O ano de 2026 encontra a política mundial mergulhada em um paradoxo profundo. Em muitos países, as próprias instituições que deveriam reduzir a desconfiança popular passaram a ser objeto de suspeita e contestação, e os cidadãos já não se percebem mais como parte de uma totalidade a partir da qual possam discordar dentro de um horizonte compartilhado de tolerância. A democracia segue operando formalmente, mas perdeu a aptidão para organizar expectativas sociais e sustentar um horizonte inteligível de futuro. Não por acaso, quase um quarto das nações do mundo enfrenta retrocesso democrático ou autocratização em 2025, e seis dos dez países que iniciaram esse processo estão na Europa e América do Norte——regiões antes consideradas bastiões da democracia.
Nesse cenário, a obra do filósofo italiano Roberto Esposito oferece ferramentas indispensáveis para diagnosticar o que os partidos e políticos contemporâneos parecem ter esquecido: uma verdadeira política que não se confunde com a gestão tecnocrática, com a teologia política da soberania ou com a despolitização gerencial que corrói a democracia por dentro. São quatro os livros que iluminam esse caminho——Categorias do Impolítico, Terceira Pessoa, Comunitas e Bios que nos permitem compreender por que a política de 2026 se encontra tão empobrecida e quais alternativas permanecem ignoradas.
O impolítico: a política no seu limite exterior
Publicado originalmente em 1988, Categorias do Impolítico constrói sua noção central a partir do esgotamento das categorias políticas modernas, que se tornaram incapazes de dar voz a perspectivas genuinamente radicais. O impolítico não é o oposto do político, mas o seu limite exterior: a borda a partir da qual podemos vislumbrar uma trajetória longe da teologia política e das tendências despolitizantes da modernidade.
Em 2026, esse diagnóstico revela toda a sua atualidade. O debate político contemporâneo permanece prisioneiro de uma gramática que identifica a ameaça à democracia prioritariamente com cenários de ruptura explícita, mobilizações extremas ou tentativas abertas de subversão institucional——como se a instabilidade democrática ainda se manifestasse apenas por golpes clássicos ou quebras formais da ordem constitucional.
No entanto, como assinala Esposito, a verdadeira crise reside na impossibilidade mesma de representação da realidade política, na afasia da linguagem política contemporânea, na dificuldade das categorias modernas de darem conta do real. O impolítico constitui, assim, um convite a pensar a política para além da soberania, recusando tanto as formas da teologia política quanto os paradigmas constituintes e destituinte que perderam sua capacidade analítica e propositiva.
Esse esquecimento do impolítico pelos partidos tradicionais explica a ascensão de fenômenos que os cientistas políticos têm chamado de “antipolítica”. O que se observa em 2026 não é apenas uma crise de confiança, mas a transformação do desencanto cotidiano em antipolítica, a substituição do conflito social pela gestão tecnocrática e a naturalização de uma transição antidemocrática sem ruptura formal. A política tornou-se mera administração da frustração, e as eleições, antes instrumentos de transformação, são percebidas como mecanismos lentos de gestão burocrática.
A ascensão da direita radical em toda a Europa em 2026 corrobora esse diagnóstico. Na Dinamarca, a eleição geral de março de 2026 deixou o país num momento político crítico, “marcado por blocos fragmentados, o ressurgimento da direita radical populista e renovadas tensões geopolíticas”. A União Europeia assiste a um avanço populista sem precedentes, com mais de 400 milhões de eleitores convocados para eleições parlamentares nas quais as forças de ruptura buscam um avanço histórico. Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato de 2026 são descritas como um “teste crítico” para a democracia americana, com o país experimentando um declínio “sem precedentes”.
O que unifica esses fenômenos——de Bolsonaro a Trump, de Meloni aos populistas europeus——não é simplesmente um movimento autoritário, mas a exploração do vazio deixado pelo esgotamento das categorias políticas modernas, que Esposito já havia identificado.
A falácia da pessoa e a política do impessoal
Em Terceira Pessoa: Política da Vida e Filosofia do Impessoal, Esposito formula uma tese radical e provocadora: o triunfo da categoria de “pessoa” que acompanhou o discurso dos direitos humanos desde a Declaração Universal de 1948 não é a fonte de seu sucesso, mas de seu fracasso. A noção de pessoa, cujas origens duais remontam ao direito romano e ao cristianismo, é incapaz de superar a lacuna entre humanidade e cidadania porque é precisamente o que cria essa cisão.
