No espírito de observação que Alexis de Tocqueville, em sua obra “Da Democracia na América”, consagrou ao estudar os perigos que espreitam a república – a tirania da maioria, o despotismo brando, o desprezo pela lei e o enfraquecimento dos corpos intermediários –, nós, abaixo-assinados, dirigimo-nos a todos os cidadãos de consciência. Tocqueville admirou o tecido associativo americano, aquele “habitat da liberdade” que impedia o surgimento de um poder arbitrário. Hoje, esse tecido está sendo deliberadamente rasgado.
A história desta grande nação é uma crônica da luta perpétua para alargar os círculos da liberdade, da justiça e do direito. Abraham Lincoln, ao preservar a União, afirmou que uma “casa dividida contra si mesma não pode subsistir”. Franklin Delano Roosevelt, perante a sombra do totalitarismo, falou das “quatro liberdades” essenciais. John F. Kennedy incitou cada cidadão a perguntar o que poderia fazer por seu país. Martin Luther King Jr. sonhou com uma nação onde os homens não fossem julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Essas vozes ecoam na consciência coletiva, lembrando-nos de que a democracia não é um presente, mas uma conquista diária, vigilante e custosa.
Hoje, essa conquista está sob um ataque sem precedentes. A administração de Donald J. Trump degenerou numa cleptocracia personalista que sistematicamente espezinha os princípios constitucionais, corrói as instituições e envergonha os Estados Unidos perante o mundo. Não se trata de mera divergência política, mas de uma sucessão de atos que beiram – e muitas vezes ultrapassam – a ilegalidade e a barbárie.
Observamos, primeiro com horror e depois com indignação organizada:
O apoio tácito a um genocídio em Gaza, tornando-nos cúmplices do sofrimento inominável.
As ameaças e aventuras belicistas contra Venezuela, Cuba, Groenlândia e outros, substituindo a diplomacia pela chantagem e pela força bruta.
A transformação de agências de imigração numa Gestapo moderna, o ICE, responsável por deportações ilegais e pela morte trágica de cidadãos como Renee Nicole Good, mãe de família, e Alex Jeffrey Pretti, enfermeiro herói que servia nossos veteranos. Suas mortes não são incidentes isolados; são sintomas de um Estado que perdeu a compaixão e o respeito pela vida.
A corrupção moral e legal personificada no próprio Presidente: 34 condenações por falsificação de registros, fraudes financeiras, abuso sexual e difamação comprovados contra E. Jean Carroll, e alegações graves de pedofilia que mancham o cargo mais alto.
Como disse Bernie Sanders: “Isto não é sobre esquerda ou direita. É sobre a defesa da decência comum e da justiça contra um homem que vê a Presidência como um negócio pessoal e o povo americano como súditos a serem espoliados. Nós dizemos: Basta!”
O Presidente Barack Obama nos alertou: “A democracia não é automática. Ela precisa ser alimentada, precisa ser defendida.” E hoje, a defesa exige coragem cívica. Milhões já tomaram as ruas, de Nova Iorque a Los Angeles, de Chicago a Houston, erguendo um grito uníssono que ecoa os da Revolução: “No King!” Não aceitaremos um rei, um déspota, um homem acima da lei.
A Senadora Kamala Harris proclama: “Estamos testemunhando um abuso sistemático de poder que fere a alma de nossa nação. O ICE, sob esta administração, personifica o pior do autoritarismo. Defender nossos valores imigrantes é defender a própria ideia de América.”
O Governador da Califórnia Newson ecoa: “Nosso estado, e todos os estados que acreditam na dignidade humana, não se curvarão. Resistiremos à ilegalidade e protegeremos nosso povo.”
Este não é apenas um apelo americano. É um grito da Humanidade. A nova “Constituição de facto” que Trump tenta impor – baseada no capricho, na impunidade e no desprezo pelo direito internacional – é uma ameaça planetária. Ela incentiva tiranos, solapa alianças de décadas, ridiculariza a luta contra a crise climática e põe em risco a paz global.
Por isso, nossa voz se une ao coro internacional:
O Secretário-Geral da ONU lembra que o respeito à Carta das Nações Unidas e aos direitos humanos começa em casa.
A Comunidade Econômica Europeia e os Presidentes da Alemanha, França e Espanha afirmam: a aliança transatlântica é feita de valores compartilhados, não de interesses mercantis submetidos à volatilidade de um homem só.
Os Presidentes do México, Colômbia, Chile, Brasil, Canadá, e das nações da África e Ásia, sabem muito bem: o imperialismo arrogante e a desestabilização são receitas para o sofrimento de seus povos.
A China, em sua complexa relação com os EUA, observa a hipocrisia de quem prega regras que não segue.
O Planeta Terra clama por líderes que ouçam a ciência, não a neguem por lucro.
Qual será o próximo? Esta é a pergunta que paira sobre todos nós. O próximo país invadido? O próximo direito revogado? A próxima vida brutalizada pelo ICE? A próxima instituição democrática estrangulada?
A História não julgará com brandura os que, em momento de crise, ficaram em silêncio. A História nos chama a agir. A Câmara dos Representantes, com a coragem de seus membros Democratas e de Republicanos de consciência, tem o dever constitucional e moral de iniciar o impeachment. O Senado tem a obrigação de julgar com serenidade e severidade.
Concluímos, nas palavras deAbraham Lincoln, que esta nação, “sob Deus, terá um renascimento da liberdade – e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não perecerá da Terra".
Para que essa promessa não pereça, para honrar os sacrifícios de todos que vieram antes de nós, e para garantir um futuro de dignidade para os que virão depois, nós, o povo americano, em uníssono com a Humanidade e com a própria História, exigimos:
O impeachment de Donald J. Trump. Agora.
Assinado,
Bernie Sanders, Senador dos Estados Unidos
Barack Obama, 44º Presidente dos Estados Unidos
Kamala Harris, Senadora e ex-Procuradora-Geral
Governador do Estado da Califórnia
O Partido Democrata Americano e seus Congressistas
António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas
Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia
Os Presidentes da Alemanha, França, Espanha, México, Colômbia, Chile, Brasil, Canadá, China, e dos povos da África e da Ásia.
Em nome da Humanidade e do Planeta Terra.
Um só povo, uma só luta: pela Democracia.
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