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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Como lutam as Democracias: Guerras, Crises e Ideias. Por Egidio Guerra.

 


As democracias não nascem em vácuo de harmonia, mas sim no cadinho tenso e sangrento da crise. Elas são, frequentemente, respostas improvisadas ao colapso de velhas ordens, frutos de guerras, falências e revoluções culturais que, paradoxalmente, enfraquecem uns para fortalecer outros. Para entender esse nascimento convulsivo, podemos seguir o fio da meada que liga as revoluções Americana e Francesa, iluminado por biografias e análises fundamentais. 



A Improvisação Necessária: Franklin e o Financiamento de uma Ideia 

Em "A Great Improvisation: Franklin, France, and the Birth of America", Stacy Schiff nos mostra que a primeira democracia moderna americana não nasceu apenas de ideais iluministas, mas de uma desesperada necessidade de sobrevivência. A jovem república estava à beira do colapso financeiro e militar. O que salvou o experimento democrático foi a perda de poderio de uma nação em relação a outra. A França do Antigo Regime, embora ainda uma monarquia absolutista, estava enfraquecida pela sua rivalidade global com a Grã-Bretanha. O ressentimento e o desejo de reverter a derrota na Guerra dos Sete Anos criaram a abertura perfeita. 

Franklin, em Paris, não vendeu uma democracia pronta, mas a promessa de uma. Ele capitalizou o Iluminismo francês — uma mudança cultural profunda que venerava a razão, a liberdade e o "bom selvagem" americano — para obter apoio. A democracia americana nasceu, portanto, de um cálculo geopolítico europeu: a guerra e a decadência relativa da França fortaleceram a insurgência democrática do outro lado do Atlântico. Foi um parto auxiliado por uma potência em declínio relativo. 



Arquiteto do Sistema: Hamilton e os Alicerces do Poder 

Se Franklin garantiu o oxigênio, coube a figuras como Alexander Hamilton (em sua famosa biografia de Ron Chernow) construir o corpo duradouro da nação. Hamilton personificou a transição da revolução para a instituição. Ele olhou para o caos pós-guerra — a pobreza, a dívida colossal, os estados fragmentados — e viu a receita para uma morte precoce da república. 

Sua obra, especialmente na criação do sistema financeiro e na defesa de um governo federal forte no Federalista, foi uma resposta direta à fraqueza. Ele entendeu que uma democracia sem credibilidade econômica estava fadada ao fracasso ou à desintegração. Assim, a pobreza e a desordem do período pós-Revolução foram o terreno fértil, ainda que hostil, onde se ergueram as estruturas que dariam solidez à experiência democrática. A democracia, para sobreviver, precisava deixar de ser apenas um ideal e se tornar uma máquina funcional. 




O Espelho Europeu: Tocqueville e a Revolução que não cessou 

Alexis de Tocqueville, em "A Democracia na América", chegou aos EUA décadas depois, mas com as cicatrizes da Revolução Francesa impressas em sua mente. Seu grande insight foi entender que a democracia americana era bem-sucedida não apenas por seus ideais, mas por suas práticas: a descentralização administrativa, o associativismo, os "hábitos do coração" e, de forma crucial, uma relativa igualdade de condições. Ele contrastava isso com a França, onde a busca abrupta e violenta pela igualdade política, sem os freios e contrapesos sociais e legais, levou ao Terror e, por fim, ao autoritarismo napoleônico. 

Tocqueville observou que a Revolução Francesa, filha do mesmo Iluminismo que inspirou a americana, degenerou porque tentou criar a democracia a partir do zero, destruindo todas as instituições antigas. O contexto de guerra total contra as monarquias europeias e a crise econômica profunda radicalizaram o processo. Enquanto a guerra externamente fortaleceu os EUA (com a ajuda francesa), internamente na França ela serviu para justificar a centralização do poder e a supressão das liberdades — um paradoxo trágico. 




O Confronto com a Morte: "Como as Democracias Morrem" 

Este longo preâmbulo histórico nos leva ao confronto crucial com "Como as Democracias Morrem" de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Eles argumentam que as democracias modernas raramente perecem por golpes militares, mas sim por uma erosão lenta, onde os próprios líderes eleitos subvertem as normas democráticas — os "guardrails" (barreiras de proteção). 

Olhando para o nascimento das democracias, vemos que esses "guardrails" eram justamente o que Hamilton e os Federalistas tentavam construir: uma constituição, um judiciário independente, uma imprensa livre, a separação de poderes. Eles eram conscientes das fraquezas que levam à morte. O período de guerras napoleónicas que se seguiu na Europa mostrou como crises prolongadas podem justificar a suspensão dessas normas em nome da segurança, um caminho perigoso que Tocqueville temia. 

Conclusão: O Ciclo Dialético do Nascimento e da Morte 

Portanto, como nascem as democracias? Nascem da conjunção perigosa de: 

  1. Crise profunda (guerra, pobreza, falência do Estado) que destrói a legitimidade do regime anterior. 

  1. Ideias revolucionárias (como o Iluminismo) que oferecem um novo script político. 

  1. Improvisação prática (Franklin na França, Hamilton nas finanças) para garantir sobrevivência imediata. 

  1. Construção institucional consciente, erigindo diques contra a volta do autoritarismo e da desordem. 

  1. E, ironicamente, da decadência ou do cálculo estratégico de outras potências. 

O contexto das revoluções Americana e Francesa e das guerras europeias do final do século XVIII e início do XIX é um laboratório deste processo. Ele demonstra que a semente da democracia muitas vezes brota no solo devastado pela guerra e fertilizado pela crise alheia. No entanto, as mesmas forças que a geram — a polarização, a emergência, a tentação do poder centralizado — podem, se não forem contidas pelas normas e instituições robustas, conter também o germe de sua morte. O estudo do nascimento, como nos mostram Franklin, Hamilton e Tocqueville, é essencial para compreender os sintomas do declínio apontados por Levitsky e Ziblatt. A democracia é sempre uma obra inacabada, tensionada entre a liberdade que a faz nascer e a ordem que a faz durar. 

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