Uma das contribuições mais importantes do Índice de Inclusão Educacional (IIE) é nos ajudar a olhar para a educação básica como um percurso completo, e não como etapas isoladas. Ao combinar trajetória escolar e aprendizagem, o IIE nos permite entender quantos jovens conseguem concluir a educação básica na idade certa e com aprendizagem adequada. Mas, quem está conseguindo chegar lá?
Quando olhamos para o recorte racial, os dados mais recentes do painel de equidade do IIE ajudam a aprofundar essa resposta.
O que mudou no retrato da desigualdade racial
No ano passado, escrevi sobre desigualdade racial na educação a partir dos dados de 2021 do Índice de Inclusão Educacional. Naquele retrato, o IIE de estudantes brancos era de 26,9%, enquanto o de estudantes negros era de 11,7%, evidenciando uma diferença expressiva de 15,2 pontos percentuais.
Agora, com a atualização para 2023, vemos um recuo nos dois grupos. O indicador caiu para 23,0% entre estudantes brancos e para 9,9% entre estudantes negros. A diferença, no recorte nacional, ficou para 13,2 p.p. A queda ainda é um reflexo dos impactos da pandemia, uma vez que o sistema ainda não foi capaz de recompor toda a aprendizagem perdida devido ao período de escolas fechadas.
Há dois sinais importantes aqui.
O primeiro é que a desigualdade racial permanece profunda. O desempenho dos estudantes brancos segue mais que duas vezes superior ao dos estudantes negros, quando olhamos para a combinação entre permanência escolar e aprendizagem adequada.
O segundo é mais sutil, mas igualmente relevante. A distância entre os grupos diminuiu, voltando a patamares inferiores aos observados antes da pandemia.
À primeira vista, isso poderia sugerir um avanço em equidade. Mas os dados pedem uma leitura mais cuidadosa. A redução da desigualdade veio acompanhada de queda nos resultados dos dois grupos.
Entre 2015 e 2019, houve avanço simultâneo dos indicadores de estudantes brancos e negros, acompanhado por aumento da distância entre os grupos.
Já no período mais recente, marcado pela piora dos dois indicadores, essa distância diminuiu. Esse comportamento sugere que evolução média e redução de desigualdade nem sempre caminham juntas, ponto que merece acompanhamento nos próximos ciclos de dados.
O que os estados revelam sobre equidade
Os gráficos mostram que redes com IIE mais alto frequentemente também apresentam diferenças maiores entre estudantes brancos e negros.
O Distrito Federal continua sendo um dos casos mais evidentes dessa combinação. A unidade da federação aparece entre os maiores IIEs do país e, ao mesmo tempo, entre as maiores desigualdades raciais observadas no indicador.
Goiás, por sua vez, apresenta um dos maiores IIEs para estudantes negros do país em termos absolutos — o que, isoladamente, seria um sinal positivo. Mas a desigualdade racial é igualmente alta, porque o IIE de estudantes brancos avança na mesma proporção. É precisamente esse movimento que os dados mostram de forma recorrente: avanço médio que não se traduz em equidade.
O caso do Ceará merece atenção especial, inclusive mencionei isso em um artigo recente. O estado aparece com um dos maiores IIEs do país para estudantes negros e, ao mesmo tempo, com desigualdade racial proporcionalmente menor do que a observada em outras unidades da federação com desempenho semelhante. Pernambuco segue na mesma direção — também aparece abaixo da linha de tendência, combinando resultados relevantes para estudantes negros com diferença entre grupos menor do que o padrão nacional sugeriria.
Isso parece refletir uma estratégia educacional consistente, construída ao longo do tempo, baseada em colaboração entre redes, fortalecimento da gestão e políticas estruturantes como alfabetização na idade certa e expansão do Ensino Médio Integral.
Os dados reforçam que olhar apenas para médias nacionais já não é suficiente. Compreender de fato a educação brasileira exige observar quem avança, quem fica para trás e quais políticas conseguem combinar melhoria sistêmica com maior equilíbrio.
Nesse caminho, transparência nos dados, monitoramento contínuo e metas explícitas de equidade seguem sendo fundamentais para enfrentar desigualdades históricas com mais intencionalidade e efetividade.
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