SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

A História de resistência do nosso núcleo originário no Brasil nos últimos 150 anos.


Eu proponho um recorte essencial: contar a história do Brasil dos últimos 150 anos (aproximadamente 1876 a 2026) a partir da ótica desse núcleo originário – aquele formado pela mistura forçada e criativa de judeus, portugueses pobres, negros e indígenas. E mostrar como eles resistiram à dominação estrangeira, à escravidão, à concentração de renda e ao domínio do Estado por poucas famílias – incluindo ramos de portugueses dos latifúndios e outros que se associaram a interesses árabes (no sentido de elites comerciais e financeiras internacionais). 

Vamos fazer isso, com datas, fatos e lógica histórica. 

1. O contexto de partida: fim do Império (c. 1880) 

Por volta de 1880, o Brasil tinha: 

  • Escravidão ainda legal (só acabaria em 1888). 

  • Monarquia comandada por fazendeiros do café e do açúcar, ligados a Portugal e à Inglaterra. 

  • Concentração de terras desde as capitanias hereditárias (1530), mantida pela Lei de Terras de 1850 – que impediu negros e índios livres de obter terras. 

  • Imigração europeia incentivada para "branquear" o país e substituir o trabalho escravo. Vieram italianos, espanhóis, alemães, sírio-libaneses (chamados de "turcos" ou, em certa retórica, "árabes"). 

Esse núcleo originário  já estava misturado nas senzalas, quilombos, aldeias indígenas e mocambos. Eles eram a base da população livre pobre e dos trabalhadores rurais sem terra. 

 

2. Como resistiram e se opuseram à dominação estrangeira? 

A dominação estrangeira veio de várias formas: 

  • Inglesa (século XIX) – controle do comércio, empréstimos usurários, tratados desiguais, fim do tráfico negreiro sob pressão, mas manutenção da escravidão. 

  • Portuguesa (ainda com saudade da colônia) – elites agrárias de origem portuguesa mantendo o latifúndio. 

  • Árabe (sírio-libaneses a partir de 1880) – muitos imigrantes pobres, mas alguns se tornaram comerciantes e se associaram às elites agrárias, financiando a concentração de renda. 

núcleo originário resistiu: 

  • Saindo do litoral e indo para o sertão, para os quilombos (Palmares resistiu até 1695; depois, quilombos menores continuaram), para as terras indígenas no interior (que os governos nunca respeitaram). 

  • Formando comunidades de fundo de pasto, babaçuais, quebradeiras de coco, ribeirinhos, caatingueiros – todas formas de organização à margem do latifúndio. 

  • Na cidade – trabalhando como ferreiros, carregadores, vendedores ambulantes, construindo os primeiros bairros operários (sem saneamento, mas autônomos). 

 

3. A concentração de renda e o domínio do Estado por "poucos juniores e sobrinhas" 

A expressão "poucas juniores e sobrinhas" é irônica e precisa: de fato, o Estado brasileiro foi (e é) controlado por clãs familiares que se alternam no poder – coronéis do nordeste, fazendeiros paulistas, pecuaristas do sul, e mais recentemente empresários ligados ao agronegócio e à construção civil. 

Essas famílias se associaram a: 

  • Ingleses (ferrovias, portos, mineração). 

  • Americanos (minério, petróleo, indústria de base, e mais recentemente, soja e carne). 

  • Árabes (sírio-libaneses enriquecidos no comércio de tecidos, depois bancos e indústrias). 

Mas nem todo português estava nesse grupo. Havia: 

  • Portugueses dos latifúndios – herdeiros das capitanias, donos de engenho e fazendas de gado. Esses se associaram aos estrangeiros. 

  • Portugueses pobres (os "azorianos", "madeirenses") – que chegaram como colonos, muitas vezes viraram agregados, e em algumas gerações se misturaram ao núcleo originário. 

O núcleo originário, ao contrário, nunca teve acesso ao Estado – foi sempre objeto de políticas higienistas, racistas, de extermínio (como a "Guerra do Contestado", 1912-1916, onde camponeses e índios foram massacrados pelo exército a serviço das madeireiras estrangeiras). 

 

4. 1888 – Abolição sem reforma agrária 

Com a Lei Áurea (1888), os negros libertos não ganharam terras, nem educação, nem trabalho. Foram jogados nos morros, nas periferias, nos subúrbios. 

Os indígenas continuaram sendo expulsos de suas terras – a "Lei de Terras" de 1850 já declarava que só teria terra quem comprasse. E eles não tinham dinheiro. 

Os judeus (cristãos-novos e imigrantes judeus posteriores, vindos do Marrocos, da Europa) foram discriminados, mas alguns se integraram ao comércio urbano. Muitos, porém, se somaram ao núcleo pobre, especialmente no Nordeste. 

Os portugueses pobres foram jogados nos mesmos cortiços que negros e índios – como no bairro do Moinho de Vento (Porto Alegre) ou na Saúde (Rio). 

 

5. Onde esse núcleo se refugiou e resistiu (1880-2026) 

  • No cangaço (fim do século XIX ao início do XX) – Lampião, Maria Bonita e outros eram expressão da resistência sertaneja contra os coronéis e o capital estrangeiro (as companhias de tecelagem, as estradas de ferro inglesas). Foram massacrados pela polícia a serviço das elites. 

  • Nos movimentos messiânicos – Canudos (1893-1897), Contestado (1912-1916), Juazeiro (Padre Cícero). Todos foram ataques ao latifúndio, à República das elites (centrada em São Paulo, ligada aos ingleses e americanos). Foram esmagados pelo exército – Canudos foi um genocídio. 

  • Nas Ligas Camponesas (1950-1960) – no Nordeste, trabalhadores sem-terra (descendentes diretos do núcleo originário) ocuparam terras. Foram reprimidos e, após o golpe de 1964, seus líderes foram assassinados ou desapareceram. 

  • Na guerrilha do Araguaia (1972-1975) – camponeses, negros, índios e militantes se opuseram à ditadura militar (apoiada pelos EUA). Foram aniquilados. 

  • Nos movimentos atuais – MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), CONAQ (Coordenação Nacional de Quilombos). Esses são a voz direta desse núcleo originário. 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário