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quarta-feira, 8 de abril de 2026

"As Cerimônias do Verão" de Marta Traba.


 

Sobre a Obra e a Autora

Publicado originalmente em 1966, As Cerimônias do Verão (Las ceremonias del verano) é uma das mais importantes novelas da crítica de arte e escritora argentino-colombiana Marta Traba, considerada uma obra fundamental da literatura latino-americana do século XX. O livro foi relançado em setembro de 2021 pela Editorial Firmamento, na coleção "Firmamento", com 180 páginas.

Marta Traba (Buenos Aires, 1930 – Madrid, 1983) foi uma figura intelectual de primeira grandeza na América Latina. Hija de emigrantes galegos, cresceu no contexto da "década infame" e do "peronismo clássico" argentinos, o que forjou seu forte compromisso político desde a juventude. Estudou Filosofia e Letras na Universidade Nacional de Buenos Aires e especializou-se em História da Arte em Roma e Paris. Instalou-se na Colômbia em 1954, onde se tornou, nas palavras de Elena Poniatowska, "uma figura imprescindível em um país no qual mandavam os militares". Foi professora de História da Arte na Universidade da América, crítica de arte mais respeitada do panorama artístico colombiano e fundadora do Museu de Arte Moderna de Bogotá, ainda em atividade.

Seu legado inclui mais de vinte volumes de história e crítica de arte, inúmeros artigos, uma coleção de poemas, sete novelas e dois livros de contos. De sua obra narrativa, destacam-se As cerimônias do verão (1966, 1981; Firmamento, 2021), Os labirintos insolados (1967), Passou assim (1968), Homérica Latina (1979), Conversa ao sul (1981) e Em qualquer lugar (1984), esta última publicada postumamente. Faleceu em novembro de 1983 em Mejorada del Campo, Madrid, em um voo com destino à Colômbia, para onde viajava para assistir ao I Encontro da Cultura Hispanoamericana, convidada pelo presidente Belisario Betancur, que meses antes lhe havia concedido a nacionalidade colombiana.

O Prêmio Casa das Américas

Em 1966, As Cerimônias do Verão recebeu o Prêmio Casa das Américas, concedido por um júri de exceção composto por Alejo Carpentier, Mario Benedetti, Manuel Rojas e Juan García Ponce. O júri justificou a premiação "por sua alta qualidade literária, que considera a vez os problemas de expressão e estrutura; pela constância de seu ritmo poético, a inteligência para equilibrar as situações e o logro de uma difícil unidade de composição". Este reconhecimento colocou Traba ao lado dos grandes nomes da literatura latino-americana emergente da época.

Estrutura da Obra

O livro está organizado em quatro partes, cada uma correspondendo a um momento distinto na vida da protagonista, dos catorze aos quarenta anos. Cada seção leva o nome de um lugar que funciona como cenário e, simultaneamente, como coadjuvante da narrativa:

ParteTítuloCenárioIdade da ProtagonistaTema Central
1"Il Trovattore"Pequena cidade nos arredores de Buenos Aires14 anosAdolescência, descoberta da literatura e da vida como romance
2"Paris era uma festa"Paris20 anosJuventude, pobreza estudantil, deslumbramento cultural, desengano amoroso
3"A vermeeriana"Castelgandolfo (Itália)Jovem mãeMaternidade solteira, isolamento voluntário vs. desejo de vida apaixonante
4"Passe! Veja! Entre! ao labirinto do amor…"Cidade sem nome (Bogotá ou Nova York)40 anosMulher madura em crise, derrubada dos mitos, busca por lugar no mundo

Cada uma dessas partes funciona como "teselas independentes, mas não autônomas, de um vasto mosaico emocional". O verão, sempre presente como pano de fundo, é o fio condutor que une essas quatro estações existenciais.

Personagem Principal: Uma Ulisses-Penélope

A protagonista, cujo nome nunca é revelado, é descrita pela crítica como uma figura que "assume o papel de Ulises ao mesmo tempo que o de Penélope em suas diversas facetas". Esta dupla identidade mítica é central para a compreensão da obra:

Ulisses representa a viagem, a aventura, a busca, o deslocamento geográfico e existencial. A protagonista percorre América do Sul, Europa e América do Norte, sempre em movimento, sempre em busca de si mesma.

Penélope, por outro lado, representa a espera, a tessitura e o destecimento, a permanência, o trabalho silencioso de construção de si através da memória e da reflexão.

