SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Resistência Quântica: Ontologia e Política por Egidio Guerra





Eu proponho um cruzamento intelectual tão desafiador quanto necessário. A busca para entrelaçar as revoluções da física com as consequências políticas retratadas na literatura e na filosofia é, em si, um exercício de pensamento quântico: uma tentativa de criar uma superposição de saberes para compreender um fenômeno complexo. A ideia de uma "resistência quântica" frente às transformações sociais pela força é particularmente instigante. 

O ponto de partida para essa reflexão está na própria natureza das revoluções científicas do início do século XX. A física quântica, ao contrário da física clássica de Newton, não descreve um mundo de certezas e trajetórias definidas. Com Niels Bohr e o princípio da complementaridade, aprendemos que um objeto pode ter propriedades contraditórias (como onda e partícula) que são mutuamente exclusivas, mas igualmente necessárias para uma descrição completa . Werner Heisenberg, por sua vez, formulou o princípio da incerteza, demonstrando que é impossível conhecer, com precisão absoluta e simultânea, certos pares de propriedades de uma partícula, como sua posição e sua velocidade. O mundo, na visão quântica, não é feito de coisas definidas, mas de probabilidades e potencialidades que se atualizam no momento da interação ou da "observação" . 

Essa visão, que tão profundamente perturbou Einstein (com sua famosa resistência à ideia de que "Deus joga dados com o universo"), encontra um eco perturbador na análise da política contemporânea e das transformações sociais descritas em obras como as que estudei.



A Política em Estado de Superposição Quântica 

A primeira ponte entre esses mundos é a constatação de que as relações de poder e a própria estrutura dos Estados já não obedecem à lógica binária e determinista da física clássica. Não vivemos mais (e talvez nunca tenhamos vivido inteiramente) no mundo das "leis mecânicas" da política internacional. 

  • O Fim das Certezas Geopolíticas: A física quântica nos mostra que o visível é apenas uma fração da realidade. Um analista político contemporâneo observa que a política global entrou numa fase de "incerteza quântica" e "energia escura", onde os processos reais operam por leis que desafiam o "senso comum" da diplomacia tradicional. O Direito Internacional e os tratados públicos seriam apenas os 4% visíveis da matéria política, enquanto os 96% restantes são compostos por forças obscuras, interesses sombrios e caos. 

  • O Princípio da Superposição de Papéis: Na arena internacional, os atores já não são apenas "amigos" ou "inimigos". Eles existem em um estado de superposição: um país pode apoiar publicamente uma nação vítima de agressão enquanto, simultaneamente, financia a máquina de guerra do agressor através da compra de seus recursos energéticos. Assim como o gato de Schrödinger, a identidade geopolítica de uma nação só se revela (ou "colapsa") no momento da crise, quando uma ação concreta é exigida. 

  • O Fim das Garantias (Entanglement e Incerteza): As garantias e tratados internacionais, antes vistos como constantes fixas na equação do poder, tornaram-se "funções de onda", meras distribuições de probabilidade. A ajuda pode vir ou não, dependendo de uma complexa teia de fatores imprevisíveis . A isso se soma a entanglement (ou emaranhamento) global: um conflito local no Mar Vermelho instantaneamente distorce os preços na Europa, mostrando que eventos distantes estão intrinsicamente ligados, compartilhando um estado que não pode ser descrito independentemente . 



A Força e a Técnica: Da Caça ao Homem ao Laser Social 

É nesse ponto que me refiro a Grégoire Chamayou e suas "Caças ao homem" se torna crucial. Chamayou descreve a evolução do poder cinegético, um poder que se exerce através da perseguição, da mobilidade e do controle de territórios e populações. Essa é uma forma de poder "clássica", que opera no espaço e no tempo. A revolução quântica, no entanto, oferece ferramentas para um poder de um novo tipo, que atua na própria estrutura da realidade e da informação. 

A "força" que transforma sociedades, seja nas narrativas pós-coloniais de Chamoiseau e Castellanos, seja nas análises geopolíticas atuais, ganha um novo vetor: a tecnologia quântica. 

  1. O Poder de Decifrar: A capacidade de um computador quântico de quebrar os sistemas de criptografia que protegem comunicações governamentais, transações financeiras e segredos militares representa uma forma radical de poder. Não é uma "caça" no sentido físico, mas uma "caça" informacional, onde a presa é o próprio segredo. A estratégia "harvest nowdecrypt later" (colher agora, decifrar depois) já permite que potências armazenem dados hoje, aguardando o momento em que a tecnologia quântica os torne transparentes . 

  1. O Poder de Tornar Invisível e Ver o Invisível: Sensores quânticos podem tornar obsoletos os sistemas de navegação por satélite (GNSS), criando sistemas de navegação indetectáveis e imunes a interferências . Ao mesmo tempo, podem detectar submarinos a profundidades antes inimagináveis, anulando a capacidade de dissuasão de um adversário . É a materialização do princípio da incerteza aplicado à guerra: enquanto um lado tenta se esconder (medir sua posição com precisão), o outro pode medir seu momento com uma acuidade antes impossível. 

