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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Oligarquias, Elites, Ladrões, Pobreza, Violência Estatal, Corrupção e Salve Geral !





Sobre a História! 

Publicado originalmente em 1951, Filho de Ladrão (Hijo de Ladrón) é um romance seminal do escritor chileno Manuel Rojas e um marco da literatura latino-americana . A obra narra a jornada existencial de Aniceto Hevia, um jovem que, desde a infância, é marcado pelo estigma de ser "filho de ladrão" . A história começa com uma revelação crucial: Aniceto descobre que seu pai não era cubano, como pensava, mas sim "o Galego" — um famoso ladrão espanhol . 

A partir desse choque de origem, o romance acompanha a trajetória errante de Aniceto, que atravessa cenários urbanos como Rio de Janeiro, Buenos Aires, Mendoza e Valparaíso em busca de trabalho, pertencimento e autonomia . A narrativa é fortemente autobiográfica, inspirada nas próprias experiências de Manuel Rojas, que viveu como um nômade, trabalhando como operário, barqueiro, pintor, marinheiro e jornalista . 

A trama desenrola-se em flashbacks. Quando o livro começa, Aniceto está fugindo, escondendo-se em uma caverna à beira-mar, após um assalto mal-sucedido em Valparaíso. Dali, ele rememora sua vida: a morte da mãe quando tinha apenas dez anos, a prisão do pai, o abandono pelos irmãos e a hostilidade de um mundo que o vê apenas como a extensão de um criminoso . 

O que torna Filho de Ladrão tão extraordinário é o seu retrato dos "desclassificados sociais" que vivem à margem das instituições . Aniceto não é um herói tradicional, nem um anti-herói romantizado. Ele é introspectivo, inquieto, e sua jornada é pontuada por encontros com outros personagens igualmente deslocados: artistas, operários, vagabundos, anarquistas . A obra é uma narrativa essencialmente existencialista, menos preocupada com o "crime" em si do que com a formação da consciência de um homem pobre, solo e desesperado em uma América Latina indiferente ao seu sofrimento. 

Trechos e Estilo Literário 

O estilo de Manuel Rojas é descrito como parte do Super-Realismo, com uma prosa vincadamente autobiográfica e um realismo franco, mas simples de estilo e de intenção dignificante . Veja um trecho que ilustra a vida errante de Aniceto: 

“...Dias depois largava em demanda da saída do estreito. Passados dois ou três dias, já em pleno Atlântico e de rumo ao norte, apanhou-nos pelo rabo um temporal que varreu todos e tudo que havia na coberta... Um momento houve em que me senti perdido naquele navio e naquele oceano. Tudo passou, no entanto, e chegámos a Montevideu em ar de lobos do mar. Devolvi as roupas, recebi uns pesos que me deram de gorjeta, rejeitei um contrato para servir como cabo-de-mar e larguei para Buenos Aires num barco que fazia a travessia durante a noite...”  

Críticas Literárias 

A recepção da obra foi entusiástica em toda a América Latina. A crítica saudou o romance nos mais elogiosos termos, e o público acolheu-o com verdadeiro entusiasmo, levando a três edições apenas nos primeiros anos após o lançamento . A obra é considerada inovadora por romper com o regionalismo predominante na época e focar na psicologia do marginalizado urbano, antecipando temas que se tornariam centrais na literatura latino-americana nas décadas seguintes. 

 

2. Como Filho de Ladrão Reflete as Origens do Crime Organizado, Tráfico, Corrupção e Violência Estatal na América.  

Embora Filho de Ladrão seja um romance psicológico e não um tratado sociológico, ele ilumina com perfeição as condições de possibilidade para o surgimento do crime organizado e do tráfico na América Latina. 

A Fábrica Social do Criminoso 

O livro mostra como a marginalidade não é uma escolha, mas uma imposição. Aniceto é "compelido à vagabundagem" não por má índole, mas porque o sistema o rejeita . Aos dez anos, órfão e com o pai preso, ele é "abandonado pelos irmãos, desprezado pelo mundo, hostilizado pela polícia" . Esta é a matriz geracional do crime: a pobreza extrema, a ausência de políticas públicas (educação, assistência social) e a criminalização da pobreza. 

A Polícia como Inimiga, Não como Protetora 

O romance documenta como a experiência direta com a violência estatal empurra o jovem marginalizado para o universo do crime. Aniceto é "hostilizado pela polícia" muito antes de cometer qualquer delito grave . Ele conhece a prisão não como um lugar de "recuperação", mas como mais uma etapa da via crucis do pobre. Essa relação antagônica entre a polícia e as periferias é uma constante histórica na América Latina, que a entrevista com o ex-comandante da UPP, Robson Rodrigues, confirma de forma contundente: a polícia brasileira herdou da ditadura uma estrutura truculenta e uma "cultura do medo" que a impede de atuar como instituição moderna de proteção ao cidadão . 

A Falta de Políticas Públicas e a Favelização 

Aniceto transita por cidades como Rio de Janeiro e Buenos Aires, observando de fora o brilho das áreas centrais, mas vivendo nos interstícios, nos cortiços e nas margens. Essa geografia da exclusão é o berço das futuras favelas dominadas pelo tráfico. Onde o Estado não chega com escolas e hospitais, o crime organizado chega com "trabalho" e uma ordem paralela. 

