SABERES TRANSDISCIPLINARES E ORGÂNICOS.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Impacto das Mudanças Climáticas na Teoria Econômica.

 


Trajetórias de Exploração sob Diferentes Enfoques

Um dos problemas mais complexos e fundamentais da teoria econômica dos recursos renováveis é determinar a trajetória ótima de exploração de uma população animal ou vegetal sujeita a um dado nível ou estratégia de extração. O núcleo deste desafio reside em conciliar dois movimentos dinâmicos e frequentemente antagônicos: a dinâmica biológica da população (crescimento, regeneração, capacidade de suporte) e a lógica econômica da extração (maximização de lucro, utilidade ou bem-estar social ao longo do tempo). O "nível de extração" atua como a variável de controle que conecta esses dois sistemas, e a "trajetória ótima" é aquela que equilibra a exploração hoje com a conservação do capital natural para amanhã.

Este desafio manifesta-se de forma distinta conforme a natureza do recurso e o horizonte temporal considerado, sendo ilustrado por três corpos teóricos clássicos:


1. Recursos Pesqueiros: Os Modelos de Gordon-Schafer e Beverton-Holt

O desafio aqui é definir a captura sustentável máxima (Rendimento Máximo Sustentável - RMS) e, principalmente, o esforço de pesca economicamente ótimo, considerando uma população que se reproduz e cresce de forma contínua.

  • Modelo Gordon-Schafer (Bioeconômico Básico):

    • Desafio da Trajetória: Encontrar o nível de esforço de pesca (E) que maximiza o lucro econômico de longo prazo, indo além do simples RMS biológico. A dinâmica populacional é modelada por uma curva logística (Schaefer). O lucro é a receita da venda do pescado menos os custos do esforço.

    • Solução e Crítica: O modelo demonstra que o Rendimento Máximo Econômico (RME) ocorre com um esforço de pesca menor que o do RMS, pois considera os custos. O grande desafio/limitação é que, em um regime de livre acesso (open access), a trajetória tende ao equilíbrio de "sobre-exploração econômica" (lucro zero), onde o recurso é esgotado até um nível abaixo do ótimo. A trajetória desejada (RME) requer gestão ativa, como cotas ou direitos de propriedade.

  • Modelo Beverton-Holt (Baseado em Características da Coorte):

    • Desafio da Trajetória: Determinar não apenas quanto pescar, mas quando e de qual tamanho pescar. Este modelo incorpora detalhes como taxas de crescimento, mortalidade natural e seletividade das artes de pesca. Foca na dinâmica por coorte (grupo de indivíduos do mesmo ano).

    • Solução e Crítica: A trajetória de exploração ótima envolve permitir que os peixes atinjam um tamanho ideal antes de serem capturados, maximizando o rendimento em biomassa por recruta (Y/R). O desafio prático é a imensa necessidade de dados (crescimento, mortalidade) e a dificuldade de implementar uma gestão tão refinada em pescarias multiespecíficas e de grande escala.


2. Recursos Florestais: Os Modelos de Fisher e Faustman

O desafio central desloca-se para o momento ótimo do corte (rotation period). A extração é total (corte raso) e descontínua, e o recurso se regenera em ciclos.

  • Modelo de Fisher (Corte Único):

    • Desafio da Trajetória: Para um único proprietário que fará apenas um corte em sua vida, quando cortar a floresta para maximizar o valor presente do lucro? Deve-se equilibrar o crescimento biológico (que é rápido no início e depois desacelera) com a taxa de juros do capital (o custo de oportunidade de manter o dinheiro imobilizado na floresta).

    • Solução e Crítica: O corte ótimo ocorre quando a taxa de crescimento percentual da madeira se iguala à taxa de juros de mercado. A crítica é sua irrealidade: raramente uma floresta é gerida para um corte único.

