SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 10 de maio de 2026

Feliz Dia das Mães infelizes que não tem presente! Não tem presentes. Por Egidio Guerra.

 


Sim, feliz Dias das Mães. 

Feliz Dias das Mães para as mulheres que fogem de bombas com um filho morto nos braços e outro agarrado à sua saia rasgada. 

Feliz Dias das Mães para as que trabalham dezoito horas por dia em galpões sem janelas, costurando a camisa que você veste, enquanto o próprio filho — que ela não vê há meses — dorme sozinho num canto úmido, com fome. 

Feliz Dias das Mães para as que enterraram seus bebês em valas comuns porque não tinham dinheiro para um caixão. 

Feliz Dias das Mães para as que o mundo chama de "migrantes", "refugiadas", "carentes", "vulneráveis" — palavras macias que nos ajudam a dormir à noite, porque disfarçam a verdade que não queremos encarar. 

A verdade é que preferimos esquecer essas mães. 

Preferimos esquecer que elas existem. Preferimos que seus rostos não apareçam no nosso feed de notícias. Preferimos que seus filhos mortos sejam apenas mais um número — frio, asséptico, confortavelmente distante. 

Preferimos esquecer suas histórias porque, se lembrássemos, teríamos que parar de comemorar. 

Este é um texto de revolta. 
Esta é uma homenagem que deveria doer. 
Este é um tiro no meio do nosso silêncio cúmplice. 

Ensinam que a maternidade, quando esmagada pela violência, não se reduz ao choro passivo. Existe uma fúria materna que a história insiste em apagar — porque uma mãe furiosa, uma mãe que luta, uma mãe que pega em armas contra o que está matando seus filhos, é muito mais perigosa para o poder do que mil manifestantes. O poder prefere a mãe que chora. A mãe que chora é inofensiva. A mãe que luta é subversiva. 

Quantas mães estão em luta agora, neste exato momento, em Gaza, em Darfur, na Ucrânia, em Mianmar? 
Quantas delas a mídia chama de "terroristas" quando pegam em armas para defender o que resta de seus filhos? 

Existe uma hierarquia do sofrimento. 
Existem vidas que importam mais. 
Existem mortes que contam. 
Existem mães que merecem luto coletivo — e outras que merecem apenas uma nota de rodapé na história. 

Mães sem Presente, sem Presentes — mas com Todo o Amor 

Término onde tudo começou. No grito sufocado. No rosto que a câmera não mostra. Na mãe que o mundo insiste em esquecer. 

Elas não recebem flores no segundo domingo de maio. 

Não recebem caixas embrulhadas com laços de fita. Não recebem jantares em restaurantes caros. Não recebem mensagens bonitas no aplicativo, com corações e balões coloridos. 

Elas não têm presente. Não têm presentes. 

O presente delas é a fila do auxílio emergencial que nunca chega. 
O presente delas é o silêncio do quarto vazio onde dormia um filho que não voltou. 
O presente delas é o galpão sem janelas onde a máquina de costura traga o dia inteiro. 
O presente delas é a fronteira fechada, o visto negado, a mão estendida que ninguém aperta. 
O presente delas é a espera. A espera de um cessar-fogo. A espera de um documento. A espera de um milagre. 

Não têm presentes, essas mães. 

Mas têm algo que o mundo da mercadoria, da guerra e do lucro nunca conseguirá comprar, nunca conseguirá apagar, nunca conseguirá derrotar: 

Têm amor. 

Um amor que desafia a lógica do capital. Um amor que não se mede em reais, dólares ou euros. Um amor que resiste onde tudo parece desmoronar. 