O efeito primário do dispositivo da pessoa é separar o ser humano entre uma parte racional, voluntária e dotada de valor, e outra parte puramente biológica que a primeira empurra para a dimensão inferior do animal ou da coisa. Em lugar da pessoa, Esposito propõe a perspectiva impessoal da “terceira pessoa”, que, ao remover-se do mecanismo excludente da pessoa, aponta para a unidade originária do vivente.
Essa crítica é extraordinariamente relevante para compreender a política de 2026. Os discursos políticos contemporâneos——tanto de direita quanto de esquerda——permanecem profundamente ancorados na retórica da pessoa como sujeito de direitos, como identidade a ser protegida ou como vítima a ser resgatada.
No entanto, como mostra Esposito, essa gramática pessoal produz exatamente o oposto do que promete. No Brasil, pesquisas sucessivas do World Values Survey indicam que apenas cerca de 7% dos brasileiros afirmam que “a maioria das pessoas é confiável”, enquanto a imensa maioria declara que é preciso ter muito cuidado ao lidar com os outros. Em sociedades do norte da Europa, essa proporção frequentemente ultrapassa 60%. O “povo” invocado por políticos populistas não existe como sujeito unificado——é uma ficção produzida pelo próprio discurso da pessoa, que separa, hierarquiza e exclui.
A política do impessoal, ao contrário, aponta para aquilo que nos une para além das identidades e das pertenças pessoais: a própria condição de vida compartilhada, a vulnerabilidade comum, a exposição mútua. O Relatório de Segurança de Munique de 2026 diagnostica precisamente essa questão ao analisar as consequências de longo alcance do avanço de forças políticas que preferem a destruição à reforma, cujas agendas disruptivas se baseiam no amplo desencanto com o desempenho das instituições democráticas e numa perda generalizada da confiança em reformas significativas.
Esse desencanto, no entanto, não é meramente irracional. Ele reflete aquilo que o cientista político Christian Lynch aponta como a ausência de um horizonte comum de pertencimento no Brasil——o país nunca logrou forjar uma confiança generalizada porque nunca construiu uma base social efetivamente compartilhada. “O brasileiro é um povo muito sociável, mas pouco social”, resume ele. Não se trata de uma confiança que se perdeu, mas de uma confiança que provavelmente nunca chegou a existir de forma generalizada.
A política do impessoal——que convida a pensar a partir da terceira pessoa, do neutro, do fora, do evento——oferece um caminho para superar essa ausência, apostando na unidade originária do vivente antes de sua fragmentação em pessoas, cidadãos, eleitores ou consumidores.
O paradoxo da política de direitos humanos em 2026 é eloquente: quanto mais se afirmar a pessoa, mais se aprofunda a exclusão. Tal como Esposito demonstra ao analisar a linguagem nazista, que reduzia seres humanos a peças, material humano e partes substituíveis——uma lição que ressoa nas políticas migratórias contemporâneas, nos tratamentos dos refugiados como números e nas retóricas que desumanizam o outro.
A verdadeira política que os partidos esqueceram não é aquela que celebra a pessoa abstrata, mas aquela que parte da condição impessoal do vivente como fundamento de uma comunidade possível.
Comunitas: a comunidade como dívida e não como propriedade
Em Comunitas: Origem e Destino da Comunidade, publicado originalmente em 1998, Esposito opera uma inversão radical das interpretações correntes do conceito de comunidade. A comunidade não é uma propriedade, uma plenitude, um território que se deve defender e separar daqueles que não fazem parte dela, mas sim um vazio, uma dívida, um dom (“múnus”, em latim) em relação aos outros, que nos remete à nossa constitutiva alteridade——também em relação a nós mesmos. A comunidade não é aquilo que possuímos, mas aquilo que nos falta, aquilo a que estamos expostos e obrigados.
