SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Filosofia do Amor-Condenação: Uma Ética da Ferida Compartilhada Por Egidio Guerra.






I. A Primeira Lei: O Coração Partido é um Espelho

Heathcliff e Catherine Earnshaw, Edmond Dantès e Mercédès. Em ambos os épicos, o amor não é uma força suave, mas um elemento da natureza, tão vital e devastador quanto um vendaval no morro ou uma tempestade no mar. A filosofia que emerge destas narrativas nos ensina uma verdade primordial e cruel: o coração de quem amamos não é um território separado do nosso; é uma extensão da nossa própria alma.

Quando Catherine declara "Eu sou Heathcliff", ela não está apenas sendo poética. Ela está enunciando a lei fundamental desta filosofia. Ferir a pessoa amada não é um ato dirigido a um "outro", é uma automutilação. A vingança, nesse contexto, revela-se o mais trágico dos equívocos. Heathcliff, ao destruir tudo o que Catherine amava, acreditava estar punindo o mundo que os separou, mas a cada golpe, era a sua própria imagem no espelho que se estilhaçava. Monte Cristo, ao orquestrar a queda meticulosa de seus inimigos, descobriu que a ruína que espalhava ao redor respingava de volta, enegrecendo a memória do amor que o guiava. A ética que daqui se extrai é: antes de agir, pergunta-te se a dor que desejas infligir é uma dor que estás disposto a habitar para sempre.

II. A Segunda Lei: O Amor como Condenação Sem Justiça

O amor, em sua forma mais absoluta, não é uma escolha. É uma condenação. Não há tribunal, não há apelo, não há justiça que possa revertê-la. Heathcliff não escolheu amar Catherine; estava destinado a ela desde o momento em que foram forjados pelo mesmo barro selvagem. Dantès não escolheu amar Mercédès; era a âncora que o mantinha são antes do abismo do Castelo de If.

Esta condenação é intrinsecamente injusta. Não nos é prometido que o amor será correspondido na mesma medida, nem que o mundo permitirá que ele floresça. A sociedade, as mentiras, o tempo e o acaso conspiram contra ele. Catherine casou-se com Edgar Linton por status e segurança, uma "injustiça" que condenou a si e a Heathcliff a uma vida de tormento. Mercédès, acreditando Edmond morto, sucumbiu à pressão do tempo e casou-se com Fernand, um erro que nenhum dos dois pôde reparar completamente.

A ética desta condenação não está em buscar a justiça onde ela não existe, mas em reconhecer a soberania da ferida. Aceitar que amamos alguém é aceitar que carregaremos a sua marca, como um ferrete, para sempre. Não há como apagar. A justiça é um conceito humano; o amor, uma força da natureza. Ela não pede permissão para existir e não oferece consolo para a sua ausência.

III. A Terceira Lei: A alma Necessária

"E não podemos viver sem a alma de quem amamos". Esta "alma" é tudo o que há de terreno, de imperfeito e de real no outro. É a teimosia de Catherine, a ambição de Heathcliff, a inocência perdida de Dantès, a fragilidade de Mercédès. Amar a ideia pura de alguém é fácil. Amar a sua alma — seus defeitos, suas escolhas erradas, sua humanidade falha — é o verdadeiro teste da condenação.

Heathcliff não amava uma Catherine idealizada; amava a Catherine que era tão selvagem e imperfeita quanto ele. Dantès, no fundo, amava a Mercédès que existia em sua memória, mas também precisou aprender a amar (ou a perdoar) a mulher que ela se tornou, marcada pelo tempo e pelas circunstâncias. A ética aqui é de uma aceitação radical. Não podemos viver sem a presença física, emocional e imperfeita do ser amado porque é nessa "alma" que as nossas raízes se enterram. Arrancá-las é morrer lentamente, como uma planta arrancada da terra. A tentativa de viver sem ela é o que leva ao definhamento da alma, visível nos olhos vazios de um Heathcliff que vaga pelos pântanos ou na frieza calculista de um Monte Cristo que esqueceu como sentir.

IV. A Ética Final: Amar Até Morrer, Mas Viver na Luz

Se o amor é uma condenação e a vingança é uma ferida autoinfligida, qual é o caminho?

A resposta está em "amar até morrer", mas interpretando essa morte não como um fim físico, e sim como uma morte do ego, do orgulho e da sede de vingança. Heathcliff e Dantès só encontraram paz (ou a sua versão dela) quando abandonaram o projeto de retribuir o mal com o mal. Heathcliff, nos seus momentos finais, perde a vontade de destruir, porque percebe que Catherine já não está ali para ser atingida — e ele mesmo já não existe sem ela. Dantès só consegue recomeçar quando perdoa Mercédès e a si mesmo, quando abandona o papel de "anjo vingador" e se permite ser, novamente, Edmond.

A filosofia e ética do amor, portanto, ensina-nos que:

  1. A vingança é um caminho que nos leva de volta à nossa própria porta. Aquele que fere o coração amado, fere-se a si mesmo em um eco infinito.

  2. O amor é uma condenação que nos obriga a habitar a injustiça. Não podemos consertar o mundo para que ele seja justo com o nosso amor, mas podemos escolher não aumentar a sua injustiça com o nosso ódio.

  3. Precisamos da "alma" do outro porque é nela que reside a nossa humanidade partilhada. Aceitar a imperfeição do ser amado é aceitar a nossa própria.

  4. Amar até morrer significa amar até que o nosso "eu" vingativo, orgulhoso e rancoroso morra dentro de nós. Significa escolher, a cada instante, a lembrança do amor que nos uniu em vez da lembrança da dor que nos separou. É entender que, no final, a única coisa que resta, para além da tempestade e da prisão, é a capacidade de olhar para o outro e dizer, como Catherine, "Eu sou ele", e encontrar aí, não a danação, mas uma estranha e possível redenção.




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