SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Moscou Feliz !




Sobre a História 

Moscou Feliz (Schastlivaya Moskva) é uma novela inacabada do escritor soviético Andrei Platónov, escrita por volta de 1932, mas publicada postumamente apenas em 1991, com a chegada da Perestroika . O título é um trocadilho que faz referência direta ao nome da protagonista, Moscou (ou MoscovaTchestnova, uma jovem órfã criada pela Revolução . 

A história acompanha a trajetória desta "rapariga belíssima e audaz" em sua busca por felicidade na Moscou dos anos 1930, a capital que Stalin proclamava ter se tornado um paraíso onde "a vida se tornou melhor, a vida se tornou mais alegre" . Moscou Tchestnova é o arquétipo da "nova mulher soviética": uma paraquedista que encarna o entusiasmo juvenil e a crença de que os filhos do proletariado poderiam construir o futuro com as próprias mãos em uma sociedade de alta inovação técnica e científica . 

A narrativa, no entanto, subverte essa expectativa. Apesar de sua fé no futuro e de seus esforços para viver segundo os preceitos socialistas, Moscou e seus amigos — cientistas, médicos e engenheiros que representam o ideal do progresso racional — não conseguem encontrar a plenitude prometida . A protagonista busca relacionar-se livremente e seguir seus desejos, mas se depara com limites intransponíveis. 

O romance é fragmentado, um reflexo de seu estado inacabado e do estilo experimental e vanguardista de Platónov, que mistura lirismo e ironia para criar um "retrato assombroso" de uma geração que acreditou poder reinventar o mundo . A própria cidade de Moscou é mais do que um cenário; é uma entidade que se confunde com o destino da protagonista e da União Soviética . 

Trechos da Obra 

A força da prosa de Platónov reside em sua capacidade de revelar o absurdo e a tragédia por trás do discurso oficial, muitas vezes através da perspectiva ingênua de seus personagens. Os trechos a seguir ilustram essa maestria: 

  1. Sobre a Inocência e a Exclusão: A protagonista observa a cidade com uma curiosidade que beira a candura, mas que rapidamente se transforma em um pressentimento de deslocamento e solidão. 

Moscú estaba tan interesada por lo que sucedía en el mundo que se ponía en puntas de pie para admirar el interior de los hogares, hasta que los transeúntes se reían de ella. Ella, en cambio, no sabía a qué apegarseadónde entrar para vivir de un modo feliz y corrienteEn ninguna de esas casas había alegría para ella; no sentía el mentor sosiego ante el calor de las estufas y la luz de las lámparas de mesa.”  

  1. Sobre a Farsa da Justiça Social: Através da fala de um personagem, Platónov expõe de forma insidiosa a discrepância entre a retórica igualitária e a realidade material, usando a imagem de uma balança de supermercado como metáfora do controle estatal. 

Bozhkó [um engenheiro amante da racionalidade] explicou também por que o aparelho para pesar é o objeto mais insignificante e imperceptível: porque o homem olha com atenção apenas aquilo que jaz na balança — o salame ou o pão —, e não repara que, debaixo do pão e do salame, está o instrumento por excelência da honra e da justiça, um simples e humilde aparelho que calcula e protege os bens sagrados do socialismo: aquele que mede a comida do trabalhador da fábrica e da fazenda coletiva em função de seus trabalhos e do cálculo econômico” . 

Críticas Literárias 

A obra e seu autor são alvo de análises que destacam sua singularidade e profundidade: 

  • Joseph Brodsky, prêmio Nobel de Literatura, coloca Platónov no panteão dos maiores escritores do século XX, equiparando a experiência de sua leitura a um despertar de sentidos. 

Platónov é, com certeza, o mais brilhante prosador russo do século vinte, porque não há nada parecido com ele. Em cada uma de suas páginas há tamanha profusão de sensações, e tantas camadas sobrepostas de literatura russa, que só de lê-lo a pessoa desenvolve novos órgãos sensoriais” . 

  • A crítica estrangeira destaca o caráter de "sátira anárquica" da novela, que expõe o abismo entre a euforia propagandeada por Stalin e a dura realidade . O Spectator ressalta seu valor como um testemunho único da violência, muitas vezes não física, que um sistema totalitário inflige à vida das pessoas . 