Essa concepção contraria frontalmente o que Esposito chama de “comunitarismo” ——seja ele americano, europeu ou de qualquer outra vertente——que olha nostalgicamente para pequenas pátrias que devem ser defendidas contra o estrangeiro. Em 2026, essa nostalgia é uma das forças políticas mais poderosas em ação. No Brasil, a polarização entre lulismo e bolsonarismo não se resume a uma mera disputa programática: representa projetos antagônicos de Estado, economia e democracia, mas ambos operam dentro de uma lógica que define comunidade a partir da exclusão do outro. Enquanto o discurso bolsonarista constrói uma comunidade dos “patriotas” contra o “sistema” e o “globalismo”, o discurso lulista mobiliza uma comunidade dos “pobres” e “trabalhadores” contra os “privilegiados” e a “elite”. Em ambos os casos, a comunidade é concebida como uma propriedade ou um território a ser defendido——justamente o que Esposito recusa.
O mesmo padrão se repete globalmente. A ascensão da direita radical em toda a Europa apoia-se numa retórica de defesa da identidade nacional, da “cultura europeia” ou da “civilização ocidental” contra migrantes, minorias e valores supostamente estrangeiros. Nos Estados Unidos, o Relatório de Democracia V-Dem de 2026 documenta como a erosão democrática está associada a discursos que definem a nação como uma comunidade substancial a ser purificada——uma “comunidade imunizada”, no jargão de Esposito, que se protege expelindo aquilo que considera um corpo estranho.
A verdadeira comunidade, para Esposito, é o exato oposto: é o reconhecimento de que somos constitutivamente expostos aos outros, de que não há sujeito completo e autossuficiente, de que a comunidade não nos completa, mas nos mantém abertos, devedores, em falta. Essa ideia encontra eco no conceito de biopolítica afirmativa que Esposito desenvolve em Bios: uma política da vida, e não uma política de dominação e negação da vida, que responde ao paradigma imunitário letal que caracteriza a modernidade.
O Relatório da Sociedade Civil de 2026, publicado pelo CIVICUS, documenta um mundo onde [o poder não responsabilizado está na ofensiva, estados poderosos desmantelam a ordem internacional baseada em regras, e a impunidade se normaliza em conflitos ao redor do globo. O que falta, sugere a leitura esposiana, não é mais poder ou mais proteção, mas o reconhecimento da nossa comum vulnerabilidade e exposição. A verdadeira política esquecida seria aquela que, em vez de tentar imunizar a comunidade contra a alteridade, assume a dívida constitutiva que temos uns para com os outros.
A política da vida contra a política da morte
A conclusão que emerge da trilogia esposiana é clara: a verdadeira política que os partidos e políticos esqueceram em 2026 é uma política que se situa no entremeio do impolítico, do impessoal e da comunidade como falta. Não é uma política que promete preencher o vazio com identidades, narrativas ou programas; é uma política que aceita o vazio como constitutivo e dele extrai a possibilidade de uma ação que não se curva nem à teologia política (que diviniza o poder) nem à despolitização tecnocrática (que o esvazia de sentido).
As forças que hoje dominam o cenário político mundial——do bolsonarismo ao trumpismo, dos populistas europeus aos nacionalistas asiáticos——oferecem o oposto: promessas de plenitude, de comunidade como propriedade, de pessoa como identidade a ser protegida. O Relatório de Segurança de Munique capta bem esse fenômeno ao descrever o avanço de forças políticas que preferem a destruição à reforma, alimentando-se do desencanto com o desempenho das instituições democráticas e de uma pervasiva perda de confiança em reformas e correções de curso significativas. Suas agendas disruptivas exploram o cansaço das categorias políticas modernas, mas não oferecem alternativa——apenas o aprofundamento do ciclo que Esposito denunciou.
O que falta, portanto, não são novas promessas ou novas identidades, mas a coragem política de aceitar o impolítico como horizonte: não uma política contra a política, mas uma política que se sabe no limite, na borda, na exposição. Como ressalta um artigo acadêmico recente sobre a categoria do impolítico em Esposito, sua análise demonstra a relação profunda entre o impolítico e o “das Politische” (a essência do político), indicando que a crise contemporânea não é acidental, mas estrutural——e que respostas genuinamente radicais só podem surgir no reconhecimento desse esgotamento.
Em 2026, a política que os partidos e políticos esqueceram——ou nunca conheceram——é aquela que, ao invés de negar o conflito, o assume como a única realidade da política; que, ao invés de buscar representações transcendentais, opera na imanência dos corpos e da vida; que, ao invés de fechar a comunidade sobre si mesma, a mantém aberta como dívida e dom.