  1. O Poder de Moldar a Realidade (O Laser Social): A proposta mais fascinante e perturbadora vem do conceito de "laser social" . Assim como um laser físico amplifica a luz de forma coerente e exponencial, um "laser social" descreveria a capacidade de amplificar ações sociais e políticas de forma igualmente poderosa. Através de fluxos de informação direcionados (como mídias sociais e propaganda algorítmica), seria possível criar "inversões populacionais" na opinião pública, levando a emissões estimuladas de comportamento de massa, desde "revoluções coloridas" até ondas de protesto e eleições . Isso transcende a "caça" e entra no domínio da orquestração quântica da vontade coletiva. 

Resistência Quântica: Ontologia e Política 

Diante desse poder técnico-político, onde reside a possibilidade de resistência? A resposta, surpreendentemente, pode estar na própria filosofia quântica. 

A física quântica não apenas descreve o mundo; ela implode a ontologia clássica que sustenta o poder tradicional. A física e filósofa Karen Barad nos oferece ferramentas conceituais para pensar uma "resistência quântica" . 

  • Intra-ação e a Responsabilidade: Barad propõe o conceito de "intra-ação" em vez de interação. A interação pressupõe entidades pré-existentes que se encontram. A intra-ação, inspirada no emaranhamento quântico, sugere que as entidades (agências, sujeitos, objetos) não preexistem às suas relações; elas emergem através delas . Isso implica que nossa responsabilidade não é apenas com o outro que já está aí, mas com a própria maneira como o mundo e suas diferenças são constantemente constituídos. A resistência, aqui, é a recusa em aceitar as identidades e fronteiras fixas impostas pelo poder (o colonizador vs. colonizado, o amigo vs. inimigo), reconhecendo a nossa contínua co-criação do real. 

  • A Indeterminação como Abertura Política: O princípio da incerteza de Heisenberg não é apenas uma limitação, mas uma condição ontológica. O mundo é, em sua essência, indeterminado, cheio de potencialidades . O poder clássico busca fixar, determinar, prever e controlar (como nas "caças ao homem" de Chamayou). A resistência quântica, por outro lado, afirma a potência do indeterminado. Ela se alinha às narrativas de Balún Canán e Texaco, que contam a história não dos vencedores, mas das potencialidades de mundos que foram violentamente "colapsados" pela força colonial. A memória e a cultura dos povos originários e das diásporas são uma forma de manter viva a superposição de realidades que o poder hegemônico tentou reduzir a um único estado. 

  • A Medição e o Observador: Na física quântica, o ato de medir não é neutro; ele colapsa a função de onda, transformando a potencialidade em realidade. Transposto para a política, isso significa que a realidade que vivemos é, em parte, fruto de onde escolhemos olhar e como definimos o que é importante . O poder dominante tenta monopolizar os instrumentos de "medição" da realidade (a mídia, as estatísticas oficiais, a história contada pelos vencedores). A resistência, então, é o ato de se tornar um "observador ativo", de criar contra-narrativas e forçar a realidade a colapsar em direções mais justas e plurais . 


Confluências Literárias e a Urgência do Olhar 

Ao lermos a obra de Rosario Castellanos sobre as tensões entre indígenas e latifundiários em Chiapas, ou a epopeia de Chamoiseau sobre a criação de uma civilização crioula em Texaco, não estamos apenas testemunhando conflitos de classe ou raça. Estamos vendo o choque entre duas ontologias: a visão de mundo linear, extrativista e determinista do colonizador (a física clássica do poder) e a visão de mundo relacional, espiralada e profundamente ligada à terra e ao cosmos dos colonizados (que ressoa, em muitos aspectos, com a interdependência quântica). 

A física quântica, ironicamente, chega por um caminho técnico e matemático a uma visão de mundo que muitas culturas subjugadas sempre habitaram: um mundo de relações, de influências não-locais, onde o observador está sempre implicado no observado. 




Conclusão: A Dupla Revolução 

Estamos, portanto, diante de uma dupla revolução. A primeira, técnica e geopolítica, é a corrida quântica por poder, segurança e hegemonia, que ameaça aprofundar desigualdades e criar novas formas de controle e vigilância . É a revolução que se anuncia nos laboratórios de Big Tech e nos orçamentos de defesa das superpotências. 

A segunda, filosófica e política, é a resistência quântica. Ela emerge da compreensão de que a física que viabiliza essas novas tecnologias também nos oferece uma nova lente para enxergar o mundo, uma lente que deslegitima as certezas absolutas, os dualismos rígidos e as pretensões de controle total. Ela nos convoca a uma política da intra-ação, da responsabilidade radical e da abertura ao indeterminado. 

A "resistência quântica", nesse sentido, não é uma resistência que usa computadores quânticos, mas uma resistência que se inspira na ontologia quântica para lutar contra a captura do futuro. É a luta para garantir que o "colapso" da realidade não sirva apenas aos interesses dos mais fortes, mas seja um processo democrático e plural, onde as múltiplas histórias, as memórias subterrâneas e as visões de mundo silenciadas possam também participar da criação do mundo. 

A física quântica nos deu o poder de manipular a matéria em sua escala mais fundamental. O desafio político do nosso tempo, ecoado nas vozes de Castellanos, Chamoiseau e Chamayou, é saber se teremos a sabedoria para aplicar essa mesma potência à reconstrução de um tecido social mais justo, reconhecendo que, no fundo, estamos todos e tudo emaranhados. 




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