Novello parte da crítica do filósofo Martin Heidegger, que via a ciência moderna como incapaz de produzir "modos de pensar amplos" que despertem o espírito. Contra essa visão, o autor argumenta que a cosmologia contemporânea está justamente gerando ideias capazes de renovar o pensamento. É nesse contexto que ele introduz o conceito de metacosmologia: enquanto a cosmologia se dedica ao estudo do nosso Universo, a metacosmologia ousa pensar sobre a totalidade dos "universos compossíveis" e as estruturas que os tornam possíveis .
A obra se debruça sobre a questão fundamental da metafísica, também levantada por Heidegger: "por que existe alguma coisa em vez de nada?" . Para construir essa reflexão, Novello explora uma série de tópicos que desafiam a visão clássica e determinista do cosmos:
Fim do Determinismo Clássico: As leis da física, antes vistas como rígidas e eternas, dão lugar a "leis cósmicas variáveis, dependentes do tempo cósmico". A descoberta de processos de bifurcação – fenômenos que podem seguir um entre dois ou mais caminhos possíveis – revela um "cosmos indeciso" e hesitante, que limita o determinismo e abre espaço para o novo e o imprevisto .
O Universo Inacabado e Cíclico: O livro contrapõe a visão ingênua de um Universo que teria um fim definitivo num "grande cataclismo (Big Crunch)". Novello, que em 1979 elaborou o primeiro modelo de um universo eterno, defende um cosmos em eterno processo de formação. "O Universo ainda está em formação, é inacabado, eternamente inacabado, imerso em um processo contínuo de formação, criação e destruição". Nessa visão cíclica, o Universo emerge do vazio e para ele retorna, num processo sem fim aparente, onde novos universos podem surgir com diferenças a cada ciclo .
Universo Solidário e Ética Cósmica: A obra culmina com a retomada da ideia de Giordano Bruno sobre um "universo solidário". A partir dessa compreensão de interconexão total, Novello sugere a possibilidade de construir uma ética. Se tudo está interligado em um cosmos que se autoconstroi, nossa percepção de separação é uma ilusão, e dessa consciência emerge um novo fundamento para a ação ética no mundo .
Em suma, Quantum e Cosmos é uma obra que transita entre a física, a filosofia e a ética, propondo que a ciência, em vez de nos afastar do mistério, pode nos reconectar com ele através de uma nova forma de pensar que Novello chama de metacosmologia.
Comparação Crítica, Humana e Cosmológica: O Amor Impossível e o Universo Inacabado
A ausência de trechos diretos da obra de Sztajnszrajber impede uma análise textual, mas podemos esboçar um diálogo crítico a partir do que se conhece de seu pensamento. Darío Sztajnszrajber é um filósofo conhecido por desconstruir conceitos arraigados, e seu livro El Amor Es Imposible provavelmente aborda o amor não como algo a ser alcançado ou possuído, mas como uma experiência que só é possível justamente por sua impossibilidade estrutural – uma força que nos tira de nós mesmos e rompe com a lógica da utilidade e da posse.
A tabela a seguir sintetiza os possíveis pontos de diálogo e tensão entre as duas obras:
As Origens do Amor e o Destino da Humanidade e do Cosmos
Se as origens do amor estão na falta, no encontro com o outro e na ruptura com o ego, Quantum e Cosmos sugere que essa dinâmica não é apenas humana, mas cósmica. O amor seria, então, uma manifestação localizada de uma tendência universal à relação e à solidariedade. Assim como o cosmos se autoconstroi a partir do vazio e da bifurcação, o amor humano se constrói na relação com a alteridade, sem um roteiro prévio, sempre "inacabado".
Quanto ao destino da humanidade e do cosmos, o pensamento de Novello oferece uma perspectiva paradoxal. Com amor ou sem amor, o cosmos continuará seu ciclo eterno de criação e destruição. No entanto, a consciência humana desse processo – a capacidade de experimentar o amor como uma força de solidariedade cósmica – pode definir o destino da nossa humanidade. Se nos percebermos como parte desse "universo solidário", nossa ética e nossa ação no mundo podem se alinhar a essa dinâmica criativa e relacional. Sem essa consciência, corremos o risco de viver na ilusão da separação, agindo como se fôssemos uma parte isolada de um todo que, na verdade, nos constitui.
Em conclusão, a leitura conjunta dessas obras nos convida a pensar que, assim como o universo é eternamente inacabado, o amor é uma tarefa infinita. Ambos nos confrontam com o vazio e a possibilidade, e nos chamam a participar ativamente de um processo que é, ao mesmo tempo, profundamente humano e vastamente cósmico.
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