Régnauld e Saint-Martin, em Uma história da conquista espacial, desmontam a narrativa heroica que envolve a exploração do cosmos. O ponto de partida é chocante: as raízes nazistas da astronáutica, com engenheiros do Terceiro Reich que coordenaram programas utilizando mão de obra escravizada de campos de concentração. Após a guerra, muitos desses nazistas foram recrutados pelos Estados Unidos, e seus passados foram "magicamente apagados" para alavancar os programas espaciais da Guerra Fria.

O que se segue é a construção de uma astrocultura — uma mitologia alimentada pela ficção científica, pela idealização dos astronautas como heróis e por um discurso científico mobilizado para legitimar investimentos estatais. Em paralelo ao encantamento, porém, persiste a militarização: mísseis balísticos, satélites espiões, a disputa por supremacia orbital. E, sob o neoliberalismo, emerge o astrocapitalismo: a mercantilização do espaço por corporações como SpaceX e Blue Origin, que, vendidas como símbolos de inovação, dependem do financiamento estatal enquanto prometem mineração de asteroides e colonização de Marte. Os resultados concretos, porém, são outros: poluição luminosa, lixo orbital, especulação.

O mesmo mapa, outros nomes

O que esses três livros revelam, quando lidos em conjunto, é a persistência de um mesmo padrão. O geontopoder que transforma a terra dos aborígenes em minério é o mesmo que transforma o espaço em campo de batalha e mercado. Os navegadores portugueses que abriram rotas comerciais com o Oriente são os precursores dos astrocapitalistas que sonham com asteroides e Marte. A retórica do progresso e do heroísmo que encobriu a violência colonial é a mesma que hoje encobre as origens nazistas da tecnologia espacial e a dependência de fundos públicos das empresas privadas.

Povinelli mostra que o liberalismo tardio se organiza para conservar a acumulação de valor entre os grupos dominantes. Fatland percorre as marcas e cicatrizes de um império que foi, ele mesmo, o primeiro grande exercício dessa lógica em escala global. Régnauld e Saint-Martin nos convidam a abandonar a mitologia que cerca o espaço e a encará-lo como uma fronteira onde se reproduzem as contradições e as disputas terrenas.

Das tribos ao mar e ao espaço, o que muda são os cenários e as tecnologias. O que permanece é a estrutura: a transformação do outro em recurso, do território em propriedade, do cosmos em fronteira. A pergunta que fica, ecoando entre as páginas desses três livros, é se seremos capazes de navegar por outras rotas — rotas que não repitam, no espaço sideral, as violências que começaram na terra e se espalharam pelos oceanos.

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