SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

"Democracy Needs Religion" de Hartmut Rosa

 


Sobre a Obra e o Autor

Publicado em 2024 pela Polity Press, Democracy Needs Religion é uma adaptação em inglês da palestra que o sociólogo alemão Hartmut Rosa proferiu em 2022 para a Diocese de Würzburg . O livro é descrito como "uma versão de uma palestra proferida à Diocese Alemã de Würzburg em 2022" . Com aproximadamente 66 páginas (edição impressa), a obra mantém o formato oral da apresentação original e conta com um prefácio do renomado filósofo Charles Taylor .

Hartmut Rosa é Professor de Sociologia no Instituto de Sociologia da Universidade Friedrich Schiller em Jena e Diretor do Centro Max Weber para Estudos Culturais e Sociais Avançados na Universidade de Erfurt, Alemanha . É amplamente reconhecido por suas teorias sobre a aceleração social e o conceito de ressonância .

Contexto e Estrutura da Obra

O livro é uma resposta direta à crise de confiança enfrentada pelas igrejas cristãs nas sociedades ocidentais. Rosa observa que "pessoas que trabalham para as igrejas, incluindo padres e bispos, tornaram-se extremamente pessimistas e inseguras. Alguns me disseram que acham que os tempos da Igreja e da religião acabaram" . O sociólogo discorda fundamentalmente dessa avaliação e dedica a obra a demonstrar por quê.

A estrutura do livro reflete sua origem como palestra:

  • Primeira parte: Diagnóstico dos males da sociedade tardia-moderna, centrado no conceito de "paralisia frenética" (frenetic standstill)

  • Segunda parte: Exposição do conceito de ressonância como alternativa à relação agressiva com o mundo

  • Terceira parte: Argumentação sobre como a religião cultiva as disposições necessárias para a democracia

Principais Teses e Argumentos Centrais

1. O Diagnóstico: "Paralisia Frenética" (Frenetic Standstill)

O ponto de partida de Rosa é um diagnóstico contundente da sociedade contemporânea: "A sociedade 'deve continuar crescendo e acelerando para manter seu status quo'" . Esta é a essência do que ele chama de "paralisia frenética" (frenetic standstill) - uma condição paradoxal na qual "empurramos para frente, inovamos, lutamos por mudanças disruptivas, mas ao longo do caminho perdemos qualquer senso de momentum ou progresso para frente" .

Rosa argumenta que a modernidade é produto de uma tripla aceleração:

  1. A tecnologia acelera o movimento e a comunicação

  2. A própria mudança tecnológica acelera continuamente

  3. A vida social se acelera à medida que as gerações se encurtam, as famílias se desfazem e os empregos duram apenas alguns anos 

O resultado é que "precisamos de mais e mais energia apenas para permanecer no mesmo lugar" . Esta necessidade insaciável de crescimento é, nas palavras de Rosa, "verdadeiramente absurda... falar abstratamente de crescimento sem indicar onde esse crescimento deve ser alcançado" .

2. A Relação Agressiva com o Mundo

A consequência mais alarmante da dinâmica de aceleração é o que Rosa identifica como uma "relação agressiva com o mundo" (aggressive relationship to the world. Ele explica que "nos tornamos continuamente alarmados, sempre prontos para atacar" . Esta agressividade se manifesta em múltiplas dimensões - econômica, política, social e psicológica .

No campo político, as consequências são particularmente graves. Rosa observa que "a política grita, à medida que cada lado considera o outro como 'inimigos repugnantes que precisam ser silenciados'" . Esta hostilidade impede o funcionamento adequado da democracia, pois "a democracia não pode funcionar em um modo de agressão; para dar voz a todos, temos que emprestar a todos os nossos ouvidos" .

3. A "Crise da Invocabilidade" (Crisis of Invocability)

Rosa introduz um conceito fundamental para entender o papel da religião: a crise da invocabilidade. Ele argumenta que "a democracia não pode prosperar em um contexto agressivo" . Para funcionar, a democracia exige não apenas que todos tenham voz, mas que existam "ouvidos para ouvir essas vozes, e um coração que está disposto a ouvir" .