O Papel das Elites e Ditaduras 

Embora a ação se passe no início do século XX, o livro reflete uma estrutura de poder que perdura e se agrava com as ditaduras militares das décadas seguintes (como a de Stroessner, que discutimos anteriormente). As elites latino-americanas sempre trataram a questão social como caso de polícia. Essa opção política cria um ciclo vicioso: a exclusão gera criminalidade, a criminalidade justifica a repressão violenta, e a repressão violenta aprofunda o ódio e a exclusão, fortalecendo o crime organizado como única forma de "poder" e "proteção" que chega aos pobres. O resultado é o que o antropólogo Robson Rodrigues descreve como "mercados ilícitos, altamente violentos, que se assemelham à geografia pré-moderna, da Europa feudal, onde não havia um poder centralizado, e sim uma disputa violenta pela administração de territórios" . 

A Corrupção como Pilar 

O livro de Manuel Rojas não aborda a corrupção policial de forma direta, mas a sinaliza ao mostrar que a lei é aplicada de forma arbitrária e violenta contra os pobres. A pesquisa contemporânea mostra que essa arbitrariedade é a porta de entrada para a corrupção sistêmica. Como lembra Rodrigues, "uma política de segurança que não combata a corrupção policial está fadada ao erro" . O "grande crime" se alimenta dessa corrupção: policiais corruptos facilitam a logística do tráfico em troca de propina, enquanto os "grandes criminosos, aqueles que realmente lucram, não estão ali na ponta. Eles ficam invisíveis, se aproveitam da invisibilidade enquanto a polícia e o sistema criminal estão olhando para outro lado" . 

 

3. Como Isso Culmina no "Salve Geral" do PCC em São Paulo (Maio de 2006) 

A trajetória de Aniceto Hevia, o "filho de ladrão" dos anos 1950, é a pré-história dos milhares de jovens que, décadas depois, formariam as fileiras do Primeiro Comando da Capital (PCC). O PCC é a materialização organizada, violenta e poderosa dessa exclusão crônica. 

O Nascimento do PCC: Da Barbárie à "Irmandade" 

O PCC nasceu em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, uma das prisões mais desumanas de São Paulo . Naquele inferno, presos mais fortes subjugavam os mais fracos, estupravam e matavam. O PCC surgiu com um discurso que, para os marginalizados, soava como justiça: acabar com os abusos sexuais, proibir os homicídios "injustos" e criar uma "paz entre ladrões" para enfrentar o verdadeiro inimigo: o Estado . É a vingança histórica de Aniceto Hevia: já não são indivíduos isolados sendo hostilizados pela polícia; agora, eles se organizam em uma "irmandade" secreta, com estatuto, ética e poder de fogo. 

O "Salve Geral" de 2006: O Estado Refém 

Em maio de 2006, a tensão latente explodiu. O governo de São Paulo decidiu transferir 765 presos do PCC para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Venceslau, incluindo o líder Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola . A facção havia ordenado um "salve geral" caso a transferência ocorresse . 

A resposta foi a maior crise de segurança da história recente do Brasil. Entre os dias 12 e 21 de maio: 

  • O PCC orquestrou rebeliões simultâneas em 74 presídios . 

  • Policiais, guardas civis e bombeiros foram executados nas ruas, em seus locais de trabalho e em suas casas. Ao todo, 59 agentes públicos foram mortos . 

  • Ônibus foram incendiados, bancos foram atacados a tiros e dezenas de cidades pararam . 

  • A cidade de São Paulo viveu dias de terror, com comércio fechado, escolas sem aulas e ruas desertas . 

Foi a demonstração cabal de que o "filho de ladrão" havia se tornado um poder paralelo capaz de desafiar abertamente o Estado. 

A Retaliação e a Barbárie de Estado 

A resposta do Estado à altura foi a "revanche". A pesquisa da UFRJ mostrou que, findos os ataques do PCC, uma onda de execuções sumárias promovidas por policiais e grupos de extermínio varreu as periferias . O saldo final foi de 564 mortos. Destes, 505 eram civis (a maioria jovens, negros e pobres) e apenas 59 eram agentes públicos . O relatório da época concluiu que "os Crimes de Maio foram marcados pela violência brutal do PCC, mas também foram uma demonstração do preço da corrupção, da fúria da violência policial e da falência do sistema prisional" . 

A pesquisadora Camila Dias sintetiza: "Aquela reação [dos agentes de segurança] foi a de matar, de forma indiscriminada, pessoas da periferia, para dar o seguinte recado: 'nunca mais façam isso'" . O ciclo de violência descrito por Manuel Rojas — onde o pobre é "hostilizado pela polícia" — atingiu seu ápice trágico: o Estado, em vez de proteger, assassinou. 

A Negociação com o Crime 

O fim dos ataques só veio após um fato que envergonhou as instituições: o governo paulista enviou uma advogada para negociar diretamente com Marcola na prisão. Após a conversa, os ataques cessaram . O Estado reconheceu, na prática, a liderança do PCC como um poder com o qual era preciso negociar. 

A Atualidade da Obra de Manuel Rojas 

Filho de Ladrão é atual porque descreve o processo de gestação do "cliente" preferencial do sistema penal e do recrutador do crime organizado. Aniceto Hevia é o arquétipo do jovem que, abandonado pelo Estado e hostilizado pela polícia, descobre que a "lei" não o protege. A diferença entre Aniceto e um membro do PCC em 2006 é que Aniceto estava só; os jovens de 2006 tinham uma organização. 

A obra de Rojas é um alerta perene: enquanto a América Latina tratar a desigualdade social com balas e prisões, em vez de políticas públicas e inclusão, ela continuará a fabricar exércitos de "filhos de ladrão" que, um dia, podem se organizar para dar o troco. O Salve Geral de 2006 não foi uma aberração; foi a consequência lógica e brutal de um século de exclusão, violência estatal e corrupção, cujas sementes estão brilhantemente retratadas na jornada solitária de Aniceto Hevia. 

 

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