Esta ambivalência estrutura toda a narrativa: a personagem é simultaneamente sujeito da ação (Ulisses que viaja e enfrenta o mundo) e objeto da própria contemplação (Penélope que tece e destece sua história). Como observa uma leitora, "a protagonista umas vezes se vê desde dentro de si mesma e outras atua como narradora onisciente que tudo vê, mas sem deixar de ser ela".

Temas Centrais

1. A Subjetividade Feminina e a Construção da Identidade

O grande tema do livro é o "despliegue de su identidad como mujer" ao longo de três décadas de vida. Marta Traba empreende "um viajem tingido de ironia, lirismo e desencanto pelos abismos da subjetividade feminina". A obra retrata as quatro facetas da protagonista:

  • adolescente rebelde, leitora voraz que vive sua vida como se fosse uma novela

  • jovem desenganada pela perda amorosa, que descobre as dores do amor em Paris

  • mãe solteira que se debate entre a fuga e a autoafirmação, vivendo um isolamento voluntário na Itália

  • mulher em crise, asendereada e solitária que contempla o derrube de seus mitos e a duras penas encontra seu lugar em um mundo que lhe fechou as portas

2. Memória, Olvido e o Fluxo da Consciência

A obra é profundamente influenciada pelo fluxo de consciência joyciano. Como nota uma resenha, a narração se dá "com a rapidez própria das associações mentais e ao mesmo tempo com um tom poético". A memória e o olvido "sobrevoam constantemente a história; são vividos quiçá de forma obcecante por parte da protagonista".

A estrutura fragmentária do livro – quatro partes que não seguem uma linearidade cronológica estrita – reflete o próprio funcionamento da memória: associativa, saltitante, cheia de idas e vindas. Cada parte é um verão, um momento de viragem, um instante de calor extremo em que algo se decide ou se desfaz.

3. O Verão como Metáfora Existencial

O verão não é mero pano de fundo, mas personagem central da narrativa. As "cerimônias" do título referem-se aos rituais – amorosos, sociais, íntimos – que se desenrolam sob o calor estival. O verão representa:

  • intensidade máxima da experiência, quando tudo parece possível e, simultaneamente, prestes a se desfazer

  • exposição, o estar à mercê dos outros e de si mesma

  • passagem, a consciência de que a estação terminará e com ela aquela configuração específica da vida

4. As Cidades como Estados de Alma

Cada cidade na novela é mais do que um cenário: é um estado de alma, uma configuração específica da subjetividade. Como observa uma leitora, "as próprias cidades onde se desenvolve a ação e o calor sufocante do verão são co-protagonistas em toda a obra".

  • pequeno pueblo argentino representa a clausura e a possibilidade simultânea de sonhar com o mundo através da literatura

  • Paris é o deslumbramento cultural e a descoberta dolorosa do amor

  • Castelgandolfo (cidade italiana próxima a Roma) representa o isolamento voluntário da maternidade, a calma protetora em luta com o desejo de uma vida mais rica e apaixonante

  • cidade sem nome (Bogotá ou Nova York) representa a maturidade desencantada, o anonimato da metrópole, o reconhecimento de que se é apenas mais uma entre milhões

Aspectos Formais e Estilo

Estrutura Fragmentária e Vozes Narrativas

Um dos aspectos mais originais da obra é sua estrutura não linear. Como descreve uma resenha, "por meio de sequências fragmentárias que evocam quatro etapas na vida da protagonista". Esta fragmentação não é caótica, mas cuidadosamente orquestrada para produzir um efeito de mosaico emocional.

alternância de vozes narrativas é outro traço distintivo. A leitora do blog Los libros de Veda observa:

"O cambio de voz narradora (umas vezes em primeira pessoa e outras em terceira) me parece algo soberbo: a protagonista umas vezes se vê desde dentro de si mesma e outras atua como narradora onisciente que tudo vê, mas sem deixar de ser ela".

Esta técnica permite que a personagem seja ao mesmo tempo sujeito (quem vive a experiência) e objeto (quem observa e julga a experiência), criando uma distância reflexiva essencial para o tom de ironia e desencanto que permeia a obra.

Linguagem Poética e Referências Culturais

A prosa de Traba é descrita como "rica e elaborada", com um "estilo poético" que exige "atenção e concentração extras". A autora dialoga explicitamente com grandes nomes da literatura: "ecos de James Joyce ou Clarice Lispector" são perceptíveis ao longo da narrativa, tanto na técnica do fluxo de consciência quanto na atenção à interioridade feminina.