  • Modelo de Faustman (Corte Múltiplo ou Rotação Infinita):

    • Desafio da Trajetória: Este é o cerne do problema para um gestor florestal. Qual o intervalo de rotação que maximiza o valor presente do solo florestal considerando uma série infinita de cortes e replantios?

    • Solução e Crítica: A rotação ótima de Faustman é mais curta que a de Fisher, pois leva em conta o valor do solo para produzir rendas futuras. O maior desafio teórico e prático é incorporar outros valores (serviços ecossistêmicos, carbono, biodiversidade, recreação) que não o mero valor da madeira, o que alongaria significativamente a rotação "ótima".


3. Recursos da Biodiversidade: O Modelo Gordon-Schafer-Clark e Além

Aqui, o desafio atinge sua máxima complexidade. O "recurso" não é uma população homogênea, mas um estoque de capital biológico diversificado que gera fluxos de serviços ecossistêmicos (polinização, regulação climática, valores de existência).

  • Modelo Gordon-Schafer-Clark (Extensão para Espécies em Risco):

    • Desafio da Trajetória: Como explorar (ou preservar) uma população biologicamente vulnerável (ex.: baleia, elefante) quando ela tem um valor econômico alto e uma taxa de crescimento intrínseca baixa? A dinâmica incorpora o risco de extinção.

    • Solução e Crítica: O modelo mostra que, se o custo de extração for baixo e a taxa de desconto (preferência pelo presente) for alta, a trajetória economicamente "ótima" pode levar à extinção da espécie, pois é mais lucrativo colher todo o recurso agora e investir o capital em outro lugar. Este resultado chocante expõe o dilema ético e a limitação fatal de uma análise puramente financeira para recursos de biodiversidade.

  • Abordagens Modernas:

    • O desafio atual vai além da exploração direta, focando na manutenção do estoque de biodiversidade como um ativo que gera serviços. A trajetória de uso do solo (desmatamento vs. conservação) é modelada comparando o valor presente da conversão (para agricultura) com o valor presente dos serviços ecossistêmicos perdidos. A enorme dificuldade é a valoração econômica robusta desses serviços e a incorporação de incertezas irreversíveis (perda de espécies únicas).


Conclusão: A Síntese do Desafio

O principal desafio comum a todas essas teorias é resolver um problema de otimização intertemporal sob restrições biofísicas. A fórmula geral é: Maximizar o valor presente líquido dos benefícios da extração, sujeito à equação de movimento da população (biologia).

As diferenças entre os modelos surgem da especificação:

  1. Da dinâmica biológica: Logística (Gordon-Schafer), por coorte (Beverton-Holt), em pulsos (Faustman), ou com risco de colapso (Clark).

  2. Da função objetivo: Lucro privado (Gordon, Faustman), bem-estar social (que pode incluir valores não mercantis da biodiversidade).

  3. Do regime de propriedade: Livre acesso (tragédia dos comuns) vs. propriedade bem definida.

Portanto, identificar a trajetória de exploração não é um exercício puramente matemático. É um ato de governança que exige escolher quais valores (presentes vs. futuros, mercantis vs. ecológicos) serão privilegiados. As teorias fornecem mapas lógicos poderosos, mas seu sucesso na prevenção da sobre-exploração depende, em última instância, da capacidade institucional e política de implementar as trajetórias ótimas que elas indicam, especialmente quando essas prescrevem a contenção do ganho imediato em favor da sustentabilidade de longo prazo.


O Impacto das Mudanças Climáticas na Teoria Econômica dos Recursos Renováveis

As mudanças climáticas representam uma profunda transformação no paradigma teórico da economia dos recursos renováveis, introduzindo incertezas sistêmicas e não-linearidades que desafiam os modelos tradicionais. Elas não são apenas mais um parâmetro a ser ajustado, mas redefinem a própria estrutura dos problemas de otimização intertemporal.