Conclusão: Por uma política da exposição
A obra de Roberto Esposito não oferece soluções fáceis——e isso já a torna antipática ao gosto político contemporâneo, que exige propostas concretas e mensuráveis, como se a política pudesse ser reduzida a um conjunto de indicadores. No entanto, sua contribuição é mais fundamental: ela nos ajuda a compreender por que, mesmo com eleições regulares, parlamentos funcionando e índices macroeconômicos positivos, a política contemporânea produz desencanto generalizado.
A crise democrática de 2026——seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outra região——não é uma crise de procedimentos, mas uma crise de sentido. Os partidos e políticos que ocupam as instituições operam com categorias gastas, incapazes de dar voz a qualquer perspectiva genuinamente radical, no sentido etimológico do termo (que retorna às raízes). Enquanto isso, o espaço político é preenchido por movimentos que exploram o vazio com promessas de plenitude——comunidade como propriedade, pessoa como identidade, política como imunização.
A verdadeira política que foi esquecida é aquela que Esposito recupera: uma política que não tem medo do vazio, que não busca preencher a falta com representações transcendentais, que aceita a exposição aos outros como condição fundamental. Uma política que, ao invés de prometer resolver todos os conflitos, aprende a viver com eles como constitutivos. Uma política que, ao invés de insistir na pessoa abstrata, parte da vida comum como horizonte.
Talvez seja tarde demais para que as eleições de outubro de 2026——no Brasil e em outros países——possam resgatar essa política esquecida. Mas não é tarde demais para que o pensamento, a crítica e o ativismo intelectual comecem a abrir as brechas por onde ela possa um dia retornar. Como alerta o cientista político Fernando Abrucio, o problema maior em 2026 não está apenas nos golpistas explícitos, mas “no silêncio ou aquiescência de boa parte da sociedade frente ao golpismo continuado e travestido de anistia”. O silêncio, para Esposito, é também uma categoria do impolítico——um silêncio que não é ausência de política, mas a borda a partir da qual uma nova política pode ser vislumbrada. Que 2026 seja o ano em que esse silêncio se torne fala.
O ano de 2026 encontra a política mundial mergulhada em um paradoxo profundo. Em muitos países, as próprias instituições que deveriam reduzir a desconfiança popular passaram a ser objeto de suspeita e contestação, e os cidadãos já não se percebem mais como parte de uma totalidade a partir da qual possam discordar dentro de um horizonte compartilhado de tolerância. A democracia segue operando formalmente, mas perdeu a aptidão para organizar expectativas sociais e sustentar um horizonte inteligível de futuro. Não por acaso, quase um quarto das nações do mundo enfrenta retrocesso democrático ou autocratização em 2025, e seis dos dez países que iniciaram esse processo estão na Europa e América do Norte——regiões antes consideradas bastiões da democracia.
Nesse cenário, a obra do filósofo italiano Roberto Esposito oferece ferramentas indispensáveis para diagnosticar o que os partidos e políticos contemporâneos parecem ter esquecido: uma verdadeira política que não se confunde com a gestão tecnocrática, com a teologia política da soberania ou com a despolitização gerencial que corrói a democracia por dentro. São quatro os livros que iluminam esse caminho——Categorias do Impolítico, Terceira Pessoa, Comunitas e Bios que nos permitem compreender por que a política de 2026 se encontra tão empobrecida e quais alternativas permanecem ignoradas.
O impolítico: a política no seu limite exterior
Publicado originalmente em 1988, Categorias do Impolítico constrói sua noção central a partir do esgotamento das categorias políticas modernas, que se tornaram incapazes de dar voz a perspectivas genuinamente radicais. O impolítico não é o oposto do político, mas o seu limite exterior: a borda a partir da qual podemos vislumbrar uma trajetória longe da teologia política e das tendências despolitizantes da modernidade.
Em 2026, esse diagnóstico revela toda a sua atualidade. O debate político contemporâneo permanece prisioneiro de uma gramática que identifica a ameaça à democracia prioritariamente com cenários de ruptura explícita, mobilizações extremas ou tentativas abertas de subversão institucional——como se a instabilidade democrática ainda se manifestasse apenas por golpes clássicos ou quebras formais da ordem constitucional.