As referências culturais são abundantes e fazem parte da própria substância da narrativa. A protagonista é uma intelectual, uma leitora voraz, e sua visão de mundo é mediada pela literatura, pela arte, pela música. Isto não é mero ornamento, mas parte constitutiva de sua subjetividade.

Citações e Análise

Sobre a Felicidade

Uma das passagens mais citadas da obra, reproduzida por uma leitora, captura o tom filosófico e melancólico da narrativa:

"Hay que hacer con la felicidad lo mismo que los chinos con las cosas que quieren, aman y temen; no nombrarla, no darse por enterado de que existe y, sobre todo, no convertirla, o pretenderlo al menos, no convertirla en propiedad privada. En cuanto te afirmas en su posesión, sacas los papeles correspondientes de propietario y le pones, en todo tu derecho de poseedor, el pie encima, se arma un verdadero escándalo de alas, una subversión vertical de los ángeles, y el entrechocar de alas es tan irresistible y frenético que al fin ya no sabes lo que haces, te extravías, y te es revocada brutalmente la revelación".

Esta passagem revela a sabedoria desencantada da narradora madura: a felicidade não pode ser nomeada, possuída, afirmada como propriedade privada. Quando se tenta fazê-lo, "arma-se um verdadeiro escândalo de asas" e a revelação é "brutalmente revogada". É uma ética do fugidio, do não apego, do deixar-ser que contrasta com a busca ansiosa de sentido das fases anteriores da vida.

Sobre a Premiação

A citação do júri do Prêmio Casa das Américas é particularmente reveladora do que a crítica da época valorizava na obra:

"Por su alta calidad literaria, que considera a la vez los problemas de expresión y estructura; por la constancia de su ritmo poético, la inteligencia para equilibrar las situaciones y el logro de una difícil unidad de composición".

O reconhecimento da "difícil unidade de composição" é especialmente significativo: o júri percebeu que, apesar da fragmentação aparente, há uma coerência profunda na obra – uma "unidade" que não é dada, mas conquistada através do trabalho formal.

Críticas e Recepção

Críticas Positivas

1. Originalidade e Inovação Formal: A obra é reconhecida por sua coragem formal. A estrutura fragmentária, a alternância de vozes narrativas e a aposta no fluxo de consciência colocam Traba na vanguarda da narrativa latino-americana dos anos 1960, ao lado de nomes como Julio Cortázar e Clarice Lispector.

2. Profundidade Psicológica: O mergulho na subjetividade feminina é descrito como "um viajem tingido de ironia, lirismo e desencanto pelos abismos da subjetividade feminina". A obra evita tanto o melodrama quanto o distanciamento frio, encontrando um tom próprio que combina paixão e reflexão.

3. Relevância Contemporânea: O relançamento de 2021 pela Editorial Firmamento indica que a obra mantém sua força décadas após a publicação original. As questões sobre identidade feminina, liberdade, maternidade, amor e envelhecimento continuam profundamente atuais.

4. Reconhecimento do Júri: O prêmio concedido por um júri composto por Carpentiere, Benedetti, Rojas e García Ponce é um atestado da qualidade literária da obra, reconhecida por alguns dos maiores nomes da literatura latino-americana.

Críticas e Desafios de Leitura

1. Dificuldade de Acesso (Crítica Mais Frequente): A obra não é descrita como uma leitura fácil. Como observa uma leitora, "não posso dizer que seja um livro para todo o mundo nem que resulte uma leitura singela. Sua linguagem é rica e elaborada, e o estilo poético e referências culturais exigem uma atenção e concentração extras na hora de pegar o livro nas mãos". A mesma leitora admite que "me custou entrar nele (de fato, decidi aparcá-lo e começar de novo em um momento mais tranquilo a nível pessoal)".

2. Tensão entre Fragmentação e Unidade: A própria estrutura que é um ponto forte da obra pode também ser um obstáculo para alguns leitores. A "difícil unidade de composição" elogiada pelo júri pode ser percebida por outros como excessiva fragmentação ou falta de linearidade narrativa.

3. Especificidade Cultural: As referências culturais abundantes – literárias, artísticas, musicais – podem ser um obstáculo para leitores não familiarizados com o cânone europeu e latino-americano ao qual Traba dialoga constantemente.

