SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

domingo, 18 de janeiro de 2026

MANIFESTO PELA LIBERDADE NO IRÃ: CONTRA A DITADURA, PELAS MULHERES, PELA JUVENTUDE, PELA HUMANIDADE

 



“Há algo de podre no reino” – e esse algo é o regime teocrático que, desde 1979, usurpou uma revolução e transformou o Irã num palco de tragédia shakespeariana, onde o povo, como o Rei Lear, foi traído por aqueles em quem depositou sua fé. Este manifesto é um grito de solidariedade às mulheres, aos jovens, a todos os iranianos que, nas ruas, arriscam a vida para reescrever um destino roubado.

Um Ato I Traiçoeiro: A Revolução Seqüestrada
A Revolução Iraniana de 1979 foi, em seu início, um levante popular contra um Xá tirânico, um monarca corrupto e opressor. Era um coro multifacetado que clamava por liberdade e justiça. Tragicamente, essa luta foi observada com um olhar romântico e equivocado por parte da intelligentsia ocidental, como Michel Foucault, que, cegado por sua crítica ao poder ocidental, viu na revolução uma “espiritualidade política” redentora. Errou tragicamente. Não percebeu que a vanguarda islâmica, encabeçada por Khomeini, não buscava liberdade, mas a substituição de uma tirania por outra, mais profunda e totalizante. Foucault, como tantos outros, não ouviu os avisos das mulheres e dos secularistas; viu um espetáculo brechtiano, mas esqueceu que, por vezes, o cenário revolucionário esconde a farsa mais cruel.

O Reino do Medo: A Tragédia em Ato Contínuo
O que se seguiu foi uma distopia orwelliana implementada com zelo teocrático. Um Estado onde “Grande Irmão” tem a face do Guia Supremo, onde o “Ministério da Paz” promove a guerra, e o “Ministério do Amor” tortura e executa. As mulheres, as primeiras e mais constantes vítimas, foram confinadas sob um código de vestimenta que é uma prisão de tecido, símbolo de uma opressão que as nega como seres plenos. A arte é censurada, a música proibida, o pensamento livre, um crime. A juventude, que nunca conheceu outro ar senão o da repressão, é envenenada, presa, torturada e assassinada por desejar uma vida normal.

As tragédias humanitárias se acumulam: execuções em massa nos anos 80, esmagamento sangrento de protestos em 1999, 2009, 2017, 2019, 2022. O regime não se contenta em oprimir seu povo; exporta morte. Financia e armam organizações terroristas como o Hamas e o Hezbollah, alimentando conflitos regionais e globalizando o sofrimento. O sangue do povo iraniano, suado em uma economia em ruínas, é convertido em munição para a desolação alheia. É um pacto faustiano onde o regime vende o futuro da nação para manter seu poder decrépito.



A Resistência: O Ato Final Será do Povo
Mas eis que surge, das cinzas dessa distopia, uma nova revolução. Liderada pelas mulheres, com os jovens na vanguarda, uma geração que diz, como o Personagem de Brecht: “Aquele que luta pode perder. Aquele que não luta já perdeu.” O lema “Jin, Jiyan, Azadi” (Mulher, Vida, Liberdade) ecoa como um trovão moderno, desafiando a base misógina do regime. Elas arrancam o hijab obrigatório, dançam nas ruas, cantam. Eles enfrentam a Pasdaran com coragem desesperada. É teatro épico na sua forma mais pura: o público (o povo) levantou-se para tomar o palco e reescrever a peça.

A história das revoluções é escrita pelos que se recusam a aceitar a jaula. Foi assim na Inglesa, que decapitou o direito divino dos reis. Na Francesa, que ergueu a tríade “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” contra o Antigo Regime. Na Americana, que forjou uma república na luta contra um império distante. Até nas Russa e Chinesa – ainda que depois traídas por novas tiranias – o impulso inicial foi um vulcão popular contra estruturas podres e injustas.

A Revolução Iraniana de hoje é a legítima herdeira deste rio histórico. Não é a revolução de 1979, que foi sequestrada. É a sua correção histórica. É o povo, finalmente unido além de divisões, buscando realizar a promessa original: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Concluímos, portanto, com um juramento e um aviso:

  • Ao povo iraniano: Vossa luta é a nossa luta. Vossa coragem ilumina a consciência do mundo. Vós sois os Lears que, após longa noite de loucura e traição, recuperam a razão e a dignidade. Sois os personagens de Brecht que quebram a quarta parede do terror e exigem um final diferente.

  • Ao regime teocrático: Vosso tempo acabou. Como todos os tiranos da história, vereis vossos guardas partirem, vossos discursos virarem eco vazio. A máquina de propaganda, a polícia da moral, os tribunais da sharia – tudo é um castelo de areia contra a maré humana. “A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo que realça cada objeto.” (Albert Camus). Vós vivestes no crepúsculo da mentira. A alvorada da verdade vos aniquilará.

  • Ao mundo: Não cometamos o erro de Foucault novamente. Não romantizemos, não teorizemos. Reconheçamos, apoiemos, amplifiquemos. Este não é um “assunto interno”. É a batalha pela liberdade mais pura e corajosa de nossa era.

Que as ruas do Irã, do Curdistão ao Baluchistão, de Teerã a Shiraz, ecoem até que a tirania caia. Que o grito de “Jin, Jiyan, Azadi” se torne o canto fúnebre do regime e o hino de nascimento de uma nova república, verdadeiramente iraniana e verdadeiramente livre.

Ato Final: A Revolução das Filhas do Sol. Que comece.

Nenhum comentário:

Postar um comentário