O período em que Michel Foucault lecionou na Universidade de Túnis, entre setembro de 1966 e o verão de 1968, representa um capítulo fundamental e, por muito tempo, pouco explorado de sua trajetória intelectual e política . Longe de ser um mero interlúdio exótico, sua estadia na Tunísia funcionou como um cadinho onde suas experiências pessoais, seu engajamento militante nascente e sua produção filosófica se fundiram, preparando o terreno para as grandes viradas de seu pensamento na década de 1970 .
O Contexto: Uma Tunísia Pós-Colonial em Efervescência
Foucault chegou à Tunísia numa época de intensa ebulição. O país, independente da França desde 1956, vivia as "dores do parto das sociedades pós-coloniais" . Sob a presidência de Habib Bourguiba, a nação experimentava um misto de projetos de engenharia social, lutas faccionais e um caldeirão de ideologias concorrentes, como o socialismo, o pan-arabismo e o pan-africanismo . Esse cenário de "fervor intelectual" e efervescência revolucionária contrastava fortemente com a relativa estabilidade política da França, de onde Foucault provinha.
O filósofo instalou-se na pitoresca vila de Sidi Bou Saïd, um refúgio de artistas, onde se dedicava à escrita de A Arqueologia do Saber, publicado em 1969 . No entanto, a calma do seu local de trabalho contrastava com a agitação que tomava conta da universidade e das ruas.
O Professor e Seus Alunos: Paixão pelo Saber
Na Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Túnis, Foucault ocupou pela primeira vez uma cátedra de filosofia, algo que não fizera na França . Seu ensino era diversificado e inovador. Ministrava cursos de psicologia sobre "a projeção", história da arte focada na pintura renascentista e barroca, e um curso público intitulado "O Lugar do Homem no Pensamento Ocidental Moderno" .
Mas foi seu curso sobre a história da filosofia, dedicado a Descartes — mais precisamente ao Discurso do Método e às Meditações — que deixou marcas profundas em seus alunos. Um plano detalhado deste curso, conservado nas notas de seus estudantes, revela a profundidade de sua análise. Foucault não via o Discurso do Método como um texto inaugural isolado, mas sim como um sintoma de uma ruptura epocal. Ele o analisava à luz do início da Idade Clássica, caracterizada pelo poder monárquico centralizado e pelo capitalismo mercantil, e pela fundação de novas formas de racionalidade científica (economia política, ciência da natureza, geometria algébrica) .
Para Foucault, o Discurso representava uma ruptura com a filosofia medieval ao substituir o problema do "ser" pelo problema da "verdade". A filosofia, a partir dali, definia-se como o método para se atingir essa verdade, com o sujeito ("o bom senso", a "luz natural") como fundamento de todo conhecimento. Ao ensinar Descartes na Tunísia, Foucault não apenas transmitia um conteúdo; ele demonstrava, na prática, como o discurso filosófico se constitui e se transforma em contextos históricos e políticos específicos. Seus alunos, com sua "avidez absoluta de saber", encontravam nas palavras do professor ferramentas para pensar sua própria realidade.
O Engajamento Político: A Revolta de Março de 1968
O ponto de virada na experiência tunisiana de Foucault foi o movimento de contestação estudantil de março de 1968 . A juventude tunisiana levantou-se contra o imperialismo ocidental e o autoritarismo do governo de Bourguiba . A resposta do Estado foi feroz: repressão violenta, invasão da universidade e prisões em massa .
Diante desse cenário, Foucault e seu companheiro, Daniel Defert, abandonaram qualquer pretensão de neutralidade acadêmica. Transformaram sua casa em Sidi Bou Saïd em um espaço de acolhimento e resistência, abrigando estudantes perseguidos, alimentando-os e permitindo que redigissem e imprimissem panfletos de oposição. Quando mais de uma centena de jovens foram julgados por "atentado à segurança do Estado", Foucault testemunhou em sua defesa e usou sua influência como intelectual francês para tentar amenizar as duras sentenças. Apesar de seus esforços, muitos foram condenados a longas penas de prisão, uma experiência que o marcou profundamente com "amargura e raiva" .
Este foi o batismo de fogo de Foucault na militância política direta. Mais tarde, ele próprio declararia: "Provavelmente só no Brasil e na Tunísia encontrei nos estudantes tanto seriedade e tanta paixão" . Foi o confronto com o "poder intolerável" do estado tunisiano que o impeliu, ao retornar à França, a fundar o Groupe d'Information sur les Prisons (GIP) e a escrever obras seminais como Vigiar e Punir. O engajamento ao lado dos estudantes tunisianos foi o laboratório onde sua análise do poder começou a se forjar na prática, e não apenas na teoria .
O Legado Intelectual e a Sombra do Colonialismo
O período tunisiano também foi prolífico em termos de produção intelectual. Além de concluir A Arqueologia do Saber, Foucault proferiu conferências no Clube Tahar Haddad, incluindo as famosas "O que é um Autor?" e "O Nascimento da Moeda", e uma sobre "A Pintura de Manet" . Essas palestras, gravadas na época, só foram redescobertas e ouvidas publicamente em 1987, durante um colóquio em sua homenagem no mesmo clube .
Recentemente, em 2023, foi publicado um manuscrito de Foucault intitulado O Discurso Filosófico, escrito em 1966, logo após As Palavras e as Coisas. Por muito tempo, acreditou-se que este texto fosse o curso ministrado por ele em Túnis. Na verdade, trata-se de um longo ensaio que ocupa uma posição intermediária entre suas duas grandes obras arqueológicas, e que aprofunda a análise do discurso filosófico de Descartes a Nietzsche . Este mal-entendido editorial evidencia como a associação de Foucault com a Tunísia se tornou um elemento importante para a compreensão de sua obra.
No entanto, a passagem de Foucault pela Tunísia não está isenta de críticas e contradições, especialmente do ponto de vista pós-colonial. Alguns estudiosos apontam que, apesar de seu engajamento pontual, Foucault manteve-se em grande parte alheio à sociedade tunisiana, convivendo majoritariamente com franceses e levando um estilo de vida que, para alguns críticos, evocava a figura de um "colonizador". Sua obra praticamente ignora o colonialismo e a questão da "raça" como problemas filosóficos centrais, o que levanta questões sobre os limites de seu eurocentrismo. Intelectuais como Edward Said, que se inspiraram em Foucault para desenvolver a crítica do orientalismo, também apontaram a ausência de uma reflexão mais profunda do filósofo francês sobre o tema .
Conclusão
O curso de Foucault em Túnis foi muito mais do que um simples posto de ensino no estrangeiro. Foi um choque de realidade que transformou o filósofo em militante, um observador da história em seu tempo real. A "avidez de saber" de seus alunos tunisianos e a brutalidade da repressão que sofreram deixaram cicatrizes que moldaram seu pensamento futuro. Se, por um lado, sua experiência carrega as ambiguidades de um intelectual europeu num contexto pós-colonial, por outro, foi precisamente ali, entre as salas de aula e as celas da prisão de Túnis, que Foucault começou a articular, na prática, as questões sobre poder, resistência e verdade que o consagrariam como um dos pensadores mais influentes do século XX .
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