4. Tom Melancólico: O "desencanto" que marca a última parte da novela pode ser percebido por alguns leitores como pessimismo ou derrotismo, embora para outros seja precisamente aí que reside a força da obra – na recusa de finais felizes fáceis ou de resoluções redentoras.

O Debate sobre o Lugar de Traba no Cânone

Uma crítica implícita na recepção da obra diz respeito ao lugar de Marta Traba na história literária latino-americana. Como observa a revista Las Furias, "muito antes de que García Márquez traspasasse as fronteiras, Marta Traba já havia feito ouvir sua voz". Esta observação sugere que Traba pode ter sido injustamente ofuscada pelo "boom" da literatura latino-americana protagonizado por nomes masculinos.

A redescoberta de Traba nas últimas décadas – evidenciada pelo relançamento de suas obras por editoras como Firmamento – faz parte de um movimento mais amplo de recuperação da literatura escrita por mulheres na América Latina, que por muito tempo permaneceu à margem do cânone estabelecido.

A Conexão com a Obra Crítica de Traba

É impossível ler As Cerimônias do Verão sem considerar a dupla formação de Traba como crítica de arte. Sua prosa é profundamente visual, atenta à composição, à luz, à cor. A própria estrutura da obra como "mosaico emocional" ecoa sua formação em história da arte e sua familiaridade com as artes plásticas.

A escolha dos títulos das partes também revela esta sensibilidade artística:

  • "Il Trovattore" remete à ópera de Verdi

  • "Paris era uma festa" ecoa Hemingway, mas também a Paris das vanguardas artísticas

  • "A vermeeriana" é uma referência direta ao pintor holandês Johannes Vermeer, mestre da luz e da interioridade doméstica

  • "Passe! Veja! Entre! ao labirinto do amor…" remete ao tom de feira, de espetáculo, de oferta de consumo

Esta atenção à arte não é mero adorno, mas parte da própria substância da narrativa. A protagonista vê o mundo com olhos de quem foi treinada a ver – e Traba, crítica de arte, dota sua personagem deste olhar treinado.

Avaliação Geral e Conclusão

As Cerimônias do Verão é uma obra que recompensa o leitor disposto a aceitar seu desafio formal e sua profundidade psicológica. Não é um livro para consumo rápido ou leitura descompromissada, mas uma obra que exige e merece atenção.

Pontos fortes:

  • Originalidade formal (estrutura fragmentária, alternância de vozes narrativas)

  • Profundidade na exploração da subjetividade feminina

  • Linguagem poética de alta qualidade literária

  • Diálogo sofisticado com a tradição literária (Joyce, Lispector) e artística

  • Relevância contemporânea das questões levantadas

  • Reconhecimento crítico desde sua publicação (Prêmio Casa das Américas)

Desafios:

  • Exige leitor atento e concentrado

  • Estrutura fragmentária pode desorientar inicialmente

  • Abundância de referências culturais pode ser obstáculo para alguns

  • Tom melancólico e desencantado não agrada a todos os gostos

  • Obra ainda pouco conhecida fora do circuito especializado em literatura latino-americana

Público-alvo: A obra é recomendada para leitores de literatura latino-americana, estudantes e pesquisadores de literatura, teoria feminista, estudos de gênero e história cultural. Também interessará a leitores que apreciam a prosa de Clarice Lispector, Virginia Woolf, James Joyce ou Marcel Proust.

Avaliação final: As Cerimônias do Verão é uma das mais importantes novelas de Marta Traba e uma obra fundamental da literatura latino-americana do século XX. Sua originalidade formal, sua exploração corajosa da subjetividade feminina e sua linguagem poética a colocam ao lado das melhores obras do período. A redescoberta de Traba nas últimas décadas é um fenômeno tardio, mas bem-vindo, que permite a novas gerações de leitores acessar uma voz que "muito antes de García Márquez" já havia feito ouvir sua potência literária.

A pergunta que a obra deixa – e que ressoa além de suas páginas – é se é possível, para uma mulher, construir uma identidade que não seja definida nem pela negação nem pela aceitação simples dos papéis que lhe são oferecidos. A protagonista de Traba não oferece respostas fáceis, mas sua busca – através de quatro verões, quatro cidades, quatro idades – é, ela mesma, a resposta. Nas palavras de uma leitora, "quando consegui pegar o ponto se converteu em uma viagem alucinante não só pela(s) história(s) que nos conta e pelas cidades que tão bem nos retrata, senão pelo espaço mental da narradora e pela linguagem"

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