No entanto, como assinala Esposito, a verdadeira crise reside na impossibilidade mesma de representação da realidade política, na afasia da linguagem política contemporânea, na dificuldade das categorias modernas de darem conta do real. O impolítico constitui, assim, um convite a pensar a política para além da soberania, recusando tanto as formas da teologia política quanto os paradigmas constituintes e destituinte que perderam sua capacidade analítica e propositiva.
Esse esquecimento do impolítico pelos partidos tradicionais explica a ascensão de fenômenos que os cientistas políticos têm chamado de “antipolítica”. O que se observa em 2026 não é apenas uma crise de confiança, mas a transformação do desencanto cotidiano em antipolítica, a substituição do conflito social pela gestão tecnocrática e a naturalização de uma transição antidemocrática sem ruptura formal. A política tornou-se mera administração da frustração, e as eleições, antes instrumentos de transformação, são percebidas como mecanismos lentos de gestão burocrática.
A ascensão da direita radical em toda a Europa em 2026 corrobora esse diagnóstico. Na Dinamarca, a eleição geral de março de 2026 deixou o país num momento político crítico, “marcado por blocos fragmentados, o ressurgimento da direita radical populista e renovadas tensões geopolíticas”. A União Europeia assiste a um avanço populista sem precedentes, com mais de 400 milhões de eleitores convocados para eleições parlamentares nas quais as forças de ruptura buscam um avanço histórico. Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato de 2026 são descritas como um “teste crítico” para a democracia americana, com o país experimentando um declínio “sem precedentes”.
O que unifica esses fenômenos——de Bolsonaro a Trump, de Meloni aos populistas europeus——não é simplesmente um movimento autoritário, mas a exploração do vazio deixado pelo esgotamento das categorias políticas modernas, que Esposito já havia identificado.
A falácia da pessoa e a política do impessoal
Em Terceira Pessoa: Política da Vida e Filosofia do Impessoal, Esposito formula uma tese radical e provocadora: o triunfo da categoria de “pessoa” que acompanhou o discurso dos direitos humanos desde a Declaração Universal de 1948 não é a fonte de seu sucesso, mas de seu fracasso. A noção de pessoa, cujas origens duais remontam ao direito romano e ao cristianismo, é incapaz de superar a lacuna entre humanidade e cidadania porque é precisamente o que cria essa cisão.
O efeito primário do dispositivo da pessoa é separar o ser humano entre uma parte racional, voluntária e dotada de valor, e outra parte puramente biológica que a primeira empurra para a dimensão inferior do animal ou da coisa. Em lugar da pessoa, Esposito propõe a perspectiva impessoal da “terceira pessoa”, que, ao remover-se do mecanismo excludente da pessoa, aponta para a unidade originária do vivente.
Essa crítica é extraordinariamente relevante para compreender a política de 2026. Os discursos políticos contemporâneos——tanto de direita quanto de esquerda——permanecem profundamente ancorados na retórica da pessoa como sujeito de direitos, como identidade a ser protegida ou como vítima a ser resgatada.
No entanto, como mostra Esposito, essa gramática pessoal produz exatamente o oposto do que promete. No Brasil, pesquisas sucessivas do World Values Survey indicam que apenas cerca de 7% dos brasileiros afirmam que “a maioria das pessoas é confiável”, enquanto a imensa maioria declara que é preciso ter muito cuidado ao lidar com os outros. Em sociedades do norte da Europa, essa proporção frequentemente ultrapassa 60%. O “povo” invocado por políticos populistas não existe como sujeito unificado——é uma ficção produzida pelo próprio discurso da pessoa, que separa, hierarquiza e exclui.
A política do impessoal, ao contrário, aponta para aquilo que nos une para além das identidades e das pertenças pessoais: a própria condição de vida compartilhada, a vulnerabilidade comum, a exposição mútua. O Relatório de Segurança de Munique de 2026 diagnostica precisamente essa questão ao analisar as consequências de longo alcance do avanço de forças políticas que preferem a destruição à reforma, cujas agendas disruptivas se baseiam no amplo desencanto com o desempenho das instituições democráticas e numa perda generalizada da confiança em reformas significativas.
