Depois que compreendi que cada pessoa é um universo inteiro — que cria, que destrói, que se renova em silêncio ou em tempestade —, e que cada universo carrega seus personagens, suas linguagens, seus contextos, suas regras e seus modos de existir, eu me fiz escritor. E a vida passou a ser esse encontro com os outros mundos.
Mas, antes que o encontro se tornasse esvaziamento, antes que a minha voz fosse apenas eco do que não era meu, lembrei: era preciso, primeiro, construir a minha própria morada.
Erguer o meu universo. Não de empréstimo. Não de favor. Não ocupado.
E conquistar a morada, eu entendi, é conquistar a palavra. A palavra que funda, que fere, que liberta. A palavra que não se dobra, que não implora licença para existir. Porque morada verdadeira não é a que se ocupa — é a que se constrói com as próprias mãos, com a própria língua, com a própria raiva e delírio.
A essa luta sem fim, a esse parto diário, dei o nome de Educação da Sabedoria.
Que começa onde? No chão. No próprio chão. Depois, nos sonhos. Depois, nas palavras. E assim, infinitamente, como quem aprende a viver não para ser habitado, mas para habitar-se.
Porque ninguém mora em mim sem minha permissão. E ninguém cala a minha voz enquanto eu tiver chão, sonho e palavra em Meu próprio ciclo. Voltei a escrever meu novo livro, nossa vida, nosso chão da sabedoria continua...
E 2026 chegou como um corcel de crinas incendiadas — o Ano do Cavalo de Fogo, que não veio pedir licença, mas arrancar do mundo suas máscaras.
Forjado no calor das entranhas da terra, este ano não é metáfora: é presságio. Enquanto a inteligência que criamos começa a andar sozinha, a Singularidade Tecnológica bate à porta com olhos de silício e perguntas que ainda não aprendemos a fazer. As máquinas sonham com elétrons — e nós, com o que?
As mudanças climáticas não são mais profecia; são pele. São o ar que arde, o rio que morre, o céu que se fecha como quem desiste de ser céu. O planeta não pede socorro: apenas mostra as contas. E quem pode pagar?
Mas eis que, entre as cinzas de um mundo que insiste em se repetir, o fascismo caiu. Caiu nos Estados Unidos, caiu na Europa — não por acaso, não por bondade dos ventos, mas porque o povo aprendeu a nomear o monstro. E quando se nomeia o monstro, ele encolhe. Quando se aponta a treva, ela foge. Ainda há feridas. Ainda há ódio encolhido nos escombros. Mas a derrota foi assinada, e a história, essa escriba sem pressa, anotou: hoje não.
E foi nesse caldeirão — entre o fogo do ano, a fúria da terra, o silêncio das máquinas e a queda dos algozes — que meu chão se fez mais chão.
Porque minha morada é Brasil. É essa confusão sagrada de vozes, essa biodiversidade que ri na cara do deserto, esse povo que dança enquanto o mundo desaba e, dançando, inventa outro mundo. Minha palavra nasce aqui: das águas de Iemanjá, do tambor do terreiro, do coco quebrado no quintal, da língua cortada dos povos originários que ainda ensinam a floresta. Minha palavra não quer ser entendida — quer ser sentida. Minha palavra é macumba, é maracatu, é funk, é repente, é grito de quem aprendeu que resistir é existir.
E desse amor — desse amor que não cabe em continente, que não se curva a império, que não pede visto nem passaporte — nasceu um sino. Um sino americano brasileiro.
Não é o sino da liberdade rachado dos museus. É o sino que toca quando uma criança parda aprende a ler o mundo. É o sino que vibra quando uma quebrada se organiza. É o sino que soa na hora em que um rio volta a correr limpo. É o sino que ecoa do Pelourinho a Fortaleza, do Marajó ao Pampa, da Amazônia às cinzas do Sul.
Um sino que não anuncia — convoca.
Convoca o corpo, a terra, a máquina, o fogo, a palavra. Convoca o que fomos, o que somos, o que ainda podemos ser. Convoca a Educação da Sabedoria para que ela não pare, para que ela não esmoreça, para que ela continue lutando pelo chão, pelos sonhos, pelas palavras.
Porque 2026 não é só ano — é crina em chamas, é galope no escuro, é hora de cavalgar com os pés descalços na memória e os olhos acesos no que virá.
E o sino soa.
E eu respondo. Os sinos tocam no por do Sol do Ano 1 da Terra da sabedoria, uma nova civilização!
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