Impactos Transversais aos Modelos Teóricos

1. Desestabilização dos Parâmetros Fundamentais

Os modelos clássicos assumem parâmetros biológicos estacionários ou com flutuações estocásticas conhecidas. As mudanças climáticas tornam esses parâmetros não-estacionários e potencialmente não-lineares:

  • Taxa de crescimento intrínseca (r): Temperaturas, acidificação oceânica e alterações no pH afetam metabolismos, taxas reprodutivas e sobrevivência larval.

  • Capacidade de suporte (K): Modificações nos habitats (ex.: branqueamento de corais, desertificação, derretimento de gelo marinho) reduzem drasticamente a capacidade de suporte dos ecossistemas.

  • Estrutura etária e de tamanho: Eventos extremos (ondas de calor, furacões) causam mortalidade massiva seletiva.

Implicação Teórica: As funções de crescimento (ex.: logística de Schaefer) perdem sua validade preditiva. O "ponto ótimo" (RMS, RME) torna-se um alvo móvel que pode deslocar-se rapidamente ou desaparecer.

2. Introdução de Incerteza Irredutível e Riscos de Colapso

Os modelos como o de Faustman ou Gordon-Schafer trabalham com probabilidades conhecidas. As mudanças climáticas introduzem:

  • Incerteza Knightiana: Incapacidade de atribuir probabilidades objetivas a eventos extremos (ex.: ponto de virada - tipping points).

  • Risco de Colapso Irreversível: A probabilidade de um recurso entrar em colapso populacional sem possibilidade de recuperação (ex.: morte de florestas tropicais por estresse hídrico combinado com incêndios) aumenta substancialmente.

Implicação Teórica: A taxa de desconto social deve ser reavaliada. Tradicionalmente alta para recursos privados, ela pode precisar ser drasticamente reduzida para incorporar o risco de perda irreversível para as gerações futuras (conceito de "quase-aversão à catástrofe"). O modelo de Clark para espécies em risco torna-se aplicável a uma gama muito maior de recursos.

3. Alteração das Relações Espaciais e Conectividade

Muitos modelos assumem populações fechadas ou com dinâmicas migratórias estáveis. As mudanças climáticas causam:

  • Deslocamento de áreas de distribuição (migração para maiores latitudes ou altitudes).

  • Dissincronia trófica (ex.: florescimento de fitoplâncton e nascimento de larvas de peixe deixam de coincidir).

  • Fragmentação de habitats que impede a migração adaptativa.

Implicação Teórica: Os modelos devem incorporar explicitamente a dimensão espacial e a conectividade meta-populacional. A gestão ótima deixa de ser sobre um stock único e passa a ser sobre uma rede de stocks interconectados sob stress diferencial.


Impactos Específicos por Tipo de Recurso

A. Recursos Pesqueiros (Gordon-Schafer, Beverton-Holt)

  • Redefinição do RMS e RME: Os níveis de referência históricos tornam-se obsoletos. Um "nível de exploração sustentável" calculado para condições climáticas passadas pode ser, na verdade, uma sobre-exploração sob novas condições.

  • Mudança na Produtividade dos Ecossistemas: A acidificação dos oceanos afeta espécies com conchas/carapaças (ex.: ostras, krill), alterando cadeias alimentares inteiras. O modelo Beverton-Holt, dependente de parâmetros específicos por espécie, perde utilidade se a fisiologia da espécie muda.

  • Novo Risco de Colapso: O aumento da temperatura da água pode levar a eventos de hipóxia (zonas mortas), causando colapsos populacionais abruptos não previstos nos modelos baseados em pressão de pesca isolada.

  • Adaptação da Teoria: Surge a necessidade de Regras de Controle Adaptativas (Harvest Control Rules) que reajam a indicadores climáticos (ex.: índice de ENSO - El Niño) em tempo quase real, em vez de seguir uma trajetória fixa pré-determinada.

