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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Zohran Mamdani assume prefeitura de Nova York e começa teste de fogo para 'nova esquerda' global

 

Zohran Mamdani saúda as pessoas em um discurso durante as eleições primárias para prefeito de Nova York

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Zohran Mamdani será o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, nos EUA, e o primeiro originário do sul da Ásia
Tempo de leitura: 7 min

Zohran Mamdani toma posse nesta quinta-feira, 1° de janeiro de 2026, como o 111° prefeito de Nova York, nos Estados Unidos. Com 34 anos, ele é o primeiro prefeito muçulmano da cidade e o mais jovem em mais de um século.

O juramento histórico ocorre em uma cerimônia reservada, em uma estação de metrô abandonada no subsolo da prefeitura, com a presença da família de Mamdani.

Em cerimônia conduzida pela procuradora-geral de Nova York, Letitia James, o novo prefeito presta seu juramento exatamente à meia-noite do Dia de Ano Novo.

Mais tarde, no mesmo dia, Mamdani será publicamente empossado pelo senador Bernie Sanders e irá discursar em uma cerimônia de posse, na escadaria da prefeitura, perto das 13 horas, hora local (15h de Brasília).

O público foi convidado a comparecer a uma festa nas ruas na Broadway, que leva à prefeitura.

Zohran Mamdani ao lado dos seus pais, Mahmood Mamdani e Mira Nair, e da esposa Rama Duwaji, durante uma festa nas eleições primárias

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Zohran Mamdani com seus pais, Mahmood Mamdani (dir.) e Mira Nair (esq.), e sua esposa, Rama Duwaji (centro)

A campanha eleitoral para a prefeitura, em novembro, atraiu ainda mais atenção do que de costume.

Mamdani é congressista do Estado de Nova York. Ele começou o ano como um candidato quase desconhecido, até disparar para o topo das pesquisas.

Sua eleição foi um divisor de águas para os progressistas, sinalizando uma mudança do centro de gravidade na política da cidade.

Mamdani se apresentou como candidato do povo e líder comunitário.

Antes de entrar na política, Mamdani trabalhou como consultor no setor de habitação. Ele ajudava moradores de baixa renda no Queens a evitar que fossem despejados.

Filho de pais indianos nascido na capital de Uganda, Kampala, ele se mudou com a família para Nova York com sete anos de idade.

Mamdani cursou o Ensino Médio de ciências no Bronx e se formou posteriormente em Estudos Africanos no Bowdoin College. Lá, ele foi um dos fundadores da seção dos Estudantes para a Justiça na Palestina do campus.

Sua mãe, Mira Nair, é uma reconhecida diretora de cinema e seu pai, o professor Mahmood Mamdani, leciona na Universidade de Columbia. Ambos são ex-alunos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Casado com uma artista americana com raízes na Síria

O prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani, comemora com sua esposa Rama Duwaji após a vitória na eleição de 2025, em um evento na noite da eleição, no Brooklyn

Crédito,Reuters

Legenda da foto,Rama Duwaji com o marido Zohran Mamdani, após a vitória na eleição para prefeito
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Mamdani e sua esposa se conheceram no aplicativo de encontros Hinge.

A artista Rama Duwaji, moradora do Brooklyn, tem 28 anos de idade.

Ela nasceu em Houston, no Estado americano do Texas. Com nove anos de idade, ela se mudou para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de frequentar rapidamente a escola no Catar.

Seus pais são muçulmanos sírios originalmente de Damasco, segundo a imprensa árabe.

Duwaji se formou na Universidade da Comunidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e fez um mestrado em Ilustração na Escola de Artes Visuais, em Nova York.

Ela preferiu se manter longe dos holofotes e raramente dá entrevistas à imprensa, mesmo com a ascensão do marido. Mas o que se comenta é que ela tem sido uma força importante nos bastidores, segundo a rede de TV americana CNN.

Como artista com raízes na Síria, Duwaji costuma explorar temas do Oriente Médio em seus trabalhos. Suas obras já apareceram na BBC News, nos jornais The New York Times e The Washington Post, na revista Vice e no museu Tate Modern, em Londres.

"Rama não é apenas minha esposa. É uma artista incrível, que merece ser conhecida pelo seu trabalho", escreveu Mamdani nas redes sociais em 12 de maio, ao anunciar que eles haviam se casado três meses antes.

Em recente entrevista à revista The Cut, ela descreveu a experiência de se tornar primeira-dama de Nova York como "surreal".

"Quando ouvi pela primeira vez, parecia tão formal. Não que eu não me sentisse merecedora, mas parecia... 'eu?' Agora, aceito um pouco mais e digo simplesmente: 'Existem diferentes formas de ser primeira-dama.'"

A promessa de uma 'nova era'

Mamdani é um millennial progressista. Ele será o primeiro prefeito de Nova York muçulmano e com origem no sul da Ásia — e se manteve fiel às suas raízes, em uma cidade tão diversificada.

Ele fez da sua fé muçulmana uma parte visível da sua campanha eleitoral. Mamdani visitou mesquitas regularmente e publicou um vídeo de campanha em idioma urdu, sobre a crise do custo de moradia da cidade.

