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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Quão Caro Foi e sempre será o Açúcar? Por Egidio Guerra




O livro "Quão caro foi o açúcar?" (orig. Hoe duur was de suiker?) de Cynthia McLeod é um romance histórico que se passa no Suriname do século XVIII, especificamente na década de 1770. A obra utiliza a estrutura de uma novela para explorar as complexas e brutais relações sociais de uma colônia açucareira holandesa. 

Resumo da História: 
A narrativa centra-se em duas meias-irmas de origem judaico-portuguesa que vivem em uma plantação às margens do rio Suriname. Elas representam dois polos da elite colonial: 

  • Elisabeth: A irmã mais velha, bondosa e humanista, que enxerga a humanidade nos escravizados e se incomoda com a crueldade do sistema. 

  • Elza (ou Sarith): A irmã mais nova, bela, mimada e cruel. Ela personifica a arrogância e a brutalidade da classe senhorial, tratando os escravizados com extrema violência e desprezo. 

A trama se desenvolve em torno da rivalidade entre as irmãs e do envolvimento de ambas com um jovem oficial alemão. No entanto, o pano de fundo é a vida na plantação de cana-de-açúcar, onde a riqueza é gerada pelo trabalho escravo. Através de personagens escravizados como as irmãs Quamina e Ruben, a autora expõe os castigos, as humilhações, a venda de famílias e a constante luta pela sobrevivência e dignidade. O título do livro é uma reflexão direta sobre o custo humano incalculável pago pelos africanos escravizados para que a elite europeia pudesse desfrutar do açúcar barato na Europa. 

Fatos Históricos da Época (Séculos XVIII e XIX): 
A história do Suriname colonial, bem retratada pela ficção de McLeod e pela historiografia, é marcada por: 

  • A Sociedade da Plantação: A economia era totalmente dependente da monocultura da cana-de-açúcar (e depois café e cacau) trabalhada por mão de obra escravizada. A relação era de extrema violência e desumanização, onde os senhores tinham poder de vida e morte sobre os cativos . 

  • A Criação de uma Sociedade Racializada: A colônia desenvolveu um sistema rígido de hierarquia baseado na cor da pele. O artigo de Pepijn Brandon mostra como até mesmo interações cotidianas em Paramaribo eram policiadas para reforçar as barreiras raciais entre "cidadãos brancos e escravos negros" . 

  • Resistência e Quilombos (Maroons): Desde o início da colonização, africanos escravizados fugiam para a floresta tropical, formando comunidades autônomas conhecidas como "Maroons" (ou "Bosnegers"). Os Saramacanos são um desses povos, que firmaram um tratado de paz com os holandeses em 1762 após anos de guerra de guerrilha, garantindo sua liberdade e território . 

  • A Abolição Tutelada (1863): Quando a Holanda aboliu a escravidão em 1863, libertou cerca de 34.000 pessoas. No entanto, os ex-escravizados foram submetidos a um período de "Estado de Tutela" (Staatstoezicht) por 10 anos, sendo obrigados a continuar trabalhando nas plantações mediante contratos e sob supervisão estatal, em troca de um salário mínimo. O governo holandês pagou uma indenização aos senhores de escravos, mas nada aos libertos . 

O Impacto Duradouro da Colonização no Suriname Atual 

A frase citada no estudo de Hans Ramsoedh"Os pregos foram retirados, mas os buracos permanecem" , sintetiza perfeitamente a herança colonial no Suriname. Apesar de a escravidão ter terminado, suas estruturas sociais e econômicas deixaram marcas profundas. 

  • Discriminação Estrutural e Racismo: Relatório de 2025 da ONU aponta que a discriminação racial estrutural no Suriname é persistente. Afrodescendentes (crioulos e maroons), embora sejam o grupo populacional mais numeroso, estão "atrasados na maioria dos indicadores socioeconômicos". Há um "sentimento de não pertencimento" à sociedade e de "abandono por parte do governo" nas regiões por eles habitadas, que são as menos desenvolvidas . 

  • Conflitos Fundiários e Exploração de Recursos: A lógica extrativista colonial permanece. Comunidades maroons e indígenas continuam a ser deslocadas de suas terras ancestrais para dar lugar a megaprojetos de mineração (ouro, bauxita) e hidrelétricos, muitas vezes por empresas estrangeiras, com pouca consulta ou compensação justa. O caso da aldeia de Nieuw-Koffiekamp, que viveu dois deslocamentos forçados (para uma represa nos anos 60 e para uma mina de ouro nos anos 90), é um exemplo clássico dessa continuidade . Em 2007, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Suriname justamente por violar os direitos territoriais do povo Saramaca ao conceder concessões de mineração em suas terras sem consentimento . 

  • Cidadania Incompleta: A historiadora Ellen Neslo demonstra que, mesmo antes da abolição, existia uma elite de cor livre em Paramaribo, mas que para sobreviver economicamente, muitas vezes precisava se integrar ao sistema escravista, possuindo também escravizados . Após 1863, o governo colonial falhou em criar uma classe de pequenos agricultores camponeses entre os crioulos, focando-se em suprir as plantações com mão de obra barata (inclusive com imigrantes contratados da Índia e Java) e promovendo uma política de "holandização" cultural forçada, o que Ramsoedh chama de uma cidadania "rebaixada" . 

