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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Quantum e Cosmos: Introdução à Metacosmologia por Mario Novello

 


O físico e cosmólogo brasileiro Mario Novello, em Quantum e Cosmos, propõe uma reflexão que transcende os limites da ciência tradicional. O livro é um convite para recuperar o "maravilhamento" diante do Universo, um sentimento que, segundo o autor, foi perdido ao longo do século XX quando a cosmologia se reduziu a um "afazer técnico e prático", repleto de equações inacessíveis que não estimulam uma reflexão mais profunda sobre a existência .

Novello parte da crítica do filósofo Martin Heidegger, que via a ciência moderna como incapaz de produzir "modos de pensar amplos" que despertem o espírito. Contra essa visão, o autor argumenta que a cosmologia contemporânea está justamente gerando ideias capazes de renovar o pensamento. É nesse contexto que ele introduz o conceito de metacosmologia: enquanto a cosmologia se dedica ao estudo do nosso Universo, a metacosmologia ousa pensar sobre a totalidade dos "universos compossíveis" e as estruturas que os tornam possíveis .

A obra se debruça sobre a questão fundamental da metafísica, também levantada por Heidegger: "por que existe alguma coisa em vez de nada?" . Para construir essa reflexão, Novello explora uma série de tópicos que desafiam a visão clássica e determinista do cosmos:

  • Fim do Determinismo Clássico: As leis da física, antes vistas como rígidas e eternas, dão lugar a "leis cósmicas variáveis, dependentes do tempo cósmico". A descoberta de processos de bifurcação – fenômenos que podem seguir um entre dois ou mais caminhos possíveis – revela um "cosmos indeciso" e hesitante, que limita o determinismo e abre espaço para o novo e o imprevisto .

  • O Universo Inacabado e Cíclico: O livro contrapõe a visão ingênua de um Universo que teria um fim definitivo num "grande cataclismo (Big Crunch)". Novello, que em 1979 elaborou o primeiro modelo de um universo eterno, defende um cosmos em eterno processo de formação. "O Universo ainda está em formação, é inacabado, eternamente inacabado, imerso em um processo contínuo de formação, criação e destruição". Nessa visão cíclica, o Universo emerge do vazio e para ele retorna, num processo sem fim aparente, onde novos universos podem surgir com diferenças a cada ciclo .

  • Universo Solidário e Ética Cósmica: A obra culmina com a retomada da ideia de Giordano Bruno sobre um "universo solidário". A partir dessa compreensão de interconexão total, Novello sugere a possibilidade de construir uma ética. Se tudo está interligado em um cosmos que se autoconstroi, nossa percepção de separação é uma ilusão, e dessa consciência emerge um novo fundamento para a ação ética no mundo .

Em suma, Quantum e Cosmos é uma obra que transita entre a física, a filosofia e a ética, propondo que a ciência, em vez de nos afastar do mistério, pode nos reconectar com ele através de uma nova forma de pensar que Novello chama de metacosmologia.

Comparação Crítica, Humana e Cosmológica: O Amor Impossível e o Universo Inacabado

A ausência de trechos diretos da obra de Sztajnszrajber impede uma análise textual, mas podemos esboçar um diálogo crítico a partir do que se conhece de seu pensamento. Darío Sztajnszrajber é um filósofo conhecido por desconstruir conceitos arraigados, e seu livro El Amor Es Imposible provavelmente aborda o amor não como algo a ser alcançado ou possuído, mas como uma experiência que só é possível justamente por sua impossibilidade estrutural – uma força que nos tira de nós mesmos e rompe com a lógica da utilidade e da posse.

A tabela a seguir sintetiza os possíveis pontos de diálogo e tensão entre as duas obras:

Eixo Temático"El Amor Es Imposible" (Hipótese Filosófica)"Quantum e Cosmos" (Metacosmologia Científica)Síntese Crítica
Natureza da RealidadeO amor é uma experiência de ruptura com a mesmice, uma desconstrução do sujeito e do objeto. Ele não se encaixa em categorias fixas.O cosmos é indeciso, inacabado e marcado por bifurcações. A realidade não é determinista, mas aberta a possibilidades .Ponto de Convergência: Tanto o amor quanto o cosmos fogem de uma lógica determinista. O amor, como impossibilidade, e o cosmos, como indecisão, apontam para uma realidade que não é dada de antemão, mas que se constrói na relação e na abertura ao acaso.
Relação com o VazioAmar é aceitar a falta, a impossibilidade de completude. O outro não é a metade que nos completa, mas um ser que nos confronta com o vazio constitutivo do ser.O universo emerge do vazio e para ele retorna em ciclos eternos. O vazio não é ausência, mas a potência de onde tudo pode surgir .Ponto de Tensão: Se para a filosofia o vazio pode ser a angústia da incompletude que o amor escancara, para a cosmologia o vazio é a fonte criadora. A ponte se daria ao pensarmos que é exatamente desse "vazio" existencial que a potência do amor – como criação contínua e não como solução – pode emergir.
Conexão e ÉticaO amor verdadeiro desemboca em uma ética da alteridade, onde o outro é reconhecido em sua diferença radical, sem ser reduzido ao eu.A ideia de um "universo solidário", onde tudo está interligado, fundamenta uma nova ética. A separação é uma ilusão .Diálogo Complementar: A metacosmologia oferece uma base ontológica (a interconexão cósmica) para a ética do amor. Se o cosmos é solidário, o amor deixa de ser um mero sentimento subjetivo e se torna um princípio cósmico de reconhecimento do outro como parte indissociável de uma mesma realidade inacabada.
FinalidadeO amor não tem utilidade, não serve para nada. Sua grandeza reside em sua gratuidade.O universo cíclico não tem um fim teleológico. Ele se repete, mas com diferenças, num processo sem propósito externo, apenas autocriação perpétua .Convergência Profunda: Tanto o amor (na visão do filósofo) quanto o cosmos (na visão do físico) são gratuitos. Não existem para cumprir um objetivo pré-determinado. O amor é impossível como produto, mas possível como processo, assim como o universo é um eterno inacabamento, um eterno processo de se fazer.

As Origens do Amor e o Destino da Humanidade e do Cosmos

Se as origens do amor estão na falta, no encontro com o outro e na ruptura com o ego, Quantum e Cosmos sugere que essa dinâmica não é apenas humana, mas cósmica. O amor seria, então, uma manifestação localizada de uma tendência universal à relação e à solidariedade. Assim como o cosmos se autoconstroi a partir do vazio e da bifurcação, o amor humano se constrói na relação com a alteridade, sem um roteiro prévio, sempre "inacabado".

Quanto ao destino da humanidade e do cosmos, o pensamento de Novello oferece uma perspectiva paradoxal. Com amor ou sem amor, o cosmos continuará seu ciclo eterno de criação e destruição. No entanto, a consciência humana desse processo – a capacidade de experimentar o amor como uma força de solidariedade cósmica – pode definir o destino da nossa humanidade. Se nos percebermos como parte desse "universo solidário", nossa ética e nossa ação no mundo podem se alinhar a essa dinâmica criativa e relacional. Sem essa consciência, corremos o risco de viver na ilusão da separação, agindo como se fôssemos uma parte isolada de um todo que, na verdade, nos constitui.

Em conclusão, a leitura conjunta dessas obras nos convida a pensar que, assim como o universo é eternamente inacabado, o amor é uma tarefa infinita. Ambos nos confrontam com o vazio e a possibilidade, e nos chamam a participar ativamente de um processo que é, ao mesmo tempo, profundamente humano e vastamente cósmico.

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