SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Ser ou não ser ecológico: eis a questão fundamental do nosso tempo por Egidio Guerra.



O ator parece estar sozinho em cena. Recostado contra uma parede devastada por um incêndio
florestal, ele tem o ar de quem reflete profundamente. O cenho franzido sugere sofrimento. Na voz, angústia. As palavras saem devagar, num murmúrio, sob um céu alaranjado pela poluição.

"Ser ou não ser (ecológico): eis a questão."

Esta é a frase mais conhecida da mais famosa obra de William Shakespeare. Mas hoje, ela ecoa não como um solilóquio individual, mas como o monólogo coletivo da humanidade diante do abismo climático.

A história, em linhas gerais, é a seguinte:

fantasma do mundo natural — os rios, as florestas, o clima estável — assombra a civilização moderna, revelando que foi assassinado pelo próprio irmão, um modelo econômico predatório chamado Claudius-Mercado. Este, agora casado com a Mãe-Terra exausta (Gertrude), governa um "Reino da Dinamarca" planetário onde "há algo de podre". O príncipe Hamlet-Humanidade, herdeiro legítimo deste mundo, recebe a missão de vingar essa morte, restaurando o equilíbrio.

À beira da insanidade — ou fingindo estar à beira da insanidade para não agir —, Hamlet-Humanidade reflete. O monólogo "Ser ou não ser" já não trata apenas de vida e morte individual, mas da sobrevivência coletiva e do significado de "ser" dentro dos limites de um planeta finito.

O Monólogo da Humanidade no Antropoceno:

"Será mais nobre suportar na mente
As flechadas e inundações da trágica mudança climática,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos — os oligopólios, a inércia, a tragédia dos comuns — e, enfrentando-os, vencer?"

Aqui, as duas interpretações clássicas ganham urgência planetária:

  1. O Temor da Ação (O Pecado contra o Mercado): Tememos que agir radicalmente — regulando, taxando, mudando nossos modos de vida — seja um pecado contra o deus Crescimento Infinito. Que nossa alma econômica seja condenada à "estagnação eterna". Essa é a lógica que paralisou governos e corporações por décadas.

  2. A Tentação do "Não-Ser" (A Inação Suicida): A outra opção é a inação suicida coletiva. "Não ser" ecológico. Seguir o curso, explorar até o fim, e aceitar um colapso sistêmico como um "sono" do qual talvez não despertemos. O medo do que está além — um mundo transformado, pobre e conflituoso — nos paralisa. "A consciência faz de todos nós covardes."

Os Personagens que Moldam o Drama Ecológico:

  • Claudius-Mercado Concentrado (de "O Grande Reversal"): Não é um livre mercado dinâmico, mas um usurpador oligárquico. Ele concentrou poder, capturou governos e criou uma corte de subsídios aos fósseis e barreiras à inovação verde. Sua "vingança" contra Hamlet-Humanidade é através de lobby para desregulamentar e espalhar desinformação.

  • O Fantasma do Rei (A Tragédia dos Comuns): É a voz da lei natural e dos limites biofísicos. Ele clama por justiça: a atmosfera, os oceanos, as florestas — os bens comuns globais — foram envenenados pela lógica da pilhagem sem governança. Sua aparição é a ciência do IPCC, os relatórios de perda de biodiversidade. Ignorá-lo é garantir a tragédia.

  • A Missão do Espírito (de "Mission Economy"): A saída da paralisia. Não é o Estado burocrático, mas um Estado-Visionário que deve aparecer como o espírito da ação dirigida. Ele não pede vingança cega, mas uma "Missão Apollo" civilizatória: descarbonizar a economia, regenerar os comuns, criar um novo paradigma. É a narrativa que transforma o dilema em projeto.

A Peça Interior: O Conflito no Palco da Economia

O gênio de Shakespeare está em mostrar o conflito interior. A peça ecológica moderna também se desenrola na mente da sociedade.

  • Fingir loucura ou estar louco? Nossa economia "finge" ser racional enquanto extrai seu próprio suporte de vida. Ou será que ela já atravessou para uma loucura real, onde destruir o futuro por lucro trimestral é visto como sensato?

  • A Vigilância (Monitoramento): Tal como na Dinamarca de Hamlet, somos constantemente vigiados e influenciados — pelo marketing do consumo, pelo feed de notícias que normalizam o colapso. Isso nos faz sentir aprisionados em um sistema do qual não sabemos escapar. "O mundo está fora dos eixos."

  • Fortinbras (A Geopolítica e os Limites): Na versão completa, o príncipe da Noruega, Fortinbras-Limites Planetários, avança com seu exército de crises concatenadas (secas, migrações, conflitos). Enquanto nos distraímos com o drama palaciano do crescimento, as verdadeiras forças da natureza e da escassez marcham para tomar o trono. A peça termina com ele no poder, sugerindo que ignorar os limites resulta na perda de controle para forças maiores e mais brutais.

Relevância e Atualidade: Por que essa Peça nos Persegue?

A pergunta "Ser ou não ser ecológico" é a versão contemporânea do dilema hamletiano. Ela captura a angústia de uma espécie no limiar de sua própria consciência, capaz de diagnosticar sua tragédia, mas paralisada por medos estruturais e profundos.

  • Para um jovem hoje, Hamlet-Humanidade é a figura que "se conecta com um futuro que ele achava que ia ser de um jeito, mas não será." É o sentimento de impotência geracional diante de um sistema corrupto e de um mundo que parece ter cheiro de "podre".

  • A busca fundamental já não é por vingança, mas por restauração. Tomar de volta o que é nosso: um clima estável, um futuro habitável, um lugar no mundo natural que não seja de dominador, mas de parte integrante.

  • A encenação é tudo: Assim como diretores podem cortar Fortinbras e fazer da tragédia um drama doméstico, podemos tratar a crise ecológica como um problema setorial (energia, reciclagem), e não como a redefinição total das regras do jogo econômico e existencial.

Conclusão: O Desafio da Encenação Fresca

A diretora Sinéad Rushe diz que o desafio é fazer as palavras soarem "frescas, como se nunca tivessem sido ouvidas antes". Esse é o nosso desafio civilizatório.

O solilóquio "Ser ou não ser ecológico" está escrito. As evidências científicas são as palavras "mágicas e difíceis" que precisamos decodificar e fazer caber na boca de nossas instituições. O Estado-Visionário (Mission Economy) precisa articular a missão. A Governança dos Comuns precisa enfrentar Claudius-Mercado. E Hamlet-Humanidade precisa superar a paralisia.

A tragédia não está escrita. Depende de nossa ação coletiva sair do modo solilóquio — da reflexão angustiada e paralisante — e entrar em cena para um ato final de transformação. A questão não é mais "ser ou não ser", mas **"como ser" ecológicos. E a peça está em cartaz agora, com plateia global. O que faremos?

Nenhum comentário:

Postar um comentário