  • O tradutor argentino Alejandro González, que verteu a obra para o espanhol, comenta sobre a experiência única proporcionada pelo estilo de Platónov: 

Platónov criou um estilo. Tem uma sintaxe muito especial, imediatamente reconhecível. É muito consciente das palavras e de como desarticulá-las. Quando você começa a lê-lo, ele te coloca em uma tonalidade distinta. É quase como entrar em um filme de Tarkovsky. Há uma temporalidade distinta. É uma experiência, não é tanto uma mensagem que você recebe: você entra em coordenadas tempo-espaciais e linguísticas distintas” . 

A Proibição por Stálin 

A perseguição a Platónov é uma das páginas mais tristes da literatura soviética. Apesar de ser comunista, sua visão crítica e seu estilo literário único colidiam frontalmente com os dogmas do Realismo Socialista . 

  • A perspicácia de Górki: Máximo Górki, o patrono do Realismo Socialista, advertiu Platónov profeticamente: 

“Você nunca conseguirá publicar, porque em tudo que você escreve há algo anárquico, algo que é evidentemente central em seu estilo: você retrata a realidade sob uma luz farsesca que é inaceitável. Apesar do carinho que sente pelos personagens, eles surgem satirizados aos olhos do leitor: não como revolucionários, mas como delirantes, crédulos, tontos, possuídos” . 

  • A fúria de Stálin: A perseguição atingiu o ápice quando, após a publicação da história "Para Uso Futuro", em 1931, Stálin escreveu "canalha" na margem do texto e ordenou uma punição exemplar . A partir daí, Platónov tornou-se um alvo. Embora não tenha sido enviado para o Gulag, viu seu filho de apenas 15 anos ser preso em 1938 e condenado a dez anos de trabalhos forçados . O rapaz retornou três anos depois, doente com tuberculose, e morreu nos braços do pai, que contraiu a mesma doença e faleceu em 1951 . Moscou Feliz, iniciado na década de 1930, foi abandonado pelo autor, muito provavelmente por medo das consequências de se escrever uma obra tão subversiva . 

A Atualidade da Obra Diante das Ditaduras Atuais 

Moscou Feliz transcende seu contexto histórico e se mantém assustadoramente atual por diversas razões, especialmente quando se observa o modus operandi de ditaduras e regimes autoritários contemporâneos: 

  1. O Abismo entre o Discurso e a Realidade: Assim como a propaganda stalinista proclamava uma "vida feliz" enquanto as pessoas enfrentavam escassez e repressão, regimes autoritários modernos utilizam sofisticados mecanismos de propaganda e "factoides" para criar uma realidade paralela. A novela de Platónov é um antídoto literário a essa distorção, mostrando como a linguagem é a primeira vítima da tirania . 

  1. A "Farsa" como Ferramenta de Controle: A observação de Górki de que os personagens de Platónov parecem "delirantes, crédulos, tontos, possuídos"  em vez de revolucionários é uma descrição precisa do que regimes autoritários fazem com seus cidadãos. Ao destruir a possibilidade de uma vida autêntica e substituí-la por rituais vazios e uma retórica grandiosa mas oca, o Estado transforma o indivíduo em um fantoche, um "tonto" que repete slogans sem compreender sua própria condição. 

  1. A Destruição do Indivíduo pelo Ideal: Moscou Tchestnova quer "colocar o corpo no comunismo" e acfa "fisicamente destroçada" . Esta é uma metáfora poderosa para o que acontece em qualquer regime de força: a aniquilação do indivíduo e de seus desejos em nome de um "bem maior" ou de um projeto ideológico. Seja na Coreia do Norte, em certas práticas de estados teocráticos ou em regimes de vigilância extrema, o padrão de subordinação da felicidade pessoal à razão de Estado se repete. 

  1. A Solidão em Meio à Multidão: A imagem de Moscou observando as casas iluminadas de fora, sem encontrar "alegria para ela" em nenhuma delas , é uma representação pungente da solidão e da alienação impostas pelo totalitarismo. Apesar da retórica de união e coletividade, o indivíduo é deixado à deriva, desconfiado de todos e incapaz de construir laços afetivos genuínos em um ambiente de medo e suspeita. 

Em suma, Moscou Feliz não é apenas uma relíquia literária do período stalinista, mas um lembrete lúcido e doloroso de como a promessa de um mundo novo e feliz pode se transformar em seu oposto quando o poder não tem freios e a linguagem é sequestrada pela propaganda. A obra de Platónov, finalmente acessível em português, convida o leitor a desenvolver "novos órgãos sensoriais" para perceber as "farsas" do seu próprio tempo 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário