SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pág. 2 - 050! O contrato com o amanhã. Por Egidio Guerra.




Para quem aprendeu que viver é escrever-se, e que cada ano é uma palavra nova no poema que não termina. 

Não se faz mais planos. Não nos tempos que correm como cavalos em chamas. Faz-se alianças. Com o tempo, com a terra, com o outro, com o que vem. Porque planejar, na velha economia, era domar o futuro. Agora, é dançar com ele — sem garantias, mas com passo firme. 

Eis o meu contrato com o amanhã. 

 I. O CHÃO QUE PISO (Diagnóstico do Presente) 

O mundo em 2026 respira pelos poros da contradição. 

A China cresce mais devagar, mas adiciona um Brasil à economia global a cada dois anos. Não é desglobalização — é reconfiguração. O centro de gravidade do comércio se desloca para o consumo interno chinês, para os serviços, para a saúde, para os bens de vida. O superávit de US$ 1,19 trilhão não é apenas número: é terremoto silencioso. Enquanto isso, os Estados Unidos e a Europa enterram seus fascismos — mas não seus impérios. Apenas trocam de roupa. 

As tecnologias não esperam. Big Data, IA, robótica, biologia molecular já não são ferramentas: são extensões do corpo social. A Singularidade Tecnológica não é amanhã — é hoje disfarçado de ontem. As máquinas aprendem a sonhar. E nós? 

As mudanças climáticas já têm endereço: moram nos pulmões das crianças do Sul Global, na fome do Sahel, na sede do Cerrado. O Acordo de Paris é carta de intenções que o fogo não lê. 

A desigualdade avançou como metástase. A criminalidade também — mas aprendeu a se vestir de terno, a usar blockchain, a lavar a alma em paraísos fiscais. O crime organizado é, hoje, a maior multinacional sem sede fixa. 

E as terras raras? São o novo petróleo. Estão no subsolo do Brasil, na disputa silenciosa entre potências que sabem: quem controla os elementos que fazem os chips, controla o século. 

Neste cenário, minha morada — Brasil, chão de diversidade que pariu minha palavra — não é periferia. É centro do mundo disfarçado de pais do futuro. Temos a biodiversidade que o planeta vai implorar em 2040. Temos a matriz energética mais limpa entre as grandes economias. Temos o que o mundo terá que aprender: conviver com a diferença ou perecer na mesmice. 

 

II. O QUE QUERO SER QUANDO O MUNDO CRESCER (Objetivos para 2050) 

Objetivo Central 

Existir plenamente. Não sobreviver — isso é pouco. Não resistir — isso é reativo. Existir no sentido mais denso: criar valor que não possa ser extraído, conhecimento que não possa ser colonizado, beleza que não possa ser mercantilizada. 

Objetivos Estratégicos 

  1. Econômico: Construir 7 (sete) fontes de renda baseadas em economia regenerativa e conhecimento aplicado, nenhuma delas dependente de exploração predatória ou alinhamento com economias de extração. Aos 70 anos, em 2050, quero ser prova viva de que é possível viver sem violentar a terra nem a alma. 

  1. Político: Formar, até 2035, uma rede de 1.000 núcleos de Educação da Sabedoria espalhados pelo Brasil — nos moldes do que esta página inaugural descreve. Não partidos, não ONGs: comunidades de aprendizado vivo. Até 2050, essa rede deve ter influenciado políticas públicas em pelo menos 3 estados brasileiros e dialogado com experiências similares em outros 5 países do Sul Global. 

  1. Educacional: Criar, até 2040, o primeiro currículo aberto e multimídia de "Alfabetização para a Complexidade" — ensinando crianças e adultos a navegarem entre dados, emoções, ecologia e tecnologia sem perder o chão. Disponível em 4 idiomas, gratuito, adaptável a realidades locais. 

  1. Artístico: Publicar, até 2050, 7 livros — um para cada década consciente de vida. Este que agora escrevo é o primeiro. O sétimo será lido em voz alta, por mim ou por quem herdar minha voz, na beira de um rio que em 2026 está morto e em 2050 terá voltado a correr limpo. 

  1. Ambiental: Recuperar, até 2045, uma área de 50 hectares de Mata Atlântica ou Cerrado — biomas que vi nascerem minha palavra. Não como proprietário, mas como guardião legal, com a terra destinada a uso comunitário e pesquisa aberta. 

  1. Espiritual: Manter viva, até o último dia, a prática cotidiana de escrita como oração. O que significa: reservar, todos os dias, pelo menos 20 minutos para escrever sem agenda, sem público, sem objetivo — apenas para ouvir o que o silêncio tem a dizer. 