Caminhos para a Libertação Econômica e Tecnológica na América Latina 

A questão final nos leva a um plano mais amplo, inspirado nas ideias de Celso Furtado e da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). A tese central é que a América Latina precisa superar sua função histórica de exportadora de bens primários (commodities) para a periferia e construir uma indústria nacional forte que gere tecnologia e valor agregado, quebrando a "colonização econômica". 

O Diagnóstico: A Colonialidade Econômica 

A CEPAL, desde os anos 1950, diagnosticou que o sistema econômico internacional reproduz uma divisão entre um centro (industrializado, tecnológico) e uma periferia (produtora de matérias-primas). Essa relação é estruturalmente desigual: os termos de troca se deterioram para a periferia, que precisa exportar cada vez mais para importar a mesma quantidade de manufaturados e tecnologia. Celso Furtado argumentava que o desenvolvimento só ocorre quando há um projeto nacional que internaliza os centros de decisão e inovação. 

A Receita dos Recursos: O Dilema da "Doença Holandesa" 

A América Latina é abundantemente rica em recursos: minérios (cobre, lítio, ferro), água, terras raras, carne, grãos (soja, milho) e frutas. No entanto, a mera exportação desses bens, sem processamento local e sem controle nacional, frequentemente leva à "doença holandesa" (apreciação cambial que desindustrializa o país) e à reprimarização da economia, mantendo a região presa ao papel de colônia provedora de recursos naturais. 

O Caminho: Industrialização com Soberania (O Modelo Chinês como Referência) 

A China é o exemplo mais bem-sucedido da história recente de como usar a produção primária como trampolim para a industrialização. O país asiático importou commodities da América Latina por décadas, industrializou-se e hoje exporta produtos de alto valor tecnológico de volta para a região. A pergunta é: como a América Latina pode seguir um caminho semelhante? 

  1. Agregação de Valor Local (Industrialização dos Recursos Naturais): O primeiro passo é parar de exportar apenas a matéria-prima. 

  1. Minérios: Em vez de exportar lítio bruto, produzir baterias. Em vez de exportar minério de ferro, produzir aço e manufaturas metal-mecânicas. 

  1. Biomassa e Alimentos: A gigantesca produção de grãos e carne precisa alimentar cadeias locais de processamento de alimentos, biocombustíveis e química verde. Frutas podem ser processadas em polpas, sucos concentrados e cosméticos antes de serem exportadas. 

  1. Água: A água doce, recurso estratégico, deve ser protegida como bem nacional, e seu uso (inclusive para mineração e agricultura) deve ser rigidamente controlado para garantir a soberania hídrica e alimentar. 

  1. Controle Estatal e Parcerias Estratégicas: O Estado deve ter um papel ativo, não necessariamente como único proprietário, mas como regulador e sócio estratégico. Empresas nacionais (estatais ou privadas fortes) devem ser os atores principais. 

  1. Fundos Soberanos: Criar fundos com os lucros da exportação de commodities (como fez a Noruega com o petróleo) para investir em ciência, tecnologia e educação. 

  1. Conteúdo Local: Exigir que empresas estrangeiras que exploram recursos (mineração, petróleo) utilizem uma porcentagem crescente de fornecedores locais de bens e serviços, fomentando a indústria nacional. 

  1. Integração Regional (UNASUL, CELAC): Um país sozinho não consegue se industrializar plenamente no século XXI. É necessária a integração física (estradas, ferrovias, hidrovias bioceânicas) e produtiva. Por exemplo, o gás da Bolívia pode abastecer indústrias no Brasil e Argentina, que podem exportar manufaturas para a região. 

  1. Cadeias Regionais de Valor: Criar cadeias produtivas regionais, onde cada país contribui com uma parte do processo industrial, fortalecendo o mercado interno continental. 

  1. Inovação, Tecnologia e "Terras Raras": As terras raras são fundamentais para a indústria de alta tecnologia (carros elétricos, celulares, turbinas eólicas). A América Latina (especialmente o Brasil) possui grandes reservas. Para romper a dependência tecnológica, é preciso: 

  1. Investir massivamente em ciência e tecnologia (P&D) dentro das universidades e centros de pesquisa públicos, formando engenheiros e cientistas. 

  1. Criar uma indústria nacional de bens de capital (máquinas e equipamentos) para que o ciclo produtivo não dependa de importações. 

  1. Desenvolver tecnologia própria para o beneficiamento das terras raras, cujo processo é atualmente dominado pela China. 

Em suma, como defendeu a CEPAL, a libertação econômica passa por um projeto nacional de desenvolvimento que utilize a renda da abundância natural para construir uma base industrial e tecnológica autônoma, garantindo que a riqueza do solo e do subsolo se transforme em bem-estar, educação e futuro para o povo, e não apenas em lucro para corporações estrangeiras. 

 

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