SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Diante da falta de psiquiatras e psicólogos para atender a uma população com enormes necessidades de saúde mental
Alguns dias atrás, li um post de Marta Palomo Pedrola que me fez refletir. Contava a história do "Banco da Amizade" no Zimbábue. Diante da falta de psiquiatras e psicólogos para atender a uma população com enormes necessidades de saúde mental, surgiu uma ideia aparentemente simples: treinar os idosos do bairro para ouvirem aqueles que estavam sofrendo. Um banco de madeira, uma conversa e uma pessoa que escuta. Algo aparentemente simples ou normal, funcionou com grande impacto.
Ao ler a história, não pude deixar de me perguntar: como é possível que, em lugares com menos recursos, eles tenham encontrado maneiras tão criativas e humanas de acompanhar o sofrimento, enquanto continuamos lutando para quebrar o tabu da saúde mental? Uma das perguntas que mais me fazem quando dou palestras sobre saúde mental é: Como posso ajudar alguém que está passando por dificuldades? E muitas vezes acho que buscamos respostas que são complexas demais. Mas talvez não seja uma questão de dizer, e sim de ouvir.
Ao longo dos anos, desde que comecei a falar publicamente sobre minha própria experiência com depressão, muitas pessoas entraram em contato comigo. Jovens atletas que sentem uma enorme pressão, meninos e meninas que sofrem assédio ou pessoas que se sentem diferentes, incompreendidas ou simplesmente perdidas. A necessidade de que as pessoas sejam ouvidas é enorme, é vital. É coisa humana. E ao longo dos anos, o que mais percebi é a necessidade que as pessoas têm de encontrar outras com histórias semelhantes, que passaram pela mesma situação.
Não sou psicólogo, psiquiatra, nem especialista em saúde mental. Sou apenas uma pessoa que um dia decidiu falar sobre seu próprio caso e, nesse caminho, aprendi a coisa mais valiosa: ouvir. A importância de ouvir as pessoas sem julgar me ensinou a importância de transmitir confiança a elas. Porque só porque alguém te escuta não significa que concorda com suas decisões, mas significa que respeita essa pessoa.
Temos que ouvir, mas precisamos ouvir sem pressa, estar presentes, temos que ouvir sem julgar e, acima de tudo, sem tentar consertar a vida da pessoa à nossa frente.
Algumas das conversas mais importantes que tive ao longo dos anos não aconteceram em uma sala de consulta ou de reuniões. Elas aconteceram enquanto caminhava montanha, sentado sob uma árvore, em silêncio e cercado pela natureza. Não tínhamos um Banco da Amizade, mas tínhamos um espaço onde era possível diminuir o barulho do mundo e falar sem medo. Porque, para realmente ouvir, precisamos estar em ambientes silenciosos, onde as pessoas se sintam relaxadas. Ambientes de paz.
E então me pergunto se o verdadeiro problema não é a falta de recursos, mas sim a falta de tempo. Tempo de qualidade, para realmente ouvir. Hora de acompanhar e apresentar para as pessoas que temos por perto.
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