A "disposição predominante", escreve Rosa, "é que não vale a pena ouvir os outros, porque eles são simplesmente odiadores irracionais ou traidores perigosos" . Neste ambiente, "devemos nos permitir ser invocados - ouvidos - se a democracia quer ter sucesso" .

4. Ressonância: O Conceito Central

O conceito de ressonância é a chave para a proposta de Rosa. Ele oferece uma ilustração musical particularmente vívida:

"Ao pensar sobre ressonância, dificilmente se poderia encontrar melhor inspiração do que um conjunto de flautas ou instrumentos de sopro, e isso é simplesmente porque as ressonâncias se tornam diretamente audíveis e fisicamente palpáveis em sua presença. A música produzida dessa maneira literalmente faz as condições materiais, sociais e espirituais ao nosso redor vibrarem. Em certo sentido, nossa respiração começa a ressoar com os instrumentos, mas também com os próprios músicos, com a sala, e uns com os outros como seres que ouvem e processam significado" .

Rosa identifica quatro elementos constitutivos da ressonância:

  1. Afetação: uma afetação não apenas cognitiva, mas também emocional por algo recém-experimentado

  2. Autoeficácia responsiva: uma abertura ativa e consciente que responde a essa novidade

  3. Transformação: a consequente mudança de humor e pensamento

  4. Indisponibilidade: a experiência de ressonância não pode ser "produzida, comprada ou forçada" 

5. A Religião como Reservatório de Ressonância

A tese central do livro é que a religião oferece um "reservatório" único para experiências de ressonância. Rosa argumenta que a religião promove "uma cultura de diálogo, escuta e reflexão que nos permite formar conexões com os outros e experimentar o mundo como significativo" . Isto, por sua vez, "ajuda os cidadãos a cultivar uma sensibilidade democrática que pode servir como uma âncora em tempos instáveis" .

Rosa identifica três eixos de ressonância que a religião ativa simultaneamente:

  1. Eixo social: entre pessoas

  2. Eixo material: entre pessoas e coisas

  3. Eixo existencial ou vertical: entre o indivíduo e o Outro abrangente 

A Eucaristia é citada como um exemplo paradigmático: "um rito que ativa os três eixos de ressonância ao mesmo tempo" . O fruto da Eucaristia é "a communio, uma relação entre pessoas e uma relação com o todo abrangente" .

6. O "Coração que Escuta" e a Diferenciação entre Religião e Dogma

Rosa faz uma distinção crucial entre religião como prática de abertura e religião dogmática. Ele argumenta que a religião, em sua essência, cultiva o "coração que escuta" (listening heart) - uma disposição de "estar aberto a ser abordado, convocado, suplicado, até mesmo transformado" .

Dois elementos são definidores para Rosa:

  • Transcendência: algo além de si mesmo

  • Transformação: estar pronto para ser tocado e mudado por algo outro 

Ele alerta, no entanto, que "dogmas, fundamentalismos e autoridade institucionalizada podem criar o oposto exato e colocar as pessoas em um modo de saber e comandar. Aqui, a religião se torna uma assassina de ressonância" .

Citações e Análise Detalhada

Sobre a Condição Democrática Contemporânea

"O humor predominante é que não vale a pena ouvir os outros, porque eles são simplesmente odiadores irracionais ou traidores perigosos" .

Esta citação captura a gravidade do diagnóstico de Rosa: a democracia está ameaçada não apenas por forças externas, mas por uma erosão interna da disposição para escutar.

Sobre a Natureza da Ressonância

"Ressonância tem quatro elementos definidores: uma afetação não apenas cognitiva, mas também emocional por algo recém-experimentado; uma autoeficácia ativa e consciente de responder a essa novidade; a transformação resultante, na qual se entra em um humor diferente e em pensamentos diferentes; e, finalmente, a indisponibilidade: não se pode produzir, comprar ou forçar a experiência de ressonância" .

Esta passagem é fundamental para entender o conceito - a ressonância não é um estado que se pode controlar ou instrumentalizar, mas algo que emerge.

Sobre o "Coração que Escuta"

"Não é suficiente que todos tenham voz em nossa vida política e social. Só funciona se todos também tiverem ouvidos - e um coração que escuta" .

