Se não houver clamor, não haverá romance. Pode guardar isso no peito. Porque a história bonita, a que faz o coração pulsar e a mente se libertar, não se escreve com a caneta dos discursos vazios, mas com o sangue, o suor e a voz rouca de quem grita, ama e luta.
Sabemos muito bem viver sós. A solidão é a moeda de troca do sistema que nos fragmenta. Mas temos a mais profunda das convicções: a luta da classe média assustada, do pobre esfomeado e do miserável invisível é a mesma luta. O que nos une não é a conta bancária, é a falta de horizonte. E quando acertamos as alianças — aquelas que não são de fachada, mas de trincheira — e quando a vontade de lutar incendeia o medo, a solução para a desigualdade, o racismo e o imperialismo deixarão de ser utopia e vira possibilidade.
A história de cada grito de uma pessoa — o trabalhador que acorda às 4 da manhã, a mãe que enterra um filho na periferia, o jovem preto que desvia de bala perdida — esse grito solitário se aglomera. E dessa aglomeração nasce um romance libertário, a epopeia da luta de todos.
Mas não adianta, não. Não adianta o discurso emocionado de uma esquerda de palanque que nunca pisou no barro, que fala sobre vidas das quais nada sabe, mas quer ditar as regras. Não adianta o choro fácil de quem vê a pobreza da sacada. É preciso descer, sujar as mãos e calar a boca para ouvir. Porque por trás do escudo do ICE de Trump e das botas dos bolsonaristas não existe apenas um político corrupto; existe uma suástica, sim, ou o brasão envelhecido das mesmas oligarquias e elites que sugam o Estado há séculos.
Os avanços da direita sobre os setores populares são fábricas de desespero. O efeito dessa perda não é só econômico, é a aniquilação dos espaços seguros para a mente e para a voz. Mas é exatamente por isso, nesse beco sem saída aparente, que a hora de se revoltar é agora. Agora ou nunca. Agora ou a alma definha de vez.
Diante desse inimigo comum — esse monstro de múltiplas cabeças que usa toga, farda, batina e terno — novos aliados surgem das cinzas. Necessitamos da ampla solidariedade do antifascismo no mundo. Necessitamos despertar a dócil multidão histérica que reza nas igrejas enquanto é metralhada nas periferias. Porque sem elas, sem os pobres e os crentes, as diversas formas de prostituição, submissão e os loucos, não venceremos a guerra. Eles estão além dos seus limites de forças. Estão além da resistência física. Estão beirando a insanidade. E com razão. Pois é de enlouquecer qualquer um diante da incompetência, da corrupção e da insensibilidade dos nossos governos, que são apenas as testas de ferro das mesmas oligarquias e elites que vivem do Estado e dos privilégios.
É fácil ignorar o mal que nos cerca. É cômodo ver só a superfície. Mas nós, que enxergamos a escória, sabemos: eles são os responsáveis pelas maiores desigualdades, corrupção e injustiças do mundo. E contra eles, o romance da nossa revolta será escrito com letras garrafais, nas ruas, com o clamor de quem não tem mais nada a perder, a não ser a própria miséria.
Lutar é preciso. Clamar é urgente. O romance virá.
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