O ator parece estar sozinho em cena. Recostado contra uma parede devastada por um incêndio
florestal, ele tem o ar de quem reflete profundamente. O cenho franzido sugere sofrimento. Na voz, angústia. As palavras saem devagar, num murmúrio, sob um céu alaranjado pela poluição.
"Ser ou não ser (ecológico): eis a questão."
Esta é a frase mais conhecida da mais famosa obra de William Shakespeare. Mas hoje, ela ecoa não como um solilóquio individual, mas como o monólogo coletivo da humanidade diante do abismo climático.
A história, em linhas gerais, é a seguinte:
O fantasma do mundo natural — os rios, as florestas, o clima estável — assombra a civilização moderna, revelando que foi assassinado pelo próprio irmão, um modelo econômico predatório chamado Claudius-Mercado. Este, agora casado com a Mãe-Terra exausta (Gertrude), governa um "Reino da Dinamarca" planetário onde "há algo de podre". O príncipe Hamlet-Humanidade, herdeiro legítimo deste mundo, recebe a missão de vingar essa morte, restaurando o equilíbrio.
À beira da insanidade — ou fingindo estar à beira da insanidade para não agir —, Hamlet-Humanidade reflete. O monólogo "Ser ou não ser" já não trata apenas de vida e morte individual, mas da sobrevivência coletiva e do significado de "ser" dentro dos limites de um planeta finito.
O Monólogo da Humanidade no Antropoceno:
"Será mais nobre suportar na mente
As flechadas e inundações da trágica mudança climática,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos — os oligopólios, a inércia, a tragédia dos comuns — e, enfrentando-os, vencer?"
Aqui, as duas interpretações clássicas ganham urgência planetária:
O Temor da Ação (O Pecado contra o Mercado): Tememos que agir radicalmente — regulando, taxando, mudando nossos modos de vida — seja um pecado contra o deus Crescimento Infinito. Que nossa alma econômica seja condenada à "estagnação eterna". Essa é a lógica que paralisou governos e corporações por décadas.
A Tentação do "Não-Ser" (A Inação Suicida): A outra opção é a inação suicida coletiva. "Não ser" ecológico. Seguir o curso, explorar até o fim, e aceitar um colapso sistêmico como um "sono" do qual talvez não despertemos. O medo do que está além — um mundo transformado, pobre e conflituoso — nos paralisa. "A consciência faz de todos nós covardes."
Os Personagens que Moldam o Drama Ecológico:
Claudius-Mercado Concentrado (de "O Grande Reversal"): Não é um livre mercado dinâmico, mas um usurpador oligárquico. Ele concentrou poder, capturou governos e criou uma corte de subsídios aos fósseis e barreiras à inovação verde. Sua "vingança" contra Hamlet-Humanidade é através de lobby para desregulamentar e espalhar desinformação.
O Fantasma do Rei (A Tragédia dos Comuns): É a voz da lei natural e dos limites biofísicos. Ele clama por justiça: a atmosfera, os oceanos, as florestas — os bens comuns globais — foram envenenados pela lógica da pilhagem sem governança. Sua aparição é a ciência do IPCC, os relatórios de perda de biodiversidade. Ignorá-lo é garantir a tragédia.
A Missão do Espírito (de "Mission Economy"): A saída da paralisia. Não é o Estado burocrático, mas um Estado-Visionário que deve aparecer como o espírito da ação dirigida. Ele não pede vingança cega, mas uma "Missão Apollo" civilizatória: descarbonizar a economia, regenerar os comuns, criar um novo paradigma. É a narrativa que transforma o dilema em projeto.
A Peça Interior: O Conflito no Palco da Economia
O gênio de Shakespeare está em mostrar o conflito interior. A peça ecológica moderna também se desenrola na mente da sociedade.
Fingir loucura ou estar louco? Nossa economia "finge" ser racional enquanto extrai seu próprio suporte de vida. Ou será que ela já atravessou para uma loucura real, onde destruir o futuro por lucro trimestral é visto como sensato?
A Vigilância (Monitoramento): Tal como na Dinamarca de Hamlet, somos constantemente vigiados e influenciados — pelo marketing do consumo, pelo feed de notícias que normalizam o colapso. Isso nos faz sentir aprisionados em um sistema do qual não sabemos escapar. "O mundo está fora dos eixos."
Fortinbras (A Geopolítica e os Limites): Na versão completa, o príncipe da Noruega, Fortinbras-Limites Planetários, avança com seu exército de crises concatenadas (secas, migrações, conflitos). Enquanto nos distraímos com o drama palaciano do crescimento, as verdadeiras forças da natureza e da escassez marcham para tomar o trono. A peça termina com ele no poder, sugerindo que ignorar os limites resulta na perda de controle para forças maiores e mais brutais.
Relevância e Atualidade: Por que essa Peça nos Persegue?
A pergunta "Ser ou não ser ecológico" é a versão contemporânea do dilema hamletiano. Ela captura a angústia de uma espécie no limiar de sua própria consciência, capaz de diagnosticar sua tragédia, mas paralisada por medos estruturais e profundos.
Para um jovem hoje, Hamlet-Humanidade é a figura que "se conecta com um futuro que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será." É o sentimento de impotência geracional diante de um sistema corrupto e de um mundo que parece ter cheiro de "podre".
A busca fundamental já não é por vingança, mas por restauração. Tomar de volta o que é nosso: um clima estável, um futuro habitável, um lugar no mundo natural que não seja de dominador, mas de parte integrante.
A encenação é tudo: Assim como diretores podem cortar Fortinbras e fazer da tragédia um drama doméstico, podemos tratar a crise ecológica como um problema setorial (energia, reciclagem), e não como a redefinição total das regras do jogo econômico e existencial.
Conclusão: O Desafio da Encenação Fresca
A diretora Sinéad Rushe diz que o desafio é fazer as palavras soarem "frescas, como se nunca tivessem sido ouvidas antes". Esse é o nosso desafio civilizatório.
O solilóquio "Ser ou não ser ecológico" está escrito. As evidências científicas são as palavras "mágicas e difíceis" que precisamos decodificar e fazer caber na boca de nossas instituições. O Estado-Visionário (Mission Economy) precisa articular a missão. A Governança dos Comuns precisa enfrentar Claudius-Mercado. E Hamlet-Humanidade precisa superar a paralisia.
A tragédia não está escrita. Depende de nossa ação coletiva sair do modo solilóquio — da reflexão angustiada e paralisante — e entrar em cena para um ato final de transformação. A questão não é mais "ser ou não ser", mas **"como ser" ecológicos. E a peça está em cartaz agora, com plateia global. O que faremos?
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