Esta formulação ecoa a passagem bíblica de 1 Reis 3:9, onde o rei Salomão pede a Deus um "coração que escuta" (lev shomea) - tradicionalmente traduzido como "coração sábio" ou "coração compreensivo" .

Sobre a Relação entre Religião e Democracia

"Dois elementos são definidores para a religião: transcendência - algo além de mim mesmo; e transformação - estar pronto para ser tocado e mudado por algo outro. Esta é também a essência da democracia" .

Rosa aqui estabelece uma conexão profunda entre experiência religiosa e prática democrática: ambas exigem abertura ao outro e disposição para ser transformado pelo encontro.

Críticas e Debates

Críticas Positivas

1. Diagnóstico Social Lúcido: A análise de Rosa sobre a "paralisia frenética" da sociedade contemporânea é amplamente reconhecida como perspicaz. O crítico do First Things observa: "O diagnóstico de Rosa sobre nossa crise social é digno de atenção, e sua promoção da religião é atraente, até certo ponto" .

2. Acessibilidade e Clareza: Apesar da densidade teórica, o livro mantém a clareza característica de Rosa. O revisor acadêmico Sophie van Bijsterveld, da Radboud University, descreve a obra como mantendo "sua clareza e percepção características" .

3. Relevância Contemporânea: A obra toca em questões urgentes. O crítico Hermann-Josef Große Kracht reconhece que o livro oferece "a mensagem clara de que a sociedade atual precisa urgentemente das igrejas; uma mensagem que deve agir como bálsamo para a alma de muitos crentes" .

Críticas e Limitações

1. Instrumentalização da Religião (Crítica Mais Frequente): A crítica mais contundente vem da revisão do First Things, que afirma: "Rosa faz da 'ressonância' o conceito mestre, ao qual a religião é subordinada. Se a religião promove a ressonância, bem; se não, não. Alguém pensaria que Deus, em vez da ressonância, deveria ser a medida da vida religiosa" .

O crítico continua: "Rosa, embora cristão de algum tipo, não se importa qual religião apoia a democracia, exceto que ele sabe que não é uma religião que define, catequiza ou dogmatiza Deus, não uma religião com a confiança para dizer 'Deus diz' ou 'Deus quer'. A frase 'Outro abrangente' é uma pista. Para Rosa, a religião termina assim que alguém afirma o que acredita: 'Afirmar o que a religião diz é transformá-la em uma monstruosidade'" .

2. Redução do Cristianismo à Escuta Passiva: A Gospel Coalition critica a visão de Rosa como excessivamente otimista e redutiva: "Não consigo aceitar o argumento otimista de Rosa: Se apenas nos permitíssemos ser formados na capacidade de ouvir uns aos outros, teríamos o mundo que queremos. Receio que esse raciocínio seja tão frágil para a religião quanto para a democracia. Levanta mais perguntas do que respostas: O quê e a quem devemos ouvir? Nunca há ocasiões para julgar a fala como inútil, inadmissível ou mesmo perigosa?" .

3. Ambiguidade sobre "Qual Religião?": O título do artigo do First Things - "Democracy Needs Religion—but Which?" - captura uma das principais limitações apontadas. O crítico observa que "uma ou duas vezes, Rosa reconhece que todas as religiões são idênticas ou igualmente compatíveis com a democracia" . A sugestão é que o livro seria "vastamente melhorado se ele refletisse mais profundamente sobre qual religião produziu esses insights" .

4. Falta de Referências e Rigor Acadêmico: Sophie van Bijsterveld observa que o livro "não contém quaisquer referências" . Embora isso seja compreensível dada a origem do texto como palestra, limita seu valor como obra acadêmica.

5. A Relação com a Verdade Revelada: O crítico alemão Hermann-Josef Große Kracht levanta uma questão teológica fundamental: "Se a 'ideia básica' do cristianismo realmente visa as mesmas relações de ressonância religiosa com o cosmos que as terapias com flores de Bach e pedras preciosas, os membros da igreja ainda teriam que discutir isso mais detalhadamente" . Ele sugere que as igrejas deveriam "se preocupar mais com ressonâncias para a mensagem do Reino de Deus de Jesus de Nazaré, em vez de confiar precipitada e teologicamente de forma não refletida em relações de ressonância com sociologias atuais amigáveis à religião e à igreja" .