"Sabemos que se apresentar em público como muçulmano também é sacrificar a segurança que, às vezes, podemos encontrar nas sombras", declarou ele, em um comício de campanha.

Nove candidatos a prefeito de Nova York em pé em um palco

Crédito,YUKI IWAMURA/POOL/EPA-EFE/Shutterstock

Legenda da foto,Nove candidatos disputaram a nomeação democrata para a eleição de Nova York. Eles compareceram a um debate na TV em junho.

Mamdani declarou que os eleitores da cidade mais cara dos Estados Unidos desejam que os democratas se concentrem no custo de vida.

"Esta é uma cidade que tem um em cada quatro de seus habitantes morando na pobreza, uma cidade em que 500 mil crianças vão dormir com fome todas as noites", destacou ele à BBC, em um evento recente.

"E, em última análise, é uma cidade que está em perigo de perder o que a torna tão especial."

Entre suas propostas, destacam-se:

  • Serviço de ônibus com tarifa zero em toda a cidade;
  • Congelamento dos aluguéis e prestação de contas mais rigorosa para os senhorios negligentes;
  • Rede de mercearias municipais, com preços baixos;
  • Serviço de creche universal para crianças entre seis semanas e cinco anos;
  • Triplicar a produção de moradias construídas pelos sindicatos, com aluguéis estáveis.

Seu plano também inclui "reformular" a prefeitura para responsabilizar os proprietários de imóveis e expandir massivamente as moradias permanentemente acessíveis.

Durante a sua campanha, ele relacionou essas políticas a gestos altamente visuais e virais.

Mamdani mergulhou no Oceano Atlântico para dramatizar o congelamento dos aluguéis e quebrou o jejum do Ramadã em um trem de metrô com um burrito, para destacar a insegurança alimentar.

Dias antes das eleições primárias, ele caminhou por toda Manhattan, parando para tirar selfies com eleitores.

Mamdani defende que pode reduzir o custo de vida na cidade, mas os críticos questionam suas ambiciosas promessas.

O então candidato a prefeito Andrew Cuomo e outros críticos afirmaram que Mamdani não tem experiência e é radical demais para uma cidade com um orçamento de US$ 115 bilhões (cerca de R$ 631 bilhões) e mais de 300 mil funcionários municipais.

Apoiado por grandes doadores e personalidades de centro, como o ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001), Cuomo insiste na importância da experiência.

Para ele, "a experiência, a competência, saber como fazer o trabalho, saber como lidar com Trump, saber como lidar com Washington, saber como lidar com o legislativo estadual, tudo isso é o básico. Acredito no treinamento durante o trabalho, mas não como prefeito de Nova York."

O jornal The New York Times não apoiou nenhum candidato nas eleições primárias para prefeito da cidade e criticou todos os postulantes.

Em editorial, o jornal declarou que a agenda de Mamdani é "excepcionalmente inadequada para os desafios da cidade" e "ignora frequentemente os compromissos da governança".

O congelamento dos aluguéis restringiria a oferta de moradia, segundo o editorial do famoso jornal de Nova York.

Israel e Palestina

Em um recente evento de campanha de Mamdani em um parque em Jackson Heights, uma das comunidades mais diversificadas do país, crianças corriam e brincavam nos balanços, enquanto ambulantes de origem latina vendiam sorvete e lanches.

De muitas formas, a cena capturava perfeitamente a diversidade local, que muitos democratas consideram o maior patrimônio de Nova York. Mas a cidade não está livre de tensões políticas e raciais.

Mamdani conta que recebe ameaças islamofóbicas todos os dias, algumas delas dirigidas à sua família. A polícia informou que há uma investigação em andamento sobre crimes de ódio relativos a essas ameaças.

O prefeito eleito declarou à BBC que o racismo é um indicador do que está errado na política americana. Ele também criticou o Partido Democrata, "que permitiu a reeleição de Donald Trump" e falhou ao defender trabalhadores, "independentemente de quem são ou de onde eles vieram".

A posição dos candidatos sobre a guerra na Faixa de Gaza provavelmente também esteve na mente dos eleitores. E o forte apoio de Mamdani aos palestinos e suas críticas a Israel contrariam a maior parte do Partido Democrata.

O congressista apresentou um projeto de lei para pôr fim à isenção de impostos às organizações beneficentes de Nova York ligadas a assentamentos israelenses que violem a legislação internacional sobre direitos humanos.

Ele também afirmou acreditar que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, deveria ser preso.

Mamdani foi pressionado inúmeras vezes em entrevistas na imprensa, para que declarasse se apoia o direito de Israel de existir como Estado judeu. E, certa vez, ele respondeu:

"Não me sinto confortável para apoiar qualquer Estado que tenha uma hierarquia de cidadania baseada na religião ou em qualquer outra coisa. Acho que, da forma que temos neste país, a igualdade deve ser consagrada em todos os países do mundo. É nisso que acredito."

Mamdani também declarou que não há espaço para o antissemitismo na cidade de Nova York e destacou que, se fosse eleito, aumentaria as verbas para o combate a crimes de ódio.

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