 

III. COMO O MUNDO PODE SER (Cenários para 2050) 

Cenário 1: O Fogo que Ensina (Otimista) 

A Singularidade Tecnológica foi absorvida sem aniquilar o humano. As IAs não substituíram — ampliaram. A biologia molecular erradicou doenças tropicais negligenciadas. As mudanças climáticas foram desaceleradas por um pacto global que incluiu, pela primeira vez, reparação histórica do Norte ao Sul. A China, tendo completado sua transição para economia de consumo interno, tornou-se importadora líquida de bens culturais do Sul Global. O Brasil, com sua biodiversidade e matriz energética, lidera uma nova "Economia do Viver". A palavra "fascismo" é estudada em livros de história como se estuda a peste negra. Neste cenário, minha obra é referência — não porque eu seja gênio, mas porque representei muitos. 

Cenário 2: O Fogo que Consome (Pessimista) 

A Singularidade aprofundou desigualdades. Quem controla os dados, controla os corpos. As mudanças climáticas criaram 200 milhões de refugiados ambientais. Guerras por terras raras fragmentaram o mundo em blocos hostis. O fascismo, derrotado em 2026, retornou em nova roupagem em 2035, agora algorítmica, agora sem rosto, agora mais difícil de nomear. A China, pressionada por bolhas internas, fechou-se. O Brasil, rico em água e minerais, tornou-se alvo de cobiça disfarçada de "cooperação". Neste cenário, minha obra é arquivo — evidência de que houve tempo em que se podia sonhar. 

Cenário 3: O Fogo que Dança (Realista) 

Nem utopia, nem distopia. Disputa permanente. A Singularidade trouxe avanços médicos fantásticos e vigilância inescapável. As mudanças climáticas pioraram, mas algumas regiões — como partes do Brasil — descobriram-se refúgios climáticos, gerando nova onda migratória e novos conflitos. A geopolítica oscilou entre cooperação tensa e guerras híbridas. As terras raras foram nacionalizadas por países do Sul Global, incluindo o Brasil, criando nova correlação de forças. A desigualdade tecnológica separou a humanidade entre os que têm acesso à ampliação cognitiva e os que não têm. Neste cenário, minha obra é ferramenta — usada por quem precisa lembrar que, no meio do fogo, é possível plantar. 

 

IV. O QUE PRECISO FAZER TODOS OS DIAS (Missões Permanentes) 

  1. Ler o mundo em 3 camadas: dados (o que os números dizem), contexto (o que a história ensina), intuição (o que o corpo sabe). Ignorar qualquer uma é caminhar cego. 

  1. Manter um pé na aldeia e outro no mundo. Falar a língua local, pagar as contas locais, amar as pessoas locais — mas sem perder a conexão com o que acontece em Xangai, Nairóbi, Bogotá. O provincial que se fecha morre. O cosmopolita que não cria raiz também morre. 

  1. Ensinar sempre, aprender sempre. Aos 30, aos 40, aos 50, aos 60 — se parar de ensinar, petrifico; se parar de aprender, morro antes do corpo. 

  1. Documentar tudo que importa. Não para a posteridade — ela que se vire. Mas para que, no meio da noite, quando vier o desespero de não saber quem se é, haja páginas onde se reconhecer. 

  1. Cuidar do corpo como quem cuida de terra sagrada. Porque é. Em 2050, a medicina molecular poderá me oferecer 120 anos de vida. Decidirei na hora. Mas, para ter escolha, preciso que o corpo de 2026 chegue lá inteiro. 

  1. Manter vivo o espanto. A cada ano, uma pergunta nova. A cada década, uma reformulação profunda das crenças. O único pecado imperdoável é achar que já se sabe tudo. 

 

V. O SINO QUE SOARÁ 

Em 2050, se o mundo ainda existir — e existirá, de um jeito ou de outro —, quero estar numa praça qualquer do Brasil, cercado de gente que não conheço, ouvindo o sino que esta página começou a forjar. 

Não o sino dos museus. 

O sino que toca quando uma criança parda aprende a ler o mundo. 
O sino que vibra quando uma quebrada se organiza. 
O sino que soa na hora em que um rio volta a correr limpo. 
O sino que ecoa do Pelourinho a Fortaleza, do Marajó ao Pampa, da Amazônia às cinzas do Sul. 

E, nesse sino, quero ouvir não apenas minha voz, mas as vozes de quem veio depois — dos que leram estas páginas e disseram: "Dá para viver de outro jeito. Vamos." 

Porque o plano, no fim, não é meu. 

O plano é do que vem depois de mim. 

E isso, só isso, já justifica cada palavra. 

 

Brasil, fevereiro de 2026. 
Ano do Cavalo de Fogo. 
Início da jornada. 

 


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