É o amor da mãe síria que divide o último pedaço de pão com o filho e fica com fome ela mesma. 
É o amor da mãe palestina que cobre o corpo do filho com o seu próprio — porque, se a bomba cair, que caia primeiro nela. 
É o amor da mãe ucraniana que caminha quilômetros sob bombardeio para encontrar água quente para o bebê. 
É o amor da mãe sudanesa que esconde o filho num poço seco e espera, horas e horas, até que o perigo passe — e depois volta para buscá-lo, mesmo que as pernas já não queiram andar. 
É o amor da mãe brasileira da periferia que acorda antes do sol para preparar a mochila do filho, mesmo sabendo que ele pode não voltar da escola — ou pode não voltar da esquina. 

Esse amor não aparece no PIB. 
Esse amor não é notícia de jornal. 
Esse amor não dá ibope. 
Esse amor não é commodity. 

Mas esse amor é a única coisa que ainda mantém este mundo de pé. 

O Deus dos Excluídos, dos Escravos, dos Imigrantes 

Essas mães acreditam. 

Acreditam num Deus que o mundo rico não conhece. Não no Deus dos púlpitos dourados, das igrejas vazias, das bênçãos pagas, dos pastores que pilotam jatinhos. 

Elas acreditam no Deus dos excluídos. 

O Deus que caminhou com o povo hebreu no deserto — quarenta anos de fome, sede e areia, mas nunca de abandono. 
O Deus que ouviu o clamor dos escravos no Egito e disse: "Eu vi a aflição do meu povo. Desci para libertá-lo." 
O Deus que escolheu nascer numa estrebaria — porque os pobres, os sem-teto, os imigrantes, esses são os primeiros no seu reino, não os últimos. 
O Deus que morreu como escravo — condenado por um império, pregado numa cruz, crucificado entre dois ladrões, porque o poder dos poderosos sempre teme aqueles que anunciam um mundo diferente. 

Esse Deus está com elas. 

Quando uma mãe chora a morte do filho no IML, esse Deus chora junto. 
Quando uma mãe foge de uma guerra com um bebê nas costas, esse Deus foge com ela — não de longe, não como espectador distante, mas na carne da migração, na humilhação da fronteira, no medo do soldado que pode separar sua família. 
Quando uma mãe desmaia de cansaço na linha de produção da fábrica têxtil, esse Deus está ali — exausto também, explorado também, invisível também. 

O Deus das mães refugiadas não é o Deus das nações ricas. 
É o Deus dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-documentos. 
É o Deus que não pede comprovante de renda para amar. 
É o Deus que não exige visto de entrada para acolher. 

A Vida Insiste 

E há mais uma coisa que essas mães têm, e que o sistema de morte jamais conseguirá extinguir: 

Têm a vida. 

Não a vida higienizada do comercial de margarina. Não a vida do cupom de desconto. Não a vida do financiamento da casa própria. 

A vida crua. A vida que insiste mesmo quando tudo diz que é melhor desistir. 

A vida que faz uma mãe, mesmo depois de enterrar um filho, levantar-se no dia seguinte para cuidar do outro — porque o outro ainda precisa. 

A vida que faz uma mãe, mesmo depois de perder tudo numa guerra, plantar uma semente num pedaço de terra estéril — porque a semente é promessa, e promessa é futuro. 

A vida que faz uma mãe, mesmo depois de ser humilhada na fronteira, de ter o pedido de asilo negado, de ser tratada como "ilegal", ainda assim acordar e dizer: "Hoje eu vou tentar de novo." 

Essa vida é teimosa. 
Essa vida é subversiva. 
Essa vida é exatamente aquilo que o capitalismo e a guerra tentam matar — e não conseguem. 

O que Podemos Fazer? Uma Herança Possível 

Não basta a revolta. Não basta a indignação. A revolta que não se traduz em ação é apenas mais um espetáculo — o espetáculo da nossa própria consciência pesada. 

A resposta, aplicada a estas mães, é esta: 

1. Nomeá-las. 

Pare de falar em "refugiadas", "vulneráveis", "migrantes". Diga: Fátima, Maria, Nádia, Amina, Joana, Conceição, Mireille, Maria. Se não sabe o nome, pergunte. Se não pode perguntar, invente um espaço onde possa. O ato de nomear é o primeiro ato de reconhecimento. 