Esse desencanto, no entanto, não é meramente irracional. Ele reflete aquilo que o cientista político Christian Lynch aponta como a ausência de um horizonte comum de pertencimento no Brasil——o país nunca logrou forjar uma confiança generalizada porque nunca construiu uma base social efetivamente compartilhada. “O brasileiro é um povo muito sociável, mas pouco social”, resume ele. Não se trata de uma confiança que se perdeu, mas de uma confiança que provavelmente nunca chegou a existir de forma generalizada.
A política do impessoal——que convida a pensar a partir da terceira pessoa, do neutro, do fora, do evento——oferece um caminho para superar essa ausência, apostando na unidade originária do vivente antes de sua fragmentação em pessoas, cidadãos, eleitores ou consumidores.
O paradoxo da política de direitos humanos em 2026 é eloquente: quanto mais se afirmar a pessoa, mais se aprofunda a exclusão. Tal como Esposito demonstra ao analisar a linguagem nazista, que reduzia seres humanos a peças, material humano e partes substituíveis——uma lição que ressoa nas políticas migratórias contemporâneas, nos tratamentos dos refugiados como números e nas retóricas que desumanizam o outro.
A verdadeira política que os partidos esqueceram não é aquela que celebra a pessoa abstrata, mas aquela que parte da condição impessoal do vivente como fundamento de uma comunidade possível.
Comunitas: a comunidade como dívida e não como propriedade
Em Comunitas: Origem e Destino da Comunidade, publicado originalmente em 1998, Esposito opera uma inversão radical das interpretações correntes do conceito de comunidade. A comunidade não é uma propriedade, uma plenitude, um território que se deve defender e separar daqueles que não fazem parte dela, mas sim um vazio, uma dívida, um dom (“múnus”, em latim) em relação aos outros, que nos remete à nossa constitutiva alteridade——também em relação a nós mesmos. A comunidade não é aquilo que possuímos, mas aquilo que nos falta, aquilo a que estamos expostos e obrigados.
Essa concepção contraria frontalmente o que Esposito chama de “comunitarismo” ——seja ele americano, europeu ou de qualquer outra vertente——que olha nostalgicamente para pequenas pátrias que devem ser defendidas contra o estrangeiro. Em 2026, essa nostalgia é uma das forças políticas mais poderosas em ação. No Brasil, a polarização entre lulismo e bolsonarismo não se resume a uma mera disputa programática: representa projetos antagônicos de Estado, economia e democracia, mas ambos operam dentro de uma lógica que define comunidade a partir da exclusão do outro. Enquanto o discurso bolsonarista constrói uma comunidade dos “patriotas” contra o “sistema” e o “globalismo”, o discurso lulista mobiliza uma comunidade dos “pobres” e “trabalhadores” contra os “privilegiados” e a “elite”. Em ambos os casos, a comunidade é concebida como uma propriedade ou um território a ser defendido——justamente o que Esposito recusa.
O mesmo padrão se repete globalmente. A ascensão da direita radical em toda a Europa apoia-se numa retórica de defesa da identidade nacional, da “cultura europeia” ou da “civilização ocidental” contra migrantes, minorias e valores supostamente estrangeiros. Nos Estados Unidos, o Relatório de Democracia V-Dem de 2026 documenta como a erosão democrática está associada a discursos que definem a nação como uma comunidade substancial a ser purificada——uma “comunidade imunizada”, no jargão de Esposito, que se protege expelindo aquilo que considera um corpo estranho.
A verdadeira comunidade, para Esposito, é o exato oposto: é o reconhecimento de que somos constitutivamente expostos aos outros, de que não há sujeito completo e autossuficiente, de que a comunidade não nos completa, mas nos mantém abertos, devedores, em falta. Essa ideia encontra eco no conceito de biopolítica afirmativa que Esposito desenvolve em Bios: uma política da vida, e não uma política de dominação e negação da vida, que responde ao paradigma imunitário letal que caracteriza a modernidade.
O Relatório da Sociedade Civil de 2026, publicado pelo CIVICUS, documenta um mundo onde [o poder não responsabilizado está na ofensiva, estados poderosos desmantelam a ordem internacional baseada em regras, e a impunidade se normaliza em conflitos ao redor do globo. O que falta, sugere a leitura esposiana, não é mais poder ou mais proteção, mas o reconhecimento da nossa comum vulnerabilidade e exposição. A verdadeira política esquecida seria aquela que, em vez de tentar imunizar a comunidade contra a alteridade, assume a dívida constitutiva que temos uns para com os outros.
