SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O dom de cozinhar transforma-se no dom de libertar — e todos estão convidados à mesa. Por Egidio Guerra


Da cozinha para o mundo!


Assim como um cozinheiro não pode criar pratos extraordinários sem encontrar ingredientes de qualidade, um professor não pode iluminar mentes sem buscar os saberes que acendem a curiosidade e trazem alegria ao aprendizado. O dom — seja na cozinha ou na sala de aula — não é mágica: é a habilidade de temperar a descoberta, de dar sabor ao processo de conhecer. É aprender a cozinhar ideias e sensações, despertando o paladar para a vida.

O filme francês "Da Cozinha para o Mundo" encarna perfeitamente essa metáfora. Nele, vemos como o que era apenas um trabalho — o ato de cozinhar — transforma-se no sabor da liberdade. A culinária deixa de ser um privilégio da nobreza e torna-se uma linguagem universal, acessível a todos. Esse é o primeiro ato revolucionário: democratizar o prazer, fazer da boa comida um direito, e não um luxo.

O filme nos mostra que comer bem é um ato de amor — amor aos ingredientes, ao processo, às pessoas com quem se compartilha a mesa. É permitir-se amar verdadeiramente aquilo que se escolhe para a plantação e colheita da vida. Esse sonho, aparentemente simples, torna-se realidade e muda a História não por grandes gestos, mas pelo cotidiano. São atos revolucionários disfarçados de receitas: um pão bem feito, um molho que aconchega, um prato que conta uma história.

O gosto é uma conquista. Assim como a beleza e a inteligência, ele não nasce pronto — mas carrega em si uma centelha divina, um dom que pode ser cultivado. Cada gesto no tempo, cada movimento no fogão, "cozinha" a vontade até que ela se transforme em qualidade bela. A paciência e a repetição refinam o instinto.

O mundo muitas vezes nos parece feio — mas o filme lembra que nós o tornamos feio quando negligenciamos os pequenos prazeres, quando subestimamos o poder transformador de uma refeição feita com cuidado. Ouvir música ou comer não significam, por si só, talento; mas a atenção dedicada a esses atos pode revelar o talento de viver com profundidade.

Pequenas alegrias abrem as portas do céu. Um aroma que invade a cozinha, uma cor vibrante no prato, um sabor que traz memória. O apetite vai muito além da culinária — é preciso desenvolver a beleza interior para degustar plenamente o sabor de viver. A refeição, quando verdadeiramente vivida, será longa em significados; a noite, curta diante da riqueza desses momentos compartilhados.

"Da Cozinha para o Mundo" nos ensina que a verdadeira revolução começa no lar, no fogão, no ato de escolher com amor o que nutrirá o corpo e a alma. É na simplicidade de um jantar que se planta a semente da mudança, colhendo não apenas alimentos, mas dignidade, identidade e liberdade. Assim, o dom de cozinhar transforma-se no dom de libertar — e todos estão convidados à mesa.

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