2. Vê-las — realmente vê-las. 

Demore-se sobre os rostos. Recuse o scroll infinito. Recuse o vídeo de quinze segundos. Se uma imagem de uma mãe refugiada cruzar seu caminho, pare. Olhe. Pergunte: quem é essa mulher? O que ela está sentindo agora? O que ela perdeu? O que ela ainda espera? 

3. Acreditar nelas. 

Quando uma mãe diz que seu filho foi morto pela polícia, acredite. Quando uma mãe diz que a fábrica não paga o salário, acredite. Quando uma mãe diz que a fronteira a humilhou, acredite. O mundo já as ignora demais. Não acrescente sua dúvida à lista de violências. 

4. Organizar-se com elas. 

Não basta "ajudar". Ajuda é assimétrica — alguém que tem dá a alguém que não tem. O que essas mães precisam não é de esmola. Precisam de poder. Precisam de voz. Precisam de organização. Apoie coletivos de mães. Doe para organizações lideradas por refugiadas. Amplifique suas pautas. E, quando elas disserem o que precisam, faça o possível para atender — não o que você acha que elas precisam, mas o que elas dizem que precisam. 

5. Exigir justiça, não caridade. 

Caridade é o que o sistema permite quando não quer mudar. "Vamos doar cobertores para os refugiados" — sim, cobertores são necessários, mas os refugiados não precisam apenas de cobertores. Precisam que as guerras acabem. Precisam de vistos. Precisam de trabalho digno. Precisam que as empresas que financiam os conflitos sejam responsabilizadas. A caridade trata o sintoma. A justiça trata a causa. 

6. Contar a história que elas não podem contar. 

Você tem privilégios que elas não têm. Use-os. Escreva. Publique. Compartilhe. Denuncie. Faça barulho. Seu papel não é falar por elas — é criar espaço para que elas falem, e amplificar o que elas dizem quando ninguém quer ouvir. 

Palavra Final: O Legado 

Herdar uma coragem é encontrar as fissuras no presente, os lugares por onde uma política da dignidade ainda podem passar. 

As mães refugiadas, as mães pobres, as mães escravizadas, as mães que perderam filhos — elas são essas fissuras. 

Elas são o lugar onde o mundo falhou — mas também o lugar onde o mundo pode recomeçar. 

Porque cada mãe que resiste, mesmo sem nada, mesmo sem esperança aparente, está dizendo ao sistema: você não vai vencer. Você não vai me transformar em figurante da minha própria dor. Eu existo. Eu luto. Eu amo. 

Não lhes damos presentes. 
Não lhes damos o segundo domingo de maio. 
Não lhes damos as manchetes dos jornais. 

Mas elas nos dão algo que não merecemos: 

Elas nos dão o exemplo de um amor que não se rende. 
Elas nos dão a lição de uma fé que não negocia com os poderosos. 
Elas nos dão a chance — ainda, sempre, teimosamente — de reconstruir este mundo sobre outras bases. 

Não as bonecas de pano que se abraça num domingo de maio para aliviar a própria consciência. 

Elas são as mães reais. As mães de carne, osso e lágrima. As mães que o mundo prefere esquecer. 

Nós não vamos esquecer. 

Que o Deus dos excluídos, dos escravos, dos imigrantes — o Deus que nenhuma fronteira pode parar, que nenhuma bomba pode matar, que nenhum sistema de produção pode engolir — tenha misericórdia de nós. 

E que nós, ainda a tempo, nos tornemos dignos do amor que elas continuam dando. 

Ainda que sem presentes. Ainda que sem presente. 

Mas com toda a vida. Com todo o amor. Com toda a fé – daquelas que movem montes de entulho, de escombros, de indiferença. 

 

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