6. Tensão entre Universalidade e Particularidade: A crítica mais profunda diz respeito à tensão entre a visão de Rosa de uma religião "aberta" e a natureza concreta das tradições religiosas. Como observa a Gospel Coalition, "o que torna Fully Alive de Oldfield muito mais útil do que Democracy Needs Religion de Rosa é seu confronto com o significado moral da fé cristã. O cristianismo é uma fé que enfatiza não apenas a escuta, mas também a fala. Deus chama - e nós respondemos" .

O Debate Alemão: Um Volume Inteiro de Respostas Críticas

A repercussão do livro na Alemanha foi tão significativa que resultou na publicação de um volume inteiro de respostas críticas, intitulado Braucht Demokratie Religion? Auseinandersetzungen mit Hartmut Rosa (A Democracy Need Religion? Debates with Hartmut Rosa), publicado pela University of Bamberg Press em 2025 .

O volume reúne "pesquisadores das áreas de teologia, ciência política, história, estudos de comunicação, estudos literários, ciência da computação, pedagogia e filosofia" para "analisar a relação entre religião e democracia a partir de diferentes perspectivas" . O objetivo é "fazer uma contribuição diferenciada para o debate sobre a tese de Rosa e sua relevância social" .

A Crítica de Gregor Gysi no Prefácio

Um aspecto peculiar do livro é o prefácio escrito por Gregor Gysi, político alemão conhecido por seu ateísmo declarado. Große Kracht observa que "o auto-confesso ateu Gysi apresenta mais uma vez sua convicção de que 'no momento, apenas as religiões são realmente capazes de moldar ideias morais e valores fundamentais universalmente vinculativos na sociedade'" .

No entanto, Große Kracht contra-argumenta: "Se esses valores forem genuinamente defendidos 'apenas' pelas religiões e igrejas em uma sociedade cada vez mais secular - e por mais ninguém, então Deus nos ajude. Graças a Deus, há ampla evidência empírica de que pessoas e ambientes sem religião também desenvolvem altas sensibilidades morais e uma prática sustentável de respeito pela dignidade humana, amor ao próximo e engajamento pelos pobres e fracos. O próprio Gregor Gysi seria um exemplo - entre muitos outros" .

Avaliação Geral e Conclusão

Democracy Needs Religion é uma obra breve, mas ambiciosa, que tenta fazer duas coisas simultaneamente: oferecer um diagnóstico social agudo e propor um remédio inesperado - a religião como recurso para a revitalização democrática.

Pontos fortes:

  • Diagnóstico lúcido e oportuno da "paralisia frenética" da sociedade contemporânea

  • Conceito de ressonância oferece uma alternativa teórica rica à relação instrumental com o mundo

  • Valorização da escuta como virtude política central em uma era de polarização

  • Reconhecimento de que a democracia exige não apenas procedimentos, mas disposições éticas

  • Acessibilidade e clareza de exposição

Limitações:

  • Subordinação da religião ao conceito de ressonância, potencialmente instrumentalizando-a

  • Ambiguidade sobre quais tradições religiosas são compatíveis com a democracia

  • Visão potencialmente redutiva do cristianismo que minimiza seu conteúdo doutrinário

  • Falta de referências e rigor acadêmico

  • Tensão não resolvida entre abertura à transformação e compromisso com verdades reveladas

Público-alvo: O livro é recomendado para sociólogos, teólogos, cientistas políticos, estudiosos da religião e qualquer pessoa interessada na relação entre fé e esfera pública. Sua brevidade e acessibilidade o tornam adequado também para um público mais amplo interessado em questões contemporâneas.

A pergunta fundamental que o livro levanta - e que seus críticos consideram não respondida de forma satisfatória - é se a religião pode realmente desempenhar o papel que Rosa lhe atribui sem sacrificar aquilo que a torna distintamente religiosa. Como conclui a Gospel Coalition, "na fé e prática cristãs, a escuta é mais frutífera em uma relação obediente à verdade autorreveladora de Deus. Na medida em que somos convocados, também somos chamados a nos render" 

Nenhum comentário:

Postar um comentário