A política da vida contra a política da morte
A conclusão que emerge da trilogia esposiana é clara: a verdadeira política que os partidos e políticos esqueceram em 2026 é uma política que se situa no entremeio do impolítico, do impessoal e da comunidade como falta. Não é uma política que promete preencher o vazio com identidades, narrativas ou programas; é uma política que aceita o vazio como constitutivo e dele extrai a possibilidade de uma ação que não se curva nem à teologia política (que diviniza o poder) nem à despolitização tecnocrática (que o esvazia de sentido).
As forças que hoje dominam o cenário político mundial——do bolsonarismo ao trumpismo, dos populistas europeus aos nacionalistas asiáticos——oferecem o oposto: promessas de plenitude, de comunidade como propriedade, de pessoa como identidade a ser protegida. O Relatório de Segurança de Munique capta bem esse fenômeno ao descrever o avanço de forças políticas que preferem a destruição à reforma, alimentando-se do desencanto com o desempenho das instituições democráticas e de uma pervasiva perda de confiança em reformas e correções de curso significativas. Suas agendas disruptivas exploram o cansaço das categorias políticas modernas, mas não oferecem alternativa——apenas o aprofundamento do ciclo que Esposito denunciou.
O que falta, portanto, não são novas promessas ou novas identidades, mas a coragem política de aceitar o impolítico como horizonte: não uma política contra a política, mas uma política que se sabe no limite, na borda, na exposição. Como ressalta um artigo acadêmico recente sobre a categoria do impolítico em Esposito, sua análise demonstra a relação profunda entre o impolítico e o “das Politische” (a essência do político), indicando que a crise contemporânea não é acidental, mas estrutural——e que respostas genuinamente radicais só podem surgir no reconhecimento desse esgotamento.
Em 2026, a política que os partidos e políticos esqueceram——ou nunca conheceram——é aquela que, ao invés de negar o conflito, o assume como a única realidade da política; que, ao invés de buscar representações transcendentais, opera na imanência dos corpos e da vida; que, ao invés de fechar a comunidade sobre si mesma, a mantém aberta como dívida e dom.
Conclusão: Por uma política da exposição
A obra de Roberto Esposito não oferece soluções fáceis——e isso já a torna antipática ao gosto político contemporâneo, que exige propostas concretas e mensuráveis, como se a política pudesse ser reduzida a um conjunto de indicadores. No entanto, sua contribuição é mais fundamental: ela nos ajuda a compreender por que, mesmo com eleições regulares, parlamentos funcionando e índices macroeconômicos positivos, a política contemporânea produz desencanto generalizado.
A crise democrática de 2026——seja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outra região——não é uma crise de procedimentos, mas uma crise de sentido. Os partidos e políticos que ocupam as instituições operam com categorias gastas, incapazes de dar voz a qualquer perspectiva genuinamente radical, no sentido etimológico do termo (que retorna às raízes). Enquanto isso, o espaço político é preenchido por movimentos que exploram o vazio com promessas de plenitude——comunidade como propriedade, pessoa como identidade, política como imunização.
A verdadeira política que foi esquecida é aquela que Esposito recupera: uma política que não tem medo do vazio, que não busca preencher a falta com representações transcendentais, que aceita a exposição aos outros como condição fundamental. Uma política que, ao invés de prometer resolver todos os conflitos, aprende a viver com eles como constitutivos. Uma política que, ao invés de insistir na pessoa abstrata, parte da vida comum como horizonte.
Talvez seja tarde demais para que as eleições de outubro de 2026——no Brasil e em outros países——possam resgatar essa política esquecida. Mas não é tarde demais para que o pensamento, a crítica e o ativismo intelectual comecem a abrir as brechas por onde ela possa um dia retornar. Como alerta o cientista político Fernando Abrucio, o problema maior em 2026 não está apenas nos golpistas explícitos, mas “no silêncio ou aquiescência de boa parte da sociedade frente ao golpismo continuado e travestido de anistia”. O silêncio, para Esposito, é também uma categoria do impolítico——um silêncio que não é ausência de política, mas a borda a partir da qual uma nova política pode ser vislumbrada. Que 2026 seja o ano em que esse silêncio se torne fala.
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