B. Recursos Florestais (Fisher, Faustman)

  • Revolução no Período de Rotações de Faustman:

    1. Aumento do Risco: Incêndios florestais mais frequentes e intensos, surtos de pragas (ex.: besouro-do-pinheiro) e secas prolongadas atuam como um "imposto sobre o estoque". O proprietário racional, antecipando a maior probabilidade de perder a floresta antes do corte planejado, tem incentivo para encurtar o período de rotação (cortar mais cedo), levando à desflorestação preventiva.

    2. Novos Fluxos de Valor: O valor do carbono florestal estocado se torna um componente major da função objetivo. Uma floresta mantida em pé gera renda via créditos de carbono, alongando o período de rotação ótimo. O modelo Faustman precisa incorporar o preço do carbono como um fluxo contínuo, não apenas o valor da madeira no momento do corte.

    3. Mudança nas Taxas de Crescimento: Estresse hídrico e térmico podem reduzir as taxas de crescimento, alterando o ponto de igualdade entre crescimento percentual e taxa de juros no modelo de Fisher.

C. Recursos da Biodiversidade (Gordon-Schafer-Clark e Modelos de Serviços Ecossistêmicos)

  • Aceleração do Risco de Extinção Econômica: A lógica clarkiana de que espécies de baixo crescimento podem ser levadas à extinção se torna muito mais provável. O stress climático reduz ainda mais a taxa de crescimento (r), tornando a população biologicamente mais vulnerável à mesma pressão de exploração.

  • Valor de Opção e de Existência em Alta: A incerteza sobre quais espécies/ecossistemas serão críticos para a adaptação humana (ex.: fontes de medicamentos, polinizadores resilientes) aumenta drasticamente seu valor de opção. A teoria precisa formalizar a ideia de que conservar biodiversidade é manter um portfólio de opções contra futuros incertos.

  • Colapso de Serviços Ecossistêmicos Não-Mercantis: Modelos que tentam valorar serviços como polinização, controle de enchentes ou regulação climática local enfrentam o desafio de modelar seu colapso não-linear. A perda não é marginal, mas pode ser abrupta após um limiar climático ser ultrapassado.


A Necessidade de uma Nova Teoria Sintética

As mudanças climáticas exigem uma evolução dos modelos tradicionais para uma Economia dos Recursos Renováveis sob Mudança Ambiental Global. Seus pilares seriam:

  1. Modelos Híbridos e Resilientes: Combinar modelos bioeconômicos com Modelos do Sistema Terrestre para projetar mudanças nos parâmetros biológicos.

  2. Gestão Adaptativa como Norma: Substituir a busca por um "ótimo estático" por estratégias de gestão adaptativa, que aprendem com o monitoramento contínuo e ajustam as regras de extração.

  3. Incerteza Endógena: Incorporar explicitamente a incerteza climática nas funções objetivo, usando ferramentas como análise de robustez (buscar estratégias que funcionem bem em múltiplos cenários) em vez de otimização esperada.

  4. Taxas de Desconto Condicionais ao Clima: Desenvolver taxas de desconto que variam conforme o estado do sistema climático e o nível de risco de colapso do recurso.

  5. Foco na Resiliência do Ecossistema: A métrica de sucesso deixa de ser apenas o rendimento máximo sustentável de uma espécie-alvo e passa a ser a capacidade do ecossistema de manter funções e serviços sob perturbação climática.

Conclusão

As mudanças climáticas não apenas adicionam complexidade aos modelos existentes; elas questionam seus pressupostos fundamentais de estabilidade e previsibilidade. A teoria econômica dos recursos renováveis, para permanecer relevante, deve abandonar a visão de um sistema natural em equilíbrio a ser explorado otimamente, e abraçar a visão de um socioecossistema dinâmico e perturbado, onde a gestão é um processo contínuo de gestão de riscos, adaptação e construção de resiliência. O maior desafio deixa de ser identificar *a* trajetória ótima, e passa a ser navegar um mar de trajetórias possíveis em um